Crônica: como o Carnaval me ajudou a curar minha depressão

O Carnaval sempre foi uma data permeada por contradições pra mim. Em meio à folia colorida que invade as ruas e os sambódromos de todo o Brasil, eu não conseguia definir direito se essa data é algo que eu amo com todas as minhas forças, pela possibilidade de tanto ferver na farra quanto de descansar, ou algo que deve ser estudado por seus excessos.

Veja bem: o Carnaval está para o brasileiro como a Oktoberfest está para a Alemanha. O país pára para aplaudir os desfiles das escolas de samba, a loucura dos blocos de rua, as festas que se acumulam por entre casas noturnas… Ao mesmo tempo em que ela traz sorrisos, músicas e uma zoeira sem fim, ela também acende o debate sobre a hipcrisia do povo brasileiro em relação à nudez (afinal de contas, somos um país que censura mamilos até de mães de amamentam, mas se o topless vier com o samba na avenida tá liberado), à objetificação da mulher negra, às histórias escabrosas de abusos sexuais e abordagens agressivas de homens em cima das mulheres, aos excessos de álcool e drogas… Tudo é dúbio. Mas a festa está aí. E tudo gira mais devagar enquanto um carro alegórico passa em frente aos olhos fascinados da plateia, a ponto de a gente esquecer um pouquinho dos problemas econômicos e dos escândalos políticos que cercam as nossas terras.

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As cores do Carnaval tiveram a ousadia de se infiltrar na brutalidade do meu humor sombrio | Crédito: Nikunj Gupta/Unsplash

A maior parte dos meus carnavais foi passada em casa, com a televisão transmitindo as competições coloridas das escolas. Vez ou outra, eu me permiti pegar a estrada em direção a uma praia ou ao campo, sem grandes histórias pra contar. Do meu ponto de vista, sempre foi mais um feriado prolongado que caía como uma luva pra devorar livros e deitar no sofá sem qualquer preocupação. Isso tudo até o ano retrasado, quando essa data deixou de ser algo dúbio pra se tornar um dos episódios mais marcantes da minha vida. Foi graças a ela que, em meio a um tratamento conturbado, eu senti os primeiros indícios de que a minha depressão estava me deixando. Foi no Carnaval que eu senti minha vida sendo devolvida a mim. 

Vejam bem: não é fácil pra mim colocar esse cenário em palavras. A lembrança da importância desse episódio faz com que eu sinta na minha pele e nos meus ossos o quanto minha própria vida quase me escapou pelos meus dedos. E isso me faz chorar e sorrir ao mesmo tempo com uma intensidade brutal. Na ocasião, eu era vigiada quase que 24 horas por dia pela minha família, sob a ameaça constante de um pensamento destrutivo incorporar na forma de uma tentativa de suicídio.

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Depois de longas semanas sem vaidade, me vi pensando nas pinturas que poderia fazer no meu corpo pra pular na rua | Crédito: MUILLU/Unsplash

Minhas idas ao consultório do psiquiatra estabeleceram a dosagem certa da minha medicação, mas os hábitos de vida, que o médico e a terapeuta tanto insistiam para que fossem melhorados em prol da minha saúde psíquica, ainda estavam em um constante processo de melhoria e readaptação. Eu ainda pensava na dor, ainda pensava no caos em que a minha mente se encontrava. Mas partir do caos urbano da minha querida São Paulo em direção à serra de Minas no meio dessa data foi um passo longo e ousado em direção à luz.

Em 24 anos de vivência, eu não consigo me lembrar de nenhum outro Carnaval que tenha sido tão importante. Tenho vagas lembranças do Carnaval de rua na praia, de copos de cerveja e gargalhadas em meio aos blocos de rua em Pinheiros (SP)… Mas nada que não passasse do bom, do trivial, de mais um episódio divertido pra acrescentar na minha lista. E só. A folia que era tão valorizada por boa parte das pessoas que me cercavam não era, assim, uma constante.

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Deixei confetes caírem em cima de mim – e o gesto aplacou minha ansiedade | Crédito: Jason Leung/Unsplash

No entanto, ao cruzar com o brilho bucólico de uma cidade mineira em meio à tormenta, era quase como se um sopro do samba tivesse invadido meu estado de espírito pra me convencer de que a vida valia a pena. Que o glitter e a purpurina soprados no ar podiam ser a personificação do meu humor naquela época. Eu podia converter toda a tristeza e a dor de tempos de caos psíquico em um cenário colorido e vívido proporcionado pelo Carnaval.

Em Passa Quatro (MG), abdiquei do marasmo da data que eu havia vivenciado em anos anteriores, passados dentro de casa e maratonando séries. Acanhada por causa da novidade de viajar pela primeira vez em tanto tempo, sendo essa a primeira viagem que eu ousava fazer depois do diagnóstico de TAG e depressão, eu simplesmente sentei na rede com um romance nas mãos e me pus a ler. Medicada, me permiti interagir pela primeira vez com a minha família depois de longas semanas de um isolamento auto imposto.

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A profusão de cores brilhantes no meio da escuridão fizeram com que eu passasse a amar o Carnaval | Crédito: rawpixel.com/Unsplash

Sem apelar pra bebidas alcoólicas, consegui dançar no meio da roda feita pelos parentes, comer o churrasco bem feito pelo meu pai pra depois cochilar com ele na parte da tarde. Depois de me acostumar com tantas noites insones, ter a paz de uma sesta era uma novidade e tanto. E mais do que isso: ver meus tios sorrindo por me ver sorrir e meus pais aliviados por não haver qualquer sombra de uma crise de pânico que eles tantas vezes presenciaram teve um efeito calmante tal qual a pílula do meu Rivotril. “Ela está linda e feliz”, comemorou um dos meus tios, clicando uma foto minha no meio da folia.

As cores do Carnaval também ganharam vida na riqueza do pomar, onde eu perdi alguns minutos tomando sol. Elas também estiveram presentes na estrada, onde me aventurei por mais de duas horas andando de bicicleta embaixo de um calor insistente, cercada por cavalos bagunceiros, casas antigas e o verde das árvores da ruralidade constante daquele pequeno pedaço de terra mineiro.

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Conquistei o brilho de um cenário bucólico – e converti a folia na tranquilidade da autocura | Crédito: Milan Popovic/Unsplash

O colorido daquele glitter borbulhava na terra vermelha das trilhas e na psicodelia das águas frias das cachoeiras que sim: eu ousei mergulhar. Elas também ressurgiram na forma de confetes e fitas coloridas lançados pelos ares por foliões nos blocos de rua que eu tive coragem de visitar. Estava na dança compartilhada, no calor do abraço da família, no gosto queijo caseiro comprado no centro da cidade e nos sorrisos de estranhos que eu presenciava naquele lugar.

Quando voltei pra casa, notei a ausência de humores destrutivos que me eram comuns. Notei que meu olho voltava a brilhar. Que minha vontade de viver saía das loucuras das músicas carnavalescas pra se embrenhar pelo ar daquele verão. Quando a tristeza se abatia no corpo, eu recorria às lembranças recentes e acolhedores que aquele Carnaval havia me proporcionado – e aquilo me fazia voltar a ter vontade de fazer coisas, de ter planos.

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O brilho do Carnaval invadiu, por fim, meu estado de espírito – a calou a obscuridade de uma depressão contínua | heyerlein/Unsplash

Hoje, à beira de mais uma folia, estou só. Depois de cinco anos, é o primeiro Carnaval que vou passar sem estar no status de garota comprometida. Tal qual a farra que me salvou do precipício, essa data de novo está cercada de importância. Enquanto planejo me fantasiar e gargalhar nos bloquinhos de rua de Sampa, também anoto em folhas de papel os meus roteiros para a primeira viagem internacional que farei na próxima semana. Embarco com os resquícios da festa carnavalesca para o primeiro passo de um dos maiores sonhos da minha vida, que é me embrenhar por ruas e culturas estrangeiras. De novo ele está aí, com seus ares importantes, me devolvendo as rédeas da minha vida e mostrando a importância da minha autossuficiência e processo de autoamor e redescoberta.

O Carnaval saiu da dualidade pra se fixar no brilho colorido que se apossou da minha alma, e que hoje faz dessa festa um episódio querido e permeado por gratidão. Pois foi no Carnaval que eu voltei a viver. Mais de uma vez.

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