Resenha Literária: A literatura erótica de Nana Pauvolih

Escrever sobre sexo ainda é um grande desafio para a maior parte dos escritores que mergulham nesse universo. Há que se enfrentar o pulso ferrenho da crítica, o risco da porrada do moralismo que anda à solta por aí e cumprir com maestria o desafio de tornar o ato fascinante e excitante com a leitura de poucas palavras.

Na carona da literatura erótica contemporânea, muitos escritores foram impulsionados pelo sucesso arrebatador de Cinquenta Tons de Cinza e aproveitaram para criar suas próprias histórias. A maior parte desses novos autores são, na verdade, autoras que viram uma oportunidade de peitar descrições pudicas sobre o amor e mostrar o quanto mulheres pensam e fazem safadezas. Dentre elas, além da própria E. L. James, destacam-se nomes como Sylvia Day, Eve Berlin, Jamie Mcguire e muitas outras. No Brasil, o cenário é um pouco mais discreto do que na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, isso não impede que novas autoras se arrisquem na modalidade e publiquem seus escritos apimentados, como fez a carioca Nana Pauvolih. É dela, aliás, o foco principal desse post.

A autora carioca Nana_Pauvolih, ex-professora de história que fez sucesso na Amazon | Crédito: Rafaela da Gama/Divulgação
A autora carioca Nana Pauvolih, ex-professora de história que fez sucesso na Amazon | Crédito: Rafaela da Gama/Divulgação

Nana escreve há mais de vinte anos, mas só começou a publicar suas obras em 2012 (antes disso, ela atuou como professora de história). Com suas publicações tendo o respaldo do público pagante da Amazon, os relatos picantes de seus personagens foram ganhando forma e popularidade no imaginário de seus leitores – e o que era para ser um livro erótico se transformou em uma trilogia e a levantou ao posto de principal nome por trás do gênero contemporâneo no país. A narrativa é leve, mas em alguns momentos esbarra em tramas pouco justificadas e decisões duvidosas por parte de seus personagens.

Começando pelo primeiro livro da trilogia Redenção, intitulado como Redenção de Um Cafajeste, o foco primordial aqui é mostrar um personagem principal, Arthur, machão e machista, que julga as mulheres pelo comportamento sexual e as usa como descarte, como alguém que, afinal, tem a salvação quando encontra o amor (já ouvimos essa fórmula antes quantas vezes mesmo?). Autoconfiante, sobretudo com sua aparência bem descrita (um moreno bonitão e de porte atlético, afinal) e seu cargo (ele é editor-chefe de uma revista masculina que publica ensaios de mulheres nuas), ele se encanta com a irmã de uma de suas parceiras de cama e acaba se envolvendo emocionalmente com ela. No começo, alguns detalhes da trama chamam a atenção e já me deixaram preocupada, sobretudo porque a própria narradora parece fazer juízo de valor do caráter sexualmente despudorado dessa personagem. A impressão que se dá é a de que, ainda que seu caráter seja duvidoso, o castigo maior no jogo de interesse “mulher gostosa quer homem rico gostoso” vai, adivinhem, pra quem?

Crédito: Freestocks.org/StockSnap
No primeiro livro, o bicho pega já no prólogo | Crédito: Freestocks.org/StockSnap

Passado o choque inicial, onde a personagem que se envolve com o bonitão é estuprada em um episódio em que esse tipo de violência mais parece um ato punitivo pelo comportamento da mulher e que é tristemente pouco explorado em seus conflitos, Arthur conhece Maiana, a irmã da moça. De origem simples e humilde, ela trabalha em um escritório e paga as despesas da casa em que mora com a mãe e a irmã (vistas como duas loucas interesseiras), além de estudar história e sonhar com a carreira de professora. Alta, magra e loura dos olhos claros, ela acaba chamando a atenção do rapaz, que faz de tudo para levá-la pra cama. E quando leva, é um Deus nos acuda: as narrativas picantes são carregadas de verbetes que mais parecem chulos do que excitantes, e o fato de o personagem ser infiel acaba irritando até a última potência. Ao invés de torcer pela sua “redenção” enquanto pessoa que toma jeito na vida, a única coisa que eu queria era que o embuste terminasse sozinho e falido. Mas como esse tipo de literatura ainda vende, é claro que ele acaba se arrependendo das artimanhas e encontra um desfecho bom. É importante ressaltar, porém, que o puritanismo de Maiana beira o desespero, a ponto de haver um determinado trecho no qual ela alega que tomar pílula do dia seguinte como método de evitar uma gravidez indesejada seja aborto – o que me deixou extremamente pensativa sobre isso também ser o possível ponto de vista da escritora e que muito me preocupa, dado o potencial de fama e influência que ela conquista a cada dia que passa.

Crédito: Camila Cordeiro/Unsplash
Ele, moreno atlético. Ela, lourona | Crédito: Camila Cordeiro/Unsplash

O segundo livro da trilogia, Redenção e Submissão, foi o que eu mais achei interessante em termos de leitura de sexo e estímulo da imaginação, além de apresentar conflitos interessantes sobre cada um dos personagens. Como o primeiro livro não estava programado para conceber continuações, mas surgiu a partir da curiosidade dos leitores de saber o que acontece com os outros personagens, seu exemplar subsequente retrata não as desventuras românticas e sexuais de Arthur, mas sim de seu amigo Matheus. No primeiro livro, aliás, nós podemos ver que os três amigos – Arthur, Matheus e Antônio – se conhecem há anos e uniram forças para se tornarem sócios de uma casa noturna focada em troca de casais, sexo grupal, sexo a três e jogos diversos de BDSM. E adivinhem só: Matheus, que também se apaixona por Maiana no primeiro livro, é um dos dominadores mais requisitados da noite do Rio de Janeiro, apesar de ser um romântico nato no dia-a-dia – o que é uma boa sacada da autora, mostrando que pessoas que aderem ao BDSM não necessariamente possuem algum tipo de conflito interpessoal mal resolvido e um histórico de traumas, mas podem simplesmente recorrer aos jogos por preferência. Ponto pra ela aqui.

No livro dois, a graça é ver qual dos dois personagens vai dar o braço a torcer | Crédito: Freestocks.org/StockSnap
No livro dois, a graça é ver qual dos dois personagens vai dar o braço a torcer | Crédito: Freestocks.org/StockSnap

Louro, alto, de olhos claros, rico e herdeiro de uma fortuna (olha o padrão eurocêntrico aqui de novo), ele trabalha com o pai em uma agência de viagens e se envolve na tal da casa noturna com uma mulher que, vejam só, também é uma dominadora no sexo e o “compra” em um leilão para levantar fundos por uma causa beneficente. Como os dois são dominadores, não rola nada no primeiro dia. A parte cômica é que, na segunda-feira seguinte, Matheus descobre que o furação moreno e alto que conheceu na noite, que atende pelo nome de Sophia, é a nova funcionária da empresa do seu pai. Os dois trabalham juntos, se envolvem emocionalmente e, adivinhem só, começam a ter suas diferenças porque os dois querem a mesma coisa na cama: bater, mas não apanhar. O que é interessante nesse livro é que há uma narrativa mais elegante graças à inserção de jogos. Além disso, é possível conhecer um pouco mais sobre uma das modalidades de BDSM, no caso a técnica de shibari, que consiste na arte japonesa de amarrar um submisso com cordas em nós artísticos, que prendem sem machucar e que valorizam as formas do seu corpo.

O livro dois tem aspectos interessantes do BDSM. Principalmente sobre a arte do shibari | Crédito: Marco Amore/Artmajeur
O livro dois tem aspectos interessantes do BDSM. Principalmente sobre a arte do shibari | Crédito: Marco Amore/Artmajeur

Além disso, os dois personagens apresentam conflitos interessantes a serem resolvidos: Matheus com o assédio que sofre da madrasta, que acaba atrapalhando a boa relação que ele tem com seu pai, e Sophia com a dificuldade de se relacionar emocionalmente, graças aos problemas passados com uma mãe alcoólatra e negligente na infância, e sexualmente, já que a dominação veio como válvula de escape para superar um estupro (diferente de Matheus, que simplesmente gosta e faz isso da melhor maneira possível, priorizando as vontades e os limites de suas companheiras). Diferentemente dos outros amigos, Matheus está mais para uma figura masculina que incentiva a igualdade e não julga as mulheres, além de não tentar exercer o controle na vida de nenhuma delas. Esse livro, sem dúvida, foi o mais interessante dos três.

Já o terceiro e último livro da saga, Redenção Pelo Amor, quase se assemelha a uma novela mexicana, ainda que o carinho entre os personagens principais seja mais evidente nos primeiros encontros do que os demais homens que serviram como impulsionadores das obras. Até aqui, Antônio, o terceiro amigo, era visto como uma criatura distante, um tanto quanto frígida, sempre focado no trabalho e com um casamento que mais parecia um arranjo entre famílias do que algo formado por duas pessoas que se amam. E a obra deixa isso ainda mais evidente, já que nesse livro podemos constatar que, realmente, o arranjo se fez graças à fortuna das duas famílias envolvidas e do relacionamento profissional que se estabeleceu entre o pai de Antônio e o de Ludmila. Essa última, aliás, é uma louca digna daqueles folhetins dramáticos da faixa das 21h.

De todos os livros, o terceiro é o que tem menos putaria | Crédito: Elizabeth Tsung/Unsplash
De todos os livros, o terceiro é o que tem menos putaria | Crédito: Elizabeth Tsung/Unsplash

Se o comportamento frio e calculista de Antônio, um rapaz alto, rico e de olhos azuis profundos (sim, de novo!) tem origem na exigência da família para que ele seja o herdeiro direto da fortuna e que mantenha os negócios fluindo, e é alimentado por um relacionamento distante e infeliz com a noiva, tudo acaba caindo por terra quando ele conhece Cecília no trânsito do Rio e se encanta pelo jeito doce, educado e divertido da estudante de psicologia. Aqui, temos o primeiro par de seios pequenos e de vagina com pelos – glória à Deusa, algum corpo que não está dentro dos padrões exigidos pelos filmes pornôs! (e que parecem se repetir na literatura sacana da autora). O problema maior aqui é para que Antônio abandone as obrigações absurdas para conseguir ficar com a mulher que ama, o que envolve enfrentar a família conservadora e a noiva psicopata.

O ponto é, sem sombra de dúvidas, o gosto musical delicioso da personagem principal, que é apaixonada por MPB e lista Nando Reis e Maria Betânia entre suas preferências. Ainda assim, o comportamento controlador do macho do livro chega a assustar em alguns momentos, ainda que ele mostre que realmente gosta dela e que os momentos dos dois sejam mais leves do que o do doido que iniciou a trilogia ali em cima. Apesar disso, a extensão da trama dos personagens deixam a literatura cansativa, além de se fazer notável a presença de expressões repetidas à exaustão.

A linguagem dos livros poderia ser menos escrachada e mais instigante | Crédito: Marco Santiago/ISO Republic
A linguagem dos livros poderia ser menos escrachada e mais instigante | Crédito: Marco Santiago/ISO Republic

Analisando a trilogia e o estilo de Nana como um todo: os conflitos entre os personagens poderiam ser mais centrados e interessantes como no segundo livro, a narrativa poderia ser mais fluida e menos repetitiva, os personagens masculinos poderiam ser menos controladores com suas parceiras, tanto os homens quanto as mulheres de seus livros poderiam ser menos adeptos dos atributos físicos exigidos à exaustão por produtores de filmes pornôs, as mulheres não deveriam ser tão punidas (o estupro como castigo acontece bizarramente mais de uma vez em seus exemplares) e vistas como as vilãs principais de problemas que dizem respeito a duas pessoas, e a descrição do sexo poderia recorrer um pouco ao lirismo desavergonhado das obras clássicas do gênero (como A História de O e O Amante de Lady Chatterley), já que o esculacho das cenas muitas vezes acabam deixando-as menos interessantes e estimulantes e mais cômicas.

São livros que distraem pela facilidade de serem lidos, mas que estão longe de valerem o grande sucesso que vêm alcançando entre os leitores brasileiros. Resta torcer para que as próximas obras de Nana bebam um pouco mais da essência de Redenção e Submissão e valorizem menos o esculacho e o macho embuste.

Sexo é bom e a gente gosta! Apesar de tudo, Nana ainda é uma raridade e merece mérito por escrever sobre isso | Crédito: Alexandr Ivanov/ISO Republic
Sexo é bom e a gente gosta! Apesar de tudo, Nana ainda é uma raridade e merece mérito por escrever sobre isso | Crédito: Alexandr Ivanov/ISO Republic

VAI LÁ
Trilogia Redenção (Redenção de Um Cafajeste, Redenção e Submissão e Redenção pelo Amor). 
Autora: Nana Pauvolih
Editora: Fábrica 231
Preços: Entre R$ 19,90 e R$ 30.
Classificação Final: ♥♥ (Regular).

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