Crônica: A fabulosa arte de negar

Dizer não é uma atitude simples quando se leva em conta a valorização que ela carrega. São três letras simples e um acento discreto que caracterizam o gesto de balançar a cabeça na horizontal: ene, a, ó, tio. Não!

No entanto, dizer que três letrinhas sem vergonha são um exercício pior do que três horas de academia é algo corriqueiro na vida de uma parcela significativa da população mundial. No francês, o três prevalece pelo grau de esforço: non. No inglês, há um degrau a menos: no. Quisera eu ter a capacidade de saber negar tal qual alguns povos do Hemisfério Norte. Talvez a vida fosse mesmo mais tranquila.

Há um quê de riso na positividade, em dizer sim para as coisas. Até a sonoridade da palavra é mais leve, tal como uma pluma. O não tem ares de grosseria, grito gutural e, às vezes, até desespero. É mais fácil optar pela pena de ganso do que o peso de um carvalho do bosque cortado pelo machado de um lenhador.

Dizer não também é sinônimo de tranquilidade | Crédito: Brodie Vissers/StockSnap
Dizer não também é sinônimo de tranquilidade | Crédito: Brodie Vissers/StockSnap

 

O que a pluma esconde é que, por vezes, ela pode ser traiçoeira. A pena sangra e se quebra quando forçada no papel e no tinteiro. Um sangue escuro de uma alma que queria o poder de dar uma machadada em atitudes grosseiras e invasivas que lhe corrompem o ser. Aquele sim é mais passivo, porém mais simples e conformado. Impor-se exige uma quebra: algo nem sempre tranquilo de aceitar.

Ausentar-se da negação corresponde também a ausentar-se da vontade própria. É calar a voz do lobo selvagem interno que clama por defender a própria pele e alimentar a psique com um banquete farto.

Você precisa parar de se culpar por dizer não e encarar o ato como algo benéfico pra você | Crédito: Matthew Henry/StockSnap
Você precisa parar de se culpar por dizer não e encarar o ato como algo benéfico pra você | Crédito: Matthew Henry/StockSnap

Dizer não é difícil quando existe a falta triste e desesperadora do autoamor. Nutrir sentimentos sublimes por si mesmo é colocar-se acima das vontades invasivas de outros. É escolher-se em detrimento de algo que fere o orgulho e a alma – e resulta em flagelo. É entender o próprio protagonismo na história e firmar-se como alguém que deve ter o poder de escolher o que for mais benéfico para si, sem o medo de ferir os sentimentos dos outros pelas escolhas que fortalecem o seu ser.

Dizer não nem sempre é egoísmo. Muitas vezes, ele é um impulso incrível para valorizar decisões importantes e abdicar das sombras da submissão. Dizer não é uma arte, pois ter convicção das próprias decisões é um feito e tanto.

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