Literatura: Poema de Véspera

Novembro chegou com seus tons de cinza e dourado.
Com sua atmosfera de véspera
Com seus aromas e cores de festas.

Novembro se aproximou rápido.
Condecorou a lembrança fria do escritório
Da papelada sulfite em cima da mesa
Do barulho do teclado batendo ininterruptamente
Tendo os prédios do lado de fora para decorar.

Novembro relembrou de tempos não tão distantes.
Das saídas do trabalho em direção à loja de música
Do encontro amoroso conturbado
Recheado de notas soltas no ar.
De discussões seguidas de beijos e orgasmos
Da sensação de vazio iminente no retorno pra casa.

Novembro chegou sem aviso prévio
Com gosto repetido de uva passa
De panetone passado
De bola vermelha entalhada com detalhes brilhantes
Com árvores artificiais de pinho na sala de estar
E o pisca-pisca insistente de poucas casas alegres.

Crédito: Anna Popović/StockSnap
Crédito: Anna Popović/StockSnap

Novembro relembrou as vésperas daquele Natal sombrio
Dos suspiros de crise e insônia que perduraram
Depois de uma ida brusca entre o museu e a prova de canto.
Do corpo morto estampado na fachado de um prédio em tijolos
De um ensaio de desmaio
Dos primeiros indícios de uma insistente depressão.

Novembro relembrou que a fase soturna foi, enfim, encoberta.
Mais parecia agora uma lembrança vívida de planos
Que jamais ganharam forma ou floresceram.
Há um sofá-cama em promoção na loja de móveis sofisticada e vazia
No percurso onde um par de coturnos surrados e apressados
Antes costumava passar.

Novembro retomou a fase de pressa do trabalho
De doces natalinos baratos na estação do metrô
Do empório frequentado
Do chá de hibisco descoberto
Junto ao aroma de chocolate amargo e ervas finas.

Novembro já não tinha compras apressadas
De presentes delicadamente pensados para o Natal.
Um quadro de tiro ao alvo deixado às moscas na porta
Do guarda-roupa descascado e velho
Ou um sono compartilhado em uma cama antiga de solteiro.

Crédito: Brooke Lark/StockSnap
Crédito: Brooke Lark/StockSnap

Novembro relembrou que a véspera existe
Que a espera nem sempre persiste
Que o dia que antecede nem sempre guarda tantas expectativas
Mas sim, talvez, uma triste resignação de percorrer
O mesmo caminho de outrora.

Na véspera de novembro, já não havia sessões sonolentas
Do cinema de rua daquele bairro boêmio.
Estava um ser só e confuso à frente
De uma parede melancólica de instrumentos de cordas
Em uma loja quase que inteiramente largada ao abandono.
Percorria sua solidão conquistada com imaturidade
De uma insignificância velada.

Na véspera de novembro, uma pessoa trocava
Os jantares caros da cidade grande
E a companhia conhecida pelo frio anoitecer de um campo
Tão abandonado e esverdeado
De um musgo mal-cuidado e em par
A cantos de paredes brancas frias e descascadas
Casando com camas de beliche de madeira vulgar.

Crédito: Chad Madden/StockSnap
Crédito: Chad Madden/StockSnap

À véspera de novembro
À véspera da véspera do Natal
A antiga companheira solar da criatura frívola
Permitiu-se abandonar de vez a expectativa com a qual
Havia se acostumado a lidar horas antes de dormir.
Deu adeus aos caminhos antes repetidos
Aos goles estupefatos e reprovados de vinho.

Subiu nua no parapeito da janela e observou a cidade
Com seus tons de cinza vívidos da sacada do prédio
De um outro verde dos olhos, por trás da lente
Mostrando que a véspera tem sua intuição
E que da intuição, brotou um respiro de renascimento.

Agradeceu, por fim, a véspera.
Por tantas expectativas tolas vividas
E por trocar a espera inútil pelo uivo interno
Que, por fim, resolveu dar voz para se aquecer.

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