Crônica: O chamado do inverno

No frio, não existe a obrigação de ser feliz.

Uma amiga me disse essa frase em uma tarde de choro pós-término. Um dia onde eu só conseguia me lembrar do relacionamento que acabara de se romper, sem uma certeza de um contato, um sentimento mútuo de gratidão ou uma falta.

Era um dia de cólica. Quem menstrua, sabe o quanto isso pode tornar o dia pior e mais triste. Remédios para curar a ressaca pós-vinho, o gosto ruim que aparece na manhã de um pós- vômito. A dor incessante embaixo do ventre.

Crédito: Lukas Neasi/Unsplash
Crédito: Lukas Neasi/Unsplash

Quando se está bem com o seu eu, há como amar o frio. Há como amar a sensação trazida pelos ventos cortantes, um caminho sem rumo na calçada, uma banda dos anos 1980 tocando nos fones de ouvido. Um filme despreocupado, um programa qualquer em um museu para se apreciar obras de artes impressionistas, onde bailarinas traduzem um estado de incógnita emocional, mas que acalentam e trazem beleza aos olhos.

Mas quando a tristeza aparece, todo o frio sentido do lado de fora se converte em uma extensão de uma lágrima congelada no meio do rosto. Entre junho e agosto, o florescer traiçoeiro dos ipês parece casar os cenários da cidade grande com um bosque distante em uma floresta europeia ou uma montanha nevada do Novo Mundo. O inverno é convidativo ao amor, mas também é um chamado de autoconhecimento, de um olhar para dentro, um auto abraço enquanto o mundo lá fora se desmancha em tremor, vento e chuva.

O cinza não é a personificação do sorriso, mas um contraponto interessante entre a tristeza e a serenidade. Um dia cinza pode perdurar por semanas ininterruptas antes de um raio de sol desavisado bater do lado de fora da janela. Mas é um momento interessante para curtir um aconchego. Ainda que esse aconchego venha na forma de suas próprias mãos.

Crédito: Tadeusz Lakota/Unsplash
Crédito: Tadeusz Lakota/Unsplash

Nas horas que se passaram, acolhi aquela frase como um mantra protetor e cuidei de aceitar minha própria condição emocional. Não estou feliz e não preciso. Eu tremo por dentro e minha mão não se esquenta. O coração anda ferido e cheio de rupturas.

Me cobri no sofá, chorei sem pensar duas vezes e adormeci confiando no tempo.

Confiando nas amplitudes térmicas do lado de fora, no convite que o inverno fez de me aprofundar em mim mesma e de adormecer, esperando que as horas intermináveis virassem semanas e que logo esse gelo interno se derretesse.

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