Arte e dança: a beleza discreta e deliciosa do espetáculo “Joias do Ballet Russo”

O ballet clássico sempre foi e sempre vai ser uma das formas de arte mais lindas de se expressar e de assistir. Valendo-se disso, um corpo de bailarinos renomados se juntou para montar um espetáculo delicado e discreto, mas que mostrou-se impecável na técnica artística e na composição de figurinos.

Trata-se da apresentação intitulada como Joias do Ballet Russo, que reuniu um elenco de bailarinos renomados de um dos países que mais contemplam e valorizam as artes clássicas e eruditas. Em uma série de apresentações que impactou essa terceira semana do mês de outubro, com danças aplaudidas nas cidades do Rio de Janeiro (Teatro Bradesco Rio, em 17/10), São Paulo (Teatro Bradesco, em 19/10, onde estive presente) e Porto Alegre (Teatro do Sesi, em 20/10), o grupo reuniu os melhores números de espetáculos como Quebra-Nozes, Lago dos Cisnes, Corsário, Dom Quixote e muito mais.

O ballet "Raymonda" foi um dos contemplados na apresentação em São Paulo, logo no início da noite | Crédito: Alexander Gonzalez Rodriguez/Divulgação
O ballet “Raymonda” foi um dos contemplados na apresentação em São Paulo, logo no início da noite | Crédito: Alexander Gonzalez Rodriguez/Divulgação

Sobre os aspectos técnicos das apresentações, não faltou perfeição nos detalhes mínimos da expressão corporal de cada bailarino presente na apresentação de Sampa. Por outro lado, a ausência de um cenário simples e artesanal deixou no palco a sensação de vazio, mal completada por um telão que reproduzia imagens em alta resolução de lugares onde as peças foram baseadas, o que não pareceu o suficiente. O espaço cênico poderia ser completado com flores e outros arranjos simples.

Além disso, a iluminação muitas vezes deixou de casar com a melancolia de danças como o número A Morte do Cisne, dando a impressão de que um número tão cheio de dor estava excessivamente iluminado e, portanto, alegre. A trilha-sonora não foi tocada por uma orquestra ou banda sinfônica ao vivo, como tantos espetáculos grandiosos o são, mas sim reproduzida em gravações que, vez ou outra, tinham seu volume reduzido de forma desavisada, o que foi perceptível e deixou, em alguns momentos, os barulhos que nunca se devem ouvir evidentes: o dos movimentos e dos impactos dos saltos dos bailarinos no solo, o que reduz a percepção de magia sugerida por um ballet. Ao invés disso, a música poderia ter sido reproduzido por um corpo reduzido de uma banda com instrumentos de cordas, dando a impressão do contraponto intimista sugerido pela apresentação.

O ballet "Scheherazade" em São Paulo foi apresentado por um solista | Crédito: Carlos Feldman/Divulgação
O trecho do ballet “Scheherazade” foi apresentado por um solista em São Paulo | Crédito: Carlos Feldman/Divulgação

Outro ponto desfavorável foi o anúncio de cada número de apresentações realizado pelo locutor do espetáculo. Os buracos entre uma dança e outra esfriaram um pouco a percepção da montagem como um todo, já que fazer o espectador esperar um minuto além da conta já dá a sensação de “torta de climão” que tanto queremos evitar nas artes.

Ainda que esses aspectos fossem perceptíveis, é indiscutível que cada número teve sua grandiosidade em beleza. A começar pela seleção dos bailarinos, oriundos das melhores escolas e companhias do país e, consequentemente, graças ao renome que a Rússia têm junto às artes, do mundo. Em resumo: do balé Mikhailovsky, as estrelas selecionadas foram Oxana Bondarev e Mikhail Venshchikov; do Mariinsky, o solista Boris Zhurilov e Tatiana Tiliguzova, que já fez parte do balé Mariinsky, atualmente dança no Bayerisches Staatsballett, e será solista do Bolshoi a partir da próxima temporada; do Stanislavsky, Natalia Ledovskaya e Pukhov Mikhail, e Maksim Marinin, estrela internacional de nacionalidade francesa, especialmente convidado para essa turnê. Por fim, a presença gloriosa de Alexander Volchkov, membro da equipe principal do Bolshoi há 20 anos, fez valer cada minuto de espera por sua aparição no segundo ato, com reproduções que mostram o por quê de ele ser considerado um dos maiores dançarinos em atividade.

O espetacular Alexander Volchkov, considerado como um dos melhores bailarinos do mundo, encantou o público de São Paulo com números de "Dom Quixote" | Crédito: Carlos Grossman/Divulgação
O espetacular Alexander Volchkov, considerado como um dos melhores bailarinos do mundo, encantou o público de São Paulo com números de “Dom Quixote” | Crédito: Carlos Grossman/Divulgação

Além das danças clássicas contempladas, com números deliciosos e já consagrados de Quebra-Nozes e Lago dos Cisnes, destacou-se o solo masculino inspirado nas danças típicas ucranianas e a interpretação impecável de Dom Quixote, com um entrosamento perfeito entre a espetacular Tatiana Tiliguzova, que mesclou sensualidade e delicadeza com maestria, e do próprio Alexander Volchkov, que mistura a leveza do ballet com a virilidade e firmeza dos passos masculinos. O resultado foi murmúrios de choque da plateia e aplausos ovacionados ao final da apresentação.

Apesar das pequenas falhas no conjunto técnico, a apresentação Joias do Ballet Russo casou perfeitamente com a noite tranquila de primavera de uma quinta-feira em São Paulo. A arte salva qualquer coisa, e o ballet engrandece os olhos.

Veja abaixo um gostinho do projeto “Joias do Ballet Russo”:

Joias do Ballet Russo
Avaliação Final: ♥♥♥ (Bom).

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