Crítica de Cinema: “Fala sério, mãe!” trata relações familiares com leveza

Imagina um livrinho bem escrito para crianças e adolescentes, com linguagem de fácil acesso e que fala sobre a relação de mãe e filha com bom humor. Essa foi a proposta trazida pela escritora carioca Thalita Rebouças em meados de 2004 e que soube aproveitar a atmosfera de comicidade valorizada pelo público brasileiro. Não deu outra: a história caiu no gosto popular, virou best-seller e ficou na boca das conversas das jovens nas escolas (inclusive dessa semi-tia de vinte e quatro anos que escreve pra vocês).

Aproveitando o sucesso do livro e da consolidação de Thalita como escritora favoritinha das brasileiras, Fala Sério, Mãe! chega aos cinemas das terras tupiniquins nessa quinta-feira (28/12) preservando a roupagem da história e com um roteiro que faz jus à obra original: cômico, porém sem deixar de ser leve e de mostrar que, por trás de todas as histórias engraçadas na relação entre mãe e filha, existem certos dramas, conflitos e dificuldades no processo de crescimento dos filhos.

Crédito: Divulgação
Carinha de sapeca que tá aprontando x mãe observando | Crédito: Divulgação

Com roteiro adaptado por Pedro Cursino, Dostoiewski Champagnatte e Ingrid Guimarães, que também assina a produção do longa metragem e atua como Ângela Cristina, a mãe superprotetora da protagonista Maria de Lourdes (Larissa Manoela, em ótimo papel), o filme acerta na adaptação e retrata todo o processo de uma mulher adulta ao se tornar mãe, desde os perrengues da gravidez até os primeiros dias conturbados da criança em casa. Como a narrativa da história se dá através dos olhos de Ângela em um primeiro momento, o viés materno também ganha sua boa representação, sobretudo ao valorizar os erros e acertos em detrimento de um ser humano em processo de descoberta de uma nova fase, sem a romantização excessiva à qual fomos condicionados em relação ao papel da mãe na sociedade. Com a voz de Ingrid na narração, o processo de crescimento de Malu é visto sob a ótica do cuidado, com bons momentos cômicos (como o tédio da pequena na aula de balé, um certo incidente no elevador e o esforço pra não parecer careta em uma festa, onde o tiro sai pela culatra).

Quando Malu entra na fase da adolescência e se torna a narradora-central (onde a queridinha dos jovens Larissa Manoela ganha tanto a cena que, não fosse a competência de Ingrid como atriz, a mesma seria engolida na trama), outros problemas ganham forma sem pesar no propósito central de comédia do filme, como a separação dos pais e a dificuldade de uma mãe de criar os filhos com uma figura paterna quase que ausente (parece uma história familiar? Pois então: quantas famílias não ficam nessa situação, não é mesmo?). Ainda assim, histórias como o primeiro beijo e a perda da virgindade são tratados de uma forma tão divertida que fica difícil pro espectador não se identificar com situações semelhantes. Um adendo: preste atenção no vexame que Ângela Cristina dá no ônibus na primeira viagem da filha sozinha. É impagável!

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Quem nunca ficou apavorado com a mãe revelando mais do que devia no rolê, não é mesmo? | Crédito: Divulgação

Analisando tanto a obra original publicada por Thalita como o roteiro adaptado por Ingrid, a grande vantagem da história é saber mostrar os dois lados da moeda: a mãe que muitas vezes não sabe se está trilhando o caminho certo ao educar os filhos e a sensação dos filhos de serem podados em certos momentos, sem que eles escapem de certos micos provocados pela figura materna. Estão lá as desavenças com as notas escolares, a dificuldade de lidar com a aparição de um pretendente, a falta de tato pra lidar com um adulto em processo de readaptação com as relações interpessoais, a escolha da carreira e a possibilidade de um intercâmbio a caminho, o primeiro emprego do filho mais velho e por aí vai.

Por mais que a linguagem de Thalita enquanto escritora às vezes caia na verbalização caricata pra fazer valer o lado cômico da história, é nítido pro leitor o quanto a autora tomou cuidado pra não cair no lugar-comum e até saber cutucar o lado emocional de um jeito leve e sem firulas que refletem as dificuldades de cortar o cordão umbilical de ambos os lados. A interpretação de Ingrid Guimarães é majestosa nesse sentido, trazendo à mãe espectadora a sensação de estar bem representada na tela. Em todos os momentos, a atriz soube se portar como uma personagem que não recorre a certas atitudes cômicas com o intuito de provocar os filhos, mas porque muitas vezes o peso de educá-los às vezes faz com que seu comportamento caia para esse lado. À Larissa Manoela, coube o papel da filha que amadurece naturalmente e que, muitas vezes, assume um papel de cuidadora daquela que a gerou para auxiliá-la em momentos difíceis.

Crédito: Divulgação
O filme acerta ao mostrar todos os momentos do processo de crescimento dos filhos até a vida adulta | Crédito: Divulgação

Com o propósito de atender às expectativas tanto de jovens que cresceram na expectativa da adaptação cinematográfica do livro de Thalita Rebouças (eu e minha irmã inclusas) como as de novos leitores, Fala Sério, Mãe! acerta ao respeitar a naturalidade do desenrolar das relações familiares, sem cair na caricatura. A abordagem da relação de mães e filhos não é inédita no cinema nacional, já que os filmes de Minha Mãe É Uma Peça deram conta de mostrar isso nos anos anteriores. Aqui, no entanto, diferentemente do trabalho caricato (porém ótimo) de Paulo Gustavo (que inclusive faz uma curta apresentação no filme), Ingrid Guimarães traz uma abordagem diferente ao papel de mãe, sendo engraçada por simplesmente cumprir o papel materno com seus erros e acertos.

É uma obra bem adaptada, que vale a pena conferir na companhia da família dentro da sala do cinema.

VAI LÁ
Fala Sério, Mãe! 
Estreia: 28/12/2017.
Direção: Pedro Vasconcelos.
Elenco: Ingrid Guimarães, Larissa Manoela, Marcelo Laham, Cristina Pereira, João Guilherme Ávila, Paulo Gustavo, Fábio Jr, e mais.
Roteiro: Ingrid Guimarães, Paulo Cursino e Dostoiewski Champagnatte (colaboração de Thalita Rebouças e Pedro Vasconcelos).
Produção: André Carreira e Ingrid Guimarães.
Distribuição: Downtown Filmes, Globo Filmes e Paris Filmes.
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

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