Crítica de Cinema: “João, o Maestro” reforça a beleza do novo cinema nacional

A história real muita gente já sabe. Um pianista de talento inquestionável, que sofreu com as duras peças que a vida lhe pregou, perdeu parte dos movimentos importantes das mãos e, com todas as adversidades, deu a volta por cima, consagrou-se como maestro e, por fim, permaneceu próximo ao grande amor de sua vida: a música.

Davi Campolongo vive o maestro na primeira fase do filme | Crédito: Divulgação
Davi Campolongo vive o maestro na primeira fase do filme | Crédito: Divulgação

A história principal por trás de João, o Maestro, em cartaz nos cinemas de todo o país, é só um dos muitos feitos bem sucedidos por trás do roteiro e da direção de Mauro Lima. Para além da superação conhecida de João Carlos Martins, o longa metragem acerta ao mostrar uma abordagem aprofundada, que parte desde o dom descoberto na infância, passando pelo seu desenvolvimento intenso e brutal como pianista, sua fase puteiríssima em um bordel na Argentina e, mais para a frente, com as traições e a fase melancólica do divórcio até, por fim, chegar nos feitos mais recentes que todos conhecemos. Ao mostrar as falhas e erros de João, a direção tira o músico do patamar de figura surpreendente e inalcançável para mostrar sua faceta mais humana e as desventuras pouco sólidas que o levaram a momentos de duras tristezas, incertezas e uma sensação presente de fracasso.

Rodrigo Pandolfo faz uma interpretação visceral na fase jovem e inconsequente do músico | Crédito: Divulgação
Rodrigo Pandolfo faz uma interpretação visceral na fase jovem e inconsequente do músico | Crédito: Divulgação

Os atores que dão vida ao personagem-central em suas diferentes fases da vida estão ótimos em suas atuações. Davi Campolongo vestiu a camisa de menino prodígio enquanto que Rodrigo Pandolfo surpreende de todas as formas possíveis ao viver as diferentes e impressionantes fases da juventude do maestro, com suas andanças, a intensificação dos seus estudos junto ao professor José Kliass (Caco Ciocler, em ótima atuação) e o reconhecimento por seu talento fora do comum. É com ele que as principais fragilidades de João ganham forma, com o término brusco de seu casamento com Sandra (vivida por Fernanda Nobre, em atuação discreta), as noitadas em terras norte-americanas, que mostram o despertar de uma decadência e da imaturidade de suas relações interpessoais, além da dificuldade de conciliar sua vida pessoal com a carreira em ascensão.

Alinne Moraes, em atuação madura, divide bem as cenas com Alexandre Nero | Crédito: Divulgação
Alinne Moraes, em atuação madura, divide bem as cenas com Alexandre Nero | Crédito: Divulgação

A Alexandre Nero, o trunfo está na total entrega à fase mais madura do personagem, bem como sua noção de fracasso e a surpreendente volta por cima. A semelhança com o próprio maestro mostram o sucesso da produção de maquiagem e figurino do longa metragem, bem como a atuação de Nero, que convence em todos os sentidos. Sua química e parceria em cena com Aline Moraes (madura e serena no papel de Carmen Valio de Araújo, companheira do músico há quase vinte anos) coroam, por fim, o sucesso da produção, presenteada com honra por uma excelente direção de arte e uma trilha sonora clássica e visceral, sobretudo com o repertório de Bach, cujas execuções lhe valeram a fama internacional.

Em alguns momentos, a semelhança de Alexandre Nero com João Carlos Martins beira o susto | Crédito: Divulgação
Em alguns momentos, a semelhança de Alexandre Nero com João Carlos Martins beira o susto | Crédito: Divulgação

Apesar das dificuldades enfrentadas por João, o filme sabe mesclar bem os sentimentos de tristeza do personagem com os traços cômicos de sua fase jovem, além de executar de forma surpreendente as tomadas nas quais o pianista entra em cena, com toda a sua visceralidade e paixão pelo instrumento.

Com isso, João, o Maestro parece ser mais uma das muitas produções nacionais que vieram para tirar o foco dos excessos de comédia nas telonas do país para dar vez ao drama, aos romances e aos roteiros complexos e infinitamente mais humanos. Vivemos, enfim, uma de nossas melhores fases na sétima arte.

VAI LÁ
João, o Maestro
Roteiro e Direção: Mauro Lima
Elenco: Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Davi Campolongo, Caco Ciocler, Alinne Moraes, Fernanda Nobre, Geytsa Garcia, Alice Assef, Giulio Lopes, Neco Villa Lobos, Domingos Antonio, Joca Andreazza, Edu Guimarães, Marcelo Laham e Ondina Clais.
Produção: Luiz Carlos Barreto e Paula Barreto.
Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto.
Montagem: Bruno Lasevicius.
Distribuição: Sony Pictures e Globo Filmes.
Classificação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente).

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