Feminismo: A triste arte de classificar as mulheres pelo comportamento sexual

“Essa mulher é pra casar. Essa é pra transar”. Me pergunto se, em pleno século XXI, ainda não conseguimos superar tamanha baboseira.

O comportamento sexual das mulheres sempre foi um objeto de poda, regras estapafúrdias, classificações esdrúxulas e muita, mas muita falta de respeito. Se ela tem um comportamento recatado em relação ao sexo, é tratada como uma santa desinteressante. Se ela é mais livre sexualmente, é taxada como vagabunda e daí pra pior. Uma pessoa tratada como um objeto que pode ou não ser descartado quando convier à cabeça do cidadão macho de quinta categoria.

O que o patriarcado e a cabeça do homem tolo deseja é algo que vai contra a nossa ideologia maior dentro do movimento feminista: a liberdade das mulheres, o direito de ir e vir, o direito de usar as roupas que desejarem e o direito de transar da forma que quiserem, quando e com quem quiserem sem os julgamentos rasos de uma sociedade medíocre e claramente hipócrita. E não: isso não existe só no nosso Brasil.

Nu é normal. Sexo é normal. E nada disso é benefício exclusivo do falo masculino | Crédito: Bert B/ISORepublic
Nu é normal. Sexo é normal. E nada disso é benefício exclusivo do falo masculino | Crédito: Bert B/ISORepublic

Ao longo dos séculos, fomos ensinadas de que não se deve usar saias acima do joelho, que um decote longo é um convite pro assédio e que beber além da conta dá abertura a terceiros para se aproximar e fazer o que bem entender, não importando a sua falta de capacidade para responder pelos seus atos e erguer a voz além da conta para falar o que não quer fazer. “Quem mandou não ser menina pura e não se dar o devido valor”? Me poupem.

Esses dias, aliás, eu mesma me peguei caindo na armadilha do patriarcado e me colocando palavras julgadoras com o comportamento de terceiras. “Olha só, essa menina só sabe usar decote e dar em cima dos homens”. Porra, Camila, justo você? A guria em questão adora viagens, é espiritualizada e participa de trabalhos voluntários diversos, tem formação e corre atrás de trabalho. Está solteira, quer se divertir. Tem mais é que fazer isso. Onde está o erro? Onde está o problema de querer atrair um rapaz pra cama usando de um decote profundo e de um charme a mais? Só há que se tomar cuidado pra não partir pra cima de rapazes nitidamente comprometidos. Aí já é querer demais pra cair pra cima do abate, não é mesmo? Não exija isso da nossa sororidade porque até ela tem limites. Bora respeitar as manas, ok?

Mas quanto ao comportamento feminino na casualidade sexual, não existe dúvidas de que somos seres que pensam e fazem aquilo tanto quanto aquele macho que adora se gabar das quantidades exibidas – que às vezes, não chegam em um terço do que eles insistem em autoafirmar. Sim, a gente quer transar sem compromisso, mas isso não significa que você pode pegar esse seu machismo e tratar a gente como objeto, colocar categorias baratas pra cima da gente e, ainda, iniciar esse processo presunçoso de compartilhamento de imagens pessoais. “Olha só isso, um corpo”. Sério, meu fio? Nunca tinha visto um sem roupa na vida, sabe…

Pior ainda é tentar encontrar justificativas pra uma traição porca. “É a minha testosterona. Eu sou homem, é foda”, eles costumam dizer. Só pularam as aulas de biologia pra saber as maravilhas dos hormônios femininos e da magia de um clitóris pensante e bem tratado. Também esqueceram que a maior parte do trato sexual do corpo feminino diz respeito a uma educação ainda pouco desenvolvida, que ignora necessidades inerentes ao prazer do sexo frágil. Pois é, a gente aguenta papagaiada a vida inteira, sofre dores diversas e somos frágeis. Ah, esse senso comum…

Na casualidade ou no compromisso, toda mulher deve ser tratada com respeito | Crédito: Khusen Rustamov/ISORepublic
Na casualidade ou no compromisso, toda mulher deve ser tratada com respeito | Crédito: Khusen Rustamov/ISORepublic

A realidade é uma só: mulheres são seres sexuais tais quais os homens. O desejo existe aí pra todo mundo. Acontece que, em pleno século 21, com tantos debates a plenos pulmões sobre a igualdade de gênero, chega a ser entediante escutar essa propagação aparentemente incessante de que existe a mulher santa pra casar (e aí, quando a moça insiste em não querer desenvolver posições mirabolantes na cama, é taxada de santa e deixada de lado pra dar lugar a uma amante) e a mulher pra transar (aquela que é livre, mas não poderia ser e que merece ser descartada). “Se não der, nóis some. Se der, nóis some também”. Arremaria, como é que dá pra encontrar sentido na cabeça dessas pessoas? Nesse último caso citado, aliás, a atitude rasa dos brothers impede de ouvir o que a guria tem a dizer depois de um orgasmo bem dado (olha, vocês esquecem das zonas erógenas femininas com uma facilidade inquietante), com a cabeça encostada no seu ombro, trocando palavras aprofundadas.

A mulher que topou uma transa no primeiro encontro é liberta de estereótipos. E ser liberta de estereótipos é ser bem informada. Ser bem informada é sinal de inteligência. E inteligência, meus caros, é uma das chaves pro aroma afrodisíaco que brota de cada pedacinho dessas curvas. Nos poupem das classificatórias e se poupem de, por causa dessa atitude torpe, terminar reclamando de uma solidão intolerável. Não temos mais paciência pra isso.

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5 Comments Add yours

  1. Tati says:

    Adorei! Concordo contigo!

    1. camilahonorato says:

      Obrigada, Tati! Estamos juntas! ♥

    1. camilahonorato says:

      Que maravilhosa, mulher! Adorei teu poema. Um beijo! 😘

  2. Magnifica partilha… parabéns!

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