Entrevista: João Carlos Martins inicia temporada da Bachiana Filarmônica e fala sobre expectativas na música

A música é uma das formas de arte mais sublimes que podemos contemplar. Além disso, ela tem um poder de transformação indiscutível, tanto para seus ouvintes como para quem se arrisca como músico profissional.

Em tempos de caos, com tantas discussões sobre os desdobramentos políticos e econômicos de nosso país, que apontam para um cenário preocupante, há que se recorrer ao poder transformador da arte enquanto válvula de escape e como uma poderosa ferramenta de combate ao conservadorismo e ao retrocesso. E para falar de arte, é importante que estejamos atentos aos movimentos de figuras verdadeiramente engajadas com projetos sociais e que saibam utilizar suas próprias dores enquanto instrumentos de superação e da descoberta de novos caminhos.

Crédito: Fernando Mucci/Divulgação
Crédito: Fernando Mucci/Divulgação

Figura conhecida do grande público brasileiro graças à sua história, tantas vezes abordada como uma forma inspiracional de dar a volta por cima, o maestro João Carlos Martins precisou percorrer uma forma de calvário para chegar ao posto de uma das figuras mais respeitadas do país no campo da música erudita. Pianista reconhecido mundialmente, acidentou-se mais de uma vez e, como resultado, teve parte dos movimentos das mãos comprometida, o que o levou a aprimorar seus estudos sobre regência musical até, finalmente e de maneira surpreendente, se consagrar na carreira.

À frente da Bachianas Filarmônica Sesi-SP, fundada em 2004 e reconhecida como a maior da iniciativa privada da América Latina, com reconhecimento mundial, João Carlos Martins inicia a Temporada 2018 da orquestra com uma apresentação nessa terça-feira (27/03), às 20h, no Theatro Municipal de São Paulo, com repertório amparado pela obra de Tchaikovsky. A escolha do compositor russo como agente impulsionador da abertura das apresentações se deve à comemoração dos 125 anos de sua morte. Posteriormente, no dia 3 de abril, a orquestra terá Johann Sebastian Bach (compositor alemão cuja interpretação dada por João Carlos Martins ao piano lhe garantiram prestígio internacional) como grande homenageado.

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Crédito: Fernando Mucci/Divulgação

Sobre a nova temporada, João Carlos mostra-se otimista: “Espero que seja uma das mais emocionantes da história da orquestra. Fiz questão de começar o ano com esta homenagem a um dos grandes compositores, que nos deixou há 125 anos”, afirma ele, retomando a referência a Tchaikovsky. Dessa forma, o programa do concerto se inicia com a Sinfonia no. 4 em fá menor opus 36, uma das mais conhecidas do artista russo. Na sequência, a Valsa no. 2 da Jazz Suite, de Dmitri Shostakovich, mantém o tom complexo da música erudita russa, que acaba por encerrar o concerto com uma composição de Sergei Rachmaninov, Adagio sostenuto, segundo movimento do Concerto para Piano e Orquestra no. 2, em dó menor, opus 18. 

A seguir, você confere trechos da entrevista que o maestro concedeu ao Menina da Estrada por e-mail, com reflexões sobre o papel da música na formação do cidadão, a importância de políticas públicas junto ao cenário cultural de São Paulo e do Brasil e mais detalhes sobre os projetos sociais assinados pelo maestro, que incluem atuação junto a um coral destinado a refugiados.

Blog Menina da Estrada: O que o senhor espera dessa nova temporada com a Bachiana Filarmônica, em termos de apresentação e da recepção do público? Além disso, como foi o processo de escolha do repertório?

João Carlos Martins: A expectativa é a melhor possível. Temos músicos de ótima qualidade e acredito que estamos em um momento muito bom como orquestra. Nosso objetivo vai ser emocionar o público em cada apresentação, tocar nos corações das pessoas. A escolha do repertório destes primeiros dois concertos foi uma homenagem a Tchaikovsky (27/03), que completa 125 anos de sua morte, e Bach (03/04) por toda sua importância na história e na minha carreira.

ME: O senhor ficou conhecido mundialmente pela interpretação de grandes composições de Bach. Como é revisitar esse universo enquanto maestro, depois de consolidar esse reconhecimento como pianista? O que há de mais fascinante no universo da música clássica alemã? 

J.C.M: O primeiro concurso que ganhei quando jovem foi tocando obras de Bach. Acabei me concentrando muito nesse compositor, procurando mostrar como mesclar a individualidade de um intérprete latino-americano com a personalidade de um dos maiores gênios da história da música. Ainda hoje, tenho imensa admiração pelo compositor.

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Crédito: Fernando Mucci/Divulgação

ME: O senhor tem uma trajetória complexa e emocionante na música, com uma história de superação inspiradora. Como a arte pode nos transformar? E principalmente: como usar a música, uma das formas mais expressivas de arte, como aliada para superar nossas dificuldades? 

J.C.M: Sempre acreditei que a música em si, não apenas a erudita, seja um instrumento de inclusão social. A música é de extrema importância para a formação do cidadão e um estímulo para o desenvolvimento da identidade, opiniões e gostos, que irá refletir no comportamento perante a sociedade. A música ajuda a se expressar e a compreender melhor as expressões dos outros.

Eu sempre digo que seria pouco dizer que a música me auxiliou nos desafios que enfrentei. Prefiro afirmar que a música salvou a vida deste velho maestro.

ME: O senhor tombou edifícios importantes para o cenário da arte paulistana como Secretário da Cultura, tais como o Teatro Oficina e a Pinacoteca. Como o senhor vê a expressão artística da cidade nos dias atuais? Como alinhar políticas públicas com a arte em benefício da mesma em tempos de tanto conservadorismo e avanço de pautas elitistas? 

J.C.M: A expressão artística precisa ter sua liberdade respeitada. Acho que as políticas públicas precisam ser pensadas para que tenha uma inclusão e um acesso maior para a população. Por isso sigo com meus projetos visando a democratização da música clássica. Com o Orquestrando São Paulo, que deve virar Orquestrando Brasil, estamos levantando orquestras pelo interior de São Paulo. Quero que este seja meu legado.

ME: A Orquestra Bachiana é reconhecida como a maior da iniciativa privada da América Latina. Como é estar à frente de um projeto tão grandioso? 

J.C.M: É motivo de muito orgulho. Temos um trabalho muito sério. Apesar de estar somente dando os primeiros passos da iniciativa privada na música, a orquestra quer provar que, no futuro, ela não dependerá das mudanças de governo que acontecem numa democracia e, se Deus quiser, ela terá a liberdade de continuar a democratização da música clássica no país.

E eu costumo dizer que, quando chegar o apagar das luzes da minha vida, graças à iniciativa da Fiesp e do SESI, a Bachiana Filarmônica SESI-SP deixará sua marca no cenário musical brasileiro. A música contribui fortemente para a formação de cada criança e jovem, pois aprender requer disciplina, concentração, atividade colaborativa e participativa, habilidades que são fundamentais no desenvolvimento de valores.

ME: O senhor comanda projetos sociais consideráveis. Me chama a atenção, porém, o fato de estar envolvido com o coral Somos Iguais, que abraça refugiados da Síria, do Congo e da Angola. Como é trabalhar em prol dessa causa e como é sua rotina frente à educação musical das crianças do projeto? O que mais te impactou na experiência e o que mais te motiva a seguir com ele? 

J.C.M: Eu fui impactado desde o primeiro momento em que a Daniela Guimarães (idealizadora do projeto) entrou em contato comigo pedindo ajuda com o coral. Aceitei na hora, porque vejo que os refugiados são a grande questão desse século. Minha participação foi, principalmente, a de abrir as portas e dar oportunidades para o coral seguir com as próprias pernas.

Conseguimos professores para ensaiarem com as crianças. Eles usam as instalações da Fundação Bachiana, enquanto eu, pessoalmente, participo de alguns ensaios e também de algumas aulas. O que mais me motiva é ver a alegria das crianças em cada concerto. O coral se tornou uma família, e isso é muito importante porque cada um tem a sua história e suas dificuldades.

Crédito: Fernando Mucci/Divulgação
Crédito: Fernando Mucci/Divulgação

ME: Como foi revisitar sua trajetória no filme “João – O Maestro”? O que achou do resultado final? 

J.C.M: Fiquei muito feliz com o resultado. Assistindo ao filme, eu me emocionei bastante. Acredito que desde a produção, direção, passando por todos os atores, foi tudo feito com muito carinho e cuidado. Fiquei orgulhoso do resultado final. 100% da minha vida musical está retratado no filme fielmente, já a minha vida pessoal foi adaptada por conta do enredo, para gerar fluidez.

ME: Como o senhor enxerga o cenário da música brasileira atualmente? O que considera bom e o que pode ser melhorado? Quais artistas merecem a atenção? 

J.C.M: Temos uma pluralidade muito grande no Brasil – e vejo isso de forma muito positiva. Acredito que todos os artistas, de diferentes estilos musicais, têm seu espaço. Acho que a música de qualidade merece reconhecimento. Gosto de me ater a isso e não ser injusto com um artista ou outro.

ME: Por fim, como podemos cativar mais pessoas, sobretudo jovens, para a música erudita? Em tempos de aceleração e tecnologia, como usar ambas a favor da música clássica?

J.C.M: Permitir o acesso de cada vez mais pessoas à música clássica é um desafio, e eu sigo buscando a democratização do gênero. Com o projeto Orquestrando São Paulo, desenvolvemos um curso completo à distância para ensinar maestros em cidades do interior do estado, unindo músicos locais e de igrejas, para levantar orquestras em cidades de até 60, 70 mil habitantes. A ideia é levar isso para todo o Brasil ainda em 2018. A tecnologia diminuiu as barreiras entre as pessoas e temos que aproveitar isso.

VAI LÁ
Temporada 2018 da Bachiana Filarmônica SESI-SP
Regência de João Carlos Martins
Datas: 
27/03; 03/04; 22/05; 15/08 e 26/09
Local: Theatro Municipal
Endereço: Praça Ramos de Azevedo, s/n – República – São Paulo – SP
Horário: 20h
Classificação etária: 10 anos
Preço dos ingressos: Setor I e II – R$ 50,00 (inteira) – R$ 25,00 (meia); Setor III R$ 25,00 (inteira) – R$ 12,50 (meia)
Informações e vendas: http://www.compreingressos.com / (11) 2626-0857.
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Programa do Concerto de 27/03

Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893)
Sinfonia no. 4 em fá menor opus 36
– Andante sostenuto -Moderato con anima (in movimento di valse)
– Andantino in modo di canzona
– Scherzo (pizzicato ostinato)
– Allegro con fuoco

Dmitri Shostakovich (1906-1975):
“Valsa no. 2” da “Jazz Suite”

Sergei Rachmaninov (1873-1943):
“Adagio sostenuto”, segundo movimento do Concerto para Piano e Orquestra no. 2, em dó menor, opus 18.

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2 Comments Add yours

  1. P. R. Cunha says:

    Excelente entrevista!, parabéns e obrigado por sempre compartilhar textos bacanas.

    1. camilahonorato says:

      ❤❤❤❤❤❤❤❤

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