Retrospectiva 2017: Obrigada por tudo, Chester Bennington!

Cá estou separando meus textos de final de ano e refletindo sobre tudo que 2017 representou pra mim – o que logo menos vira um texto exclusivo, o último desse ano, sobre as dores e as delícias que esse ano que se passou representou pra mim. Aqui, nesse pequeno espaço, eu dedico algumas palavras para um artista em especial que nos deixou precocemente e de uma forma abrupta no caos que esses doze meses representaram. Um homem que marcou uma parte significativa da minha adolescência e que, até então, não tinha ganhado nenhum texto de homenagem. Protelei até que eu encontrasse a melhor hora. E essa hora chegou.

Como dói te dar adeus, Chester... | Crédito: Divulgação
Como dói te dar adeus, Chester… | Crédito: Divulgação

Chester Bennington representou muitas dores em forma de música melódica e gritos rasgados desde o primeiro momento que ouvi sua voz ecoar pelo rádio, nos idos do início dos anos 2000, voltando pra casa na perua escolar e ouvindo a dor representada por Crawling ao cair da noite. Qualquer jovem que ouça rock e que tenha passado pela fase revoltada da descoberta do New Metal sabe o que representava escutar a 89fm e correr no final do dia pra assistir aos programas de música da MTV Brasil e do Multishow na esperança de cruzar com videoclipes de artistas desse nipe. O Linkin Park experimentava uma explosão de sucesso com a consolidação do disco de estreia fora do cenário independente, Hybrid Theory, e seus refrões ficavam gravados nos ouvidos e na boca de qualquer jovem estudante que estivesse passando por fases semelhantes àquelas pelas quais o cantor de tatuagens icônicas de chamas nos pulsos passou.

No meu caso, o estado depressivo, as dores do bullying e dos pensamentos ensaiados de suicídio ganhavam um respiro nos gritos agudos e guturais daquele homem. Assim como para outras pessoas, ter alguém que falava sobre o grande problema de ter sido abusado sexualmente durante a infância era um exercício de identificação, um abraço coletivo de entendimento em notas musicais. Havia ali, naquelas veias saltadas na garganta, algo de visceral que transformava qualquer dor em raiva. E da raiva, a vontade de se reerguer. A melhor vingança para o mal era seguir em frente. Aliás, essa fórmula continua sendo infalível para qualquer problema na vida.

Para mim, assim como para muitos dos fãs que se encontraram nas letras de cunho poético do Linkin Park, (com influências nítidas do hip hop e da música eletrônica no meio de uma banda que trazia um pouco mais de sofisticação aos ares despreocupados e aos acordes óbvios, porém potentes, do New Metal) o sucesso avassalador dos hits de Meteora, que conquistaram milhões de ouvidos ao redor do globo com Somewhere I Belong, Faint, Numb, From The Inside e Breaking The Habit, foram a chave impulsionadora pra fugir de problemas pessoais.

Sempre foi visceral... | Crédito: Rita Carmo/Blitz
Sempre foi visceral… | Crédito: Rita Carmo/Blitz

Com isso, a turnê sonhada da banda nas terras tupiniquins levaram milhares de adolescentes a se acotovelaram em um lotado Estádio do Morumbi em uma noite deliciosa daquele 11/09/2004. A data, conhecida por ser aniversário do triste ataque às torres do World Trade Center, ganhava um novo significado para os fãs brasileiros da banda. E o resultado apoteótico da apresentação, com abertura do Charlie Brown Jr. (veja bem como a vida é irônica) no extinto Chimera Music Festival, não poderia ter sido mais bem-sucedido. Uma memória deliciosa de se resgatar de tempos em tempos.

Para muitos roqueiros brasileiros, o Linkin Park representou a primeira vez em diversos aspectos: a primeira camiseta de banda, a primeira banda de rock ouvida ininterruptamente por horas a fio, o primeiro disco, o primeiro show… Independente dos gostos, é inegável o quanto os norte-americanos representaram uma revolução importante no cenário do rock mundial nos anos 2000. O New Metal foi um dos movimentos mais importantes do rock na década, e muitas bandas encontraram no sucesso do Linkin Park o respaldo necessário para explodir nos ouvidos de tantos jovens sedentos por ouvir mais e mais gritos guturais, mesmo que muitas delas tivessem surgido antes. O LP, como ficou conhecido entre os fãs, ajudou a dar aquele empurrão no reconhecimento do Korn, Limp Biskit, Slipknot, System Of A Down, Papa Roach, Disturbed e por aí vai. Afinal de contas, boa parte dos fãs enlouquecidos dessas bandas viram ali nos hits do Linkin Park uma porta de entrada para outras músicas marcantes do gênero.

Muitas bandas precisam agradecer às portas abertas pelo Linkin Park - isso é indiscutível | Crédito: Divulgação
Muitas bandas precisam agradecer às portas abertas pelo Linkin Park – isso é indiscutível | Crédito: Divulgação

Nos anos subsequentes, o LP realizou grandes feitos, dentre os quais destacam-se a parceria com o Jay-Z no álbum remixado Colission Course, as trilhas-sonoras de Transformers e ao sucesso do álbum Minutes do Midnight (no qual eu destaco No More Sorrow e Given Up em detrimento de Leave Out All The Rest, Shadow Of The Day, What I’ve Done e Bleed It Out) em uma era já dominada por downloads digitais e ilegais. Aos poucos, por um lado, a banda perdia a essência brutal do gênero pelo qual ficou conhecido, mesclando vocais melódicos do rock com gritos guturais de Chester às rimas do rap de Mike Shinoda, para navegar por influências mais nítidas da música eletrônica e de outros gêneros experimentais. Muitos dos fãs mais fieis da antiga fase da banda torceram o nariz aos discos lançados posteriormente, e o grupo acumulou tanto elogios ao seu nítido amadurecimento musical para os ouvidos de muitos críticos profissionais como críticas negativas rasgadas por um público que não perdoa.

Isso, porém, não impediu A Thousand Suns, lançado em 2010, de emplacar as músicas Iridescent, Waiting For The End, Burning In The Skies e The Catalyst (essa última, uma de minhas favoritas em toda a carreira da banda) entre as mais ouvidas das paradas. Manter-se relevante em épocas de explosão do pop e de outros gêneros musicais era um grande desafio, e o Linkin Park soube traduzir isso bem em suas novas composições, com shows lotados e apresentações bem-sucedidas – mesmo tomando tanta porrada dos ouvintes mais radicais do rock. Em contrapartida, o lançamento de Living Things em 2012 trouxe aos fãs mais antigos a sensação de volta às origens, principalmente com Lost In The Echo, In My Remains e Victimized. Faixas como Burn It Down e Castle Of Glass tocaram à exaustão nas rádios.

Entre 2014 e 2017, a banda pareceu se render mais ainda ao lado pop e eletrônico para consolidar as boas vendas de seus álbuns subsequentes, The Hunting Party e One More Light. O que ninguém esperava é que, pouco tempo depois de seu lançamento, o último disco da carreira da banda com sua formação original teria os versos de músicas melancólicas como Heavy e One More Light com um significado mais triste do que aquele lançado a princípio. Ambas tornaram-se o hino de uma despedida brusca ao homem que esteve à frente de todos os anos de sucesso estrondoso do grupo. Músicas que definiram o tom da despedida de Chester Bennington.

Mais uma vez, o sucesso e a fama camuflaram as dores e os sofrimentos de seres humanos que padecem com a maldita, que tantas vezes foi tema de textos aqui no blog, inclusive na despedida de outro grande ídolo, Chris Cornell, vítima da depressão e que padeceu com o suicídio. O gosto amargo vem na boca de quem fala sobre uma pessoa que superou tantos traumas, como abuso sexual na infância e bullying, para se tornar uma das vozes mais influentes do cenário musical nos últimos tempos. É triste se despedir de alguém que tantas vezes foi a personificação da superação dos jovens por cima de problemas catastróficos. Muita gente viu nos gritos guturais daquele homem completamente tatuado um refúgio para suas próprias angústias. Ironicamente, quem tanto nos salvou do caos, acabou padecendo com seus históricos complexos, que também incluíram problemas com álcool e drogas e a perda impactante de um amigo que, uma década antes, havia sido o expoente do grunge. 2017, que porra de ano louco para se viver. Que ano do caralho para amar o rock…

Chester Bennington e a esposa maravilhosa, Talinda, que é um exemplo de força | Crédito: Divulgação
Chester Bennington e a esposa maravilhosa, Talinda, que é um exemplo de força | Crédito: Divulgação

Nessa retrospectiva que escrevo agora, me deu um aperto no peito e uma tristeza enorme de retomar essas lembranças de um ano tão complicado, sobretudo na música. Eu chorei enquanto escrevia, pois só quem recorre à música em todos os aspectos da vida sabe o quão complicado é se despedir de uma forma brusca de artistas que tanto significaram pra gente. Eu estive no primeiro show do Linkin Park no Brasil em 2004, estive na apresentação deles no SWU em Itu em 2010, estive no show da Arena Anhembi em 2012. Ironicamente, o último show deles no Brasil esse ano também seria o último que a banda faria com a formação completa em nosso país – o único ao qual não compareci. Dá pra sacar a minha tristeza por escrever isso…

Apesar da dor de entender o que a depressão e o suicídio significam na vida de alguém, sobretudo por quem já passou pela primeira e por pouco não sucumbiu à segunda, não consigo deixar de sentir essa porrada. E dessa porrada, veio a vontade de agradecer. Integrantes do Linkin Park, da família (incluindo a esposa Talinda Bennington, sempre maravilhosa) se juntaram para fazer um show de homenagem ao cantor e a promover iniciativas com o intuito de combater a depressão (FUCK DEPRESSION!) e outras doenças mentais. Precisa de muita força pra transformar a dor em alimento fértil. E disso eu sei bem.

A Chester, por esse 2017 caótico e triste, restou o pleno agradecimento a tudo que me proporcionou nesses anos. O amor despertado por sua voz e sua música na adolescência, o refúgio que sua banda me proporcionou de fuga do meu caos particular, a vontade de cantar influenciada por figuras como ele, às rodas formadas por meus amigos para entoar suas músicas com instrumentos diversos. Tudo se tornou importante. Momentos preciosos que eu vou guardar no coração graças a esse artista.

Obrigada por tudo, Chester Bennington! Não desejo nada a você que não seja o encontro com sua paz e redenção. De onde quer que esteja, do alto da minha saudade de fã, meu eterno muito obrigada.  

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