Crônica: Quando ela escapou pelos seus dedos

Era uma bela mulher, com todos os atributos possíveis. Um corpo cheio de curvas, uma face delicada, uma inteligência fora do comum.

Ele era um homem imaturo para sua idade. Uma pessoa que se cercava das mesmas piadas, com as quais pouco se sustentava, cheio de ambições vagas em detrimento de uma vida comum, onde nada parecia ser extraordinário. Porém, era tão belo quanto um deus nórdico poderia ser.

Ele tinha olhos verdes e felinos, uma barba ruiva e rebelde, uma postura viril de homem viking e com quem ela se permitia gozar sem pudores. Ele a fazia sorrir, e a fazia sentir que tinha nas mãos alguém a quem mostrar o mundo, as letras, as artes e todas as possibilidades.

Crédito: Tanja Heffner/ISO Republic
Ela não notava o quanto não pilotar o próprio barco e mergulhar em águas rasas a fazia se sentir incompleta | Crédito: Tanja Heffner/ISO Republic

Ele a admirava por seus feitos, encantava-se com seus absurdos talentos. As palavras que escrevia, a forma como falava da vida, o conhecimento que lhe parecia infinito. A voz delicada que um dia ele ouviu por acaso, o toque suave de suas mãos, sua entrega, suas promessas. Ela o levou para conhecer incontáveis lugares, e ele atribuía a ela a figura de um sonho, de uma mulher que mais fazia falta do que a família caótica com a qual convivia em casa.

Mas de repente, o castelo de cartas começou a ruir. Ela sentia ciúmes das palavras grosseiras e das piadas que ele repetia sem cessar. Ele falava a ela sobre o gosto do seu passado, sobre as bocas que já havia beijado e sobre os corpos que sonhava em tocar. Ambos enterraram-se em brigas horrendas por mensagens pouco aprofundadas e telefonemas. Ao final de cada briga, ele terminava deitado em sua cama com cansaço e um sono que não se perturbava, enquanto ela se sentia diminuta soluçando no canto da cama ou escondida dentro do banheiro.

Ela enfrentou doenças, muitas vezes calada. Ele a apoiou, criou memórias de conforto enquanto o mundo desabava ao seu redor. Mas outra vez, quando ela ressurgia curada, com seus planos grandiosos e sua vontade de abraçar o mundo, ele tentava contê-la. Sentia um misto de complexo de inferioridade e vontade de fazê-la caminhar de uma forma mais lenta, algo que não combinava com a profunda intensidade que ela sustentava em sua alma. A incompatibilidade surgiu quando ela tentou fazê-lo caminhar ao lado dela, e ele sonhava em permanecer no escuro, no que lhe era cômodo, no que parecia fazer sentido com tanta falta profunda e medo de se arriscar.

Crédito: Vladislav Klapin/ StockSnap
Ele não sabia que deixá-la ir, ainda que covardemente, era o melhor que ele poderia fazer para torná-la mais forte | Crédito: Vladislav Klapin/StockSnap

A mãe dele foi abandonada de forma cruel, traída por um marido tolo a quem tanto lutou para levantar. E em troca, ele procurou entender os motivos do homem tolo a quem tanto admirou um dia, enquanto a mãe se dissolvia em amargura e dor.

Ela reclamava da falta que ele fazia, dos encontros súbitos aos finais de semana que nunca pareciam ser o suficiente. Ele contentava-se com coisas cada vez menores. Ela passava a se cansar, e ele, sem coragem de se despedir, atribuía a ela a culpa de suas infelicidades, dos pesos sórdidos que sentia nas costas pela falta de buscas, de reconhecimento e de lutar por novas conquistas. Entre essas brigas, ocorreu um tapa na cara por parte dela e um abuso psicológico por parte dele. A falta de perdão e de maturidade dele acabou por cansar as lutas femininas, que a cada dia mais sonhava em ter ao seu lado pessoas que lhe fizessem bem e que caminhassem a seu lado para suportar suas conquistas enormes, seus sonhos ilimitados.

E de repente, ele partiu, dando a ela não um encontro honesto de olhos nos olhos, mas devolvendo uma ligação que partiu dela com palavras que pouco convenciam. Sobraram palavras não ditas, tristeza e culpa. Ela se perguntava o que fizera de errado e ele definhava por machucá-la. Ela irritou-se ao extremo com as frases montadas por ele e pelo apoio raso dado pelos seus amigos. Ele equiparou-se ao pai na covardia e no abandono que, para ele, parecia tão certo e tão cheio de machucados externos, provocados por suas mãos calejadas e seus dedos roídos.

Crédito: Jan Phoenix/StockSnap
A solidão repentina a pegou de surpresa. Depois da tristeza, ela a usou para se reconectar consigo mesma | Crédito: Jan Phoenix/StockSnap

Entre mais discussões, provocadas por um término pouco convincente, ela se deu por vencida com o desprezo que ele devolvia a suas palavras de amor. Despertou com raiva para retomar as rédeas da sua vida e se redescobriu, enquanto ele se contentava com companhias fúteis, dormindo sempre confuso e irritado, beirando o precipício vazio com suas escolhas tortas. Fotos íntimas compartilhadas no silêncio com corpos desconhecidos. Comissões estagnadas das vendas precárias que fazia. Companhias de curvas fartas, cabelos longos e a quem tanto buscava com frases feitas de autoafirmação e curtidas vazias a palavras tolas e ausentes de grandes significados.

Ele permaneceu em silêncio com suas convicções incertas, enquanto ela erguia estátuas de cor e escalava montanhas invisíveis. Ele a deixou escapar por entre os seus dedos com suas crises absortas e seu jeito raso de ver a vida.

Ela mudou-se, enquanto ele adormecia entre corpos brutos, cervejas não terminadas e confusões cegas. Tornou-se um Ragnar Lothbrok enlouquecido enquanto ela, na postura de uma escudeira Lagherta*, erguia exércitos inteiros e lutava por conquistar territórios.

Crédito: Elliott Chau/StockSnap
Sem a presença estagnada dele, ela permitiu-se dar asas aos seus talentos, à sua imaginação e deu início aos seus planos de agarrar o mundo | Crédito: Elliott Chau/StockSnap

Territórios, esses, formados por amizades, artes e movimentos. Descortinava-se à sua frente o aprendizado de novos idiomas, as companhias súbitas do Leste Europeu e o vislumbre das ruas estreitas e dos casarios históricos de Lisboa.

Ela escapou de um futuro incerto. E respirou aliviada por abandonar a promiscuidade do parceiro e permitir-se seguir em frente com um mundo de novas possibilidades. Agradeceu o abandono súbito por devolver-lhe a vida que antes ela acreditava ter se perdido.

*Referência à série Vikings e aos personagens da mitologia nórdica.

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