Crítica de Cinema: o que extrair de “Cinquenta Tons de Liberdade”

Salve, minha gente. Foi nada mais, nada menos do que UM MÊS sem escrever por aqui. Os motivos foram nobres: tirei vinte dias de férias em Portugal. Não totalmente, já que, como jornalista freelancer, tive que cumprir com o protocolo de obrigações enquanto nômade digital – uma experiência super enriquecedora e que me fez rever meus planos e formas de trabalhar. Mas cá estou, de novo, voltando com a agenda de posts a serem publicados daqui pra frente.

Antes de entrar na surra de publicações sobre essa viagem (acreditem, a quantidade de textos separados pra falar da experiência vai fazer, das duas uma: ou você se irritar ou comprar passagens o mais rápido possível pra terrinha), vou resgatar o cronograma escrevendo sobre cinema. Falo sobre a franquia de Cinquenta Tons porque, dado os artigos que li recentemente sobre relacionamentos, ainda mais no mês das mulheres, acho prudente que a gente faça uma reflexão sobre o andamento das representações românticas no mercado do entretenimento.

Cinquenta Tons de Liberdade | Crédito: Divulgação
Ah lá a lua de mel dos moços. Bem pobre | Crédito: Divulgação

Como eu já havia escrito aqui em todas as análises que fiz sobre os filmes, que eu considero melhor do que os livros, acredito que não exista muito o que salvar em termos de narrativa e clímax, já que a escritora E. L. James não sai muito do básico e poderia ter destrinchado todos os conflitos de três obras literárias em uma só. Mas em termos de lucratividade, obviamente não seria a escolha mais acertada. E no longa metragem de encerramento da franquia, Cinquenta Tons de Liberdade (ou As Cinquenta Sombras Livre em Portugal, onde assisti ao filme), a condução de direção foi na medida certa.

Aqui, o casal que enlouqueceu leitoras do mundo inteiro, com histórias românticas e cenas de submissão e dominação no sexo, se casa. Anastasia Steele e Christian Grey (vividos por Dakota Johnson e Jamie Dornan, como de praxe) me pareceram mais comportados aqui, já que o foco principal do enredo pareceu mais escancarar as mazelas provocadas pela obsessão de Jack Hyde (Eric Johnson) e dos louros colhidos por uma união que, sobre todos os aspectos, luta pra se manter saudável mesmo com tanto drama e, sobretudo, a obsessão de Grey pelo controle de tudo. Há menos cenas de sexo do que sugerem os trailers, ainda que todas elas tenham sido mais sugestivas do que as anteriores (há mais vibradores, além da inserção de sexo anal na cama dos dois e de uma cena interessante de sexo oral em uma viagem dos pombinhos).

Cinquenta Tons de Liberdade | Crédito: Divulgação
Champagne e jatinho particular. Às vezes, a gente só quer sonhar com isso mesmo | Crédito: Divulgação

Em termos de impacto, é nítido que, desde o começo, Cinquenta Tons teve um grande mérito. Talvez a melhor lição a se extrair das tramas (muitas delas em tom de novela mexicana) seja o fato de que, em uma sociedade ainda dominada por obras literárias com protagonismo masculino, sobretudo no campo do sexo, ter mulheres falando sobre o assunto, incluindo o BDSM (ainda que sutil) nas suas rodas de conversa e tomando a frente dos seus desejos não é pouca coisa. Se publicada hoje, com o avanço das pautas do movimento feminista e o aumento de iniciativas voltadas para a revolução sexual, a trilogia talvez não fizesse um terço do sucesso. Mas, parando para observar o impacto que ela teve anos atrás, é nítido o quanto ela abriu portas para outras autoras publicarem livros sobre o assunto. E mais: o quanto ela foi o estopim para que muitas moças finalmente tivessem algo que falasse sobre o desejo feminino sem escrúpulos.

Há que se destacar a importância de falar sobre os males de romantizar um homem como Grey que, por mais bonito e galante que seja, tem o defeito monumental de querer controlar a vida pessoal e profissional da parceira a qualquer custo. Mas ter uma obra do gênero figurando entre os livros mais vendidos e batendo recordes de bilheteria, como bem disse Carol Teixeira em texto publicado na Revista Donna: “(…) O surgimento de um romance erótico que seja lido no metrô, comentado tanto em mesas de bar como em jantares de família, de fato não pode deixar de ser aplaudido nessa sua função”.

Cinquenta Tons de Liberdade | Crédito: Divulgação
A bem da verdade, eu achei que o Jamie Dornan foi o que mais valeu a pena nessa trilogia. Que homem! | Crédito: Divulgação

E mais: há um quê de cansaço insconsciente nas mulheres ao consumirem essas histórias, já que a militância e o excesso de funções tantas vezes representam o esgotamento. Será que o sucesso aqui reside no fato de que a gente, às vezes, só quer fantasiar um pouco de sexo e ter uma figura que proporcione esses meios de se divertir? “(…) Talvez as mulheres estejam de fato cansadas do papel de supermulheres e estejam querendo, nem que seja por algumas horas, sem contar para ninguém, mergulhar no conto de fadas de um livro ou filme que conta a história de uma menina inocente que se apaixona pelo milionário dominador que quer justamente tirar seu poder”, pontuou, inteligentemente, Carol. Aliás, sobre essa moça: vale a pena mergulhar fundo no conhecimento de seu trabalho com tantra e empoderamento sexual feminino, que se faz ultra relevante nos nossos tempos.

Sobre o filme em questão: a direção é boa, o papel dos atores cumpre com suas funções, a trilha sonora é o ponto alto e o figurino é de suspirar. E só: os elementos técnicos obviamente se destoam do enredo, que não carece de muitas palavras para analisá-lo. Aqui, é romance, um conflito a mais com a perseguição de um vilão delinquente e uma surpresinha extra na vida dos dois. À franquia, ficou a boa lição de que as moças querem gozar, a reflexão sobre o que é ou não um relacionamento abusivo e, principalmente, a conscientização de que a gente pode e deve falar sobre os nossos desejos. E que fantasiar é bom, obrigada.

VAI LÁ
Cinquenta Tons de Liberdade
Direção: James Foley
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Rita Ora, Luke Grimes, Viktor Rasuk, Eloise Mumford, Jennifer Ehle, Arielle Kebbel, Max Martini e mais.
Roteiro: Niall Leonard
Trilha Sonora: Danny Elfman
Produção: Mike De Luca, E.L. James e Dana Brunetti
Fotografia: John Schwartzman
Distribuição: Universal Pictures
Classificação Final: ♥♥♥ (Bom)

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