Crônica: Sobre qualidade de vida e afins

“Quero me mudar para algum lugar distante daqui. Uma casa na praia, onde eu possa atravessar a rua para tomar um sol e mergulhar no mar. Uma casa na fazenda com uma horta orgânica, vários animais de estimação e tranquilidade. Uma casa na montanha com uma bela vista, uma lareira e uma biblioteca para chamar de minha”.

Não é raro eu ler ou escutar das pessoas frases como as que foram montadas acima. Acredito que essa insatisfação e esses sonhos sejam prudentes e compreensíveis: o mundo no qual vivemos carece de elementos que tornem nossas vidas mais tranquilas e pautadas em qualidade, e não quantidade de trabalho e transtornos diversos. Os noticiários não contribuem com a melhoria dessa sensação onipresente de menos valia e atribulação, já que estamos sempre sendo bombardeados com notícias pessimistas de violência, assassinato, corrupção etc e tal. O que fazer, afinal?

Crédito: Andrew Branc/ISO Republic
Todo mundo precisa de uma praia paradisíaca pra ter qualidade de vida. Será? | Crédito: Andrew Branc/ISO Republic

O sentimento generalizado da população é buscar mais qualidade de vida. É estar em um lugar que possa proporcionar um pouco mais de tranquilidade, equilíbrio entre trabalho e atividades de cunho pessoal, com tempo hábil para pegar um cinema, ver uma peça de teatro, viajar ou simplesmente ficar bem no conforto de casa, lendo um livro, cozinhando ou jogando uma partida de videogame. É isso, não é?

Me peguei pensando esses dias no que realmente buscamos. Constatei que a resposta não é tão simples, já que um equilíbrio também precisa ser impulsionado por autoconhecimento, vontade de sair do lugar comum e, muitas vezes, se desafiar. O discurso pela busca da qualidade de vida sempre vem permeado pela falta de terceiros. A culpa é do chefe que torna o ambiente de trabalho um inferno. A culpa é da empresa que não favorece nosso desenvolvimento enquanto profissionais. A culpa é dos inimigos que colocam olho gordo em tudo que fazemos e nos desmerecem. A culpa é das cidades caóticas nas quais vivemos. Não que tudo isso realmente seja isento de culpa diante de tantas adversidades. Mas e o nosso papel nisso tudo, como é que fica?

São Paulo- SP, Brasil- Vista da Praça dos Correios, no centro velho. Prédio do Palácio dos Correios e do Edifício Martinelli (prédio mais alto)
Uma cidade tão grande quanto Sampa têm lá seus caos. Mas você já experimentou a cultura que ela oferece pra melhorar sua vida? | Crédito: EMBRATUR

Em uma despedida de amigos, que deixaram todos os conflitos na cidade de São Paulo para mochilar e tentar novas oportunidades no Nordeste, escutei os dizeres: “Eu entendo. São Paulo é sinônimo de ansiedade e realmente faz a gente ficar doente”. Aquilo me incomodou muito. Apesar de todos os seus defeitos, das velocidades, do trânsito e das falhas, Sampa foi o berço de muito colo pra mim. Quantas vezes uma exposição de arte em museus como o Itaú Cultural, o MASP e o Instituto Tohmie Otahke acalmaram meus nervos? Quantos shows ocorridos em lugares diversos descarregaram o peso de uma semana inteira? Quantas vezes um dia ensolarado em parques como o Villa Lobos e o Ibirapuera me deixaram com energia revigorada para produzir mais? Isso pra citar poucos exemplos, já que a mesma cidade que me deixa tão profundamente irritada com seu trânsito foi a mesma a me deixar tranquila com suas tantas opções de cultura, arte e gastronomia.

Eu digo isso não pra diminuir o Nordeste, já que suas cidades, suas praias, sua comida e seu povo acolhedor me trouxeram experiências e memórias que literalmente mudaram minhas percepções sobre muitas coisas e me trouxeram uma sensação de valor enorme, percebendo o quanto o ser humano pode ser magnífico em sua essência – e o quanto um acarajé e um bolo de rolo transformam sua vida em preto-e-branco para uma paisagem de explosão de cores. Mas se uma pessoa não enxerga seu papel para melhorar sua qualidade de vida e aproveitar tudo de bom que a vida tem para oferecer em qualquer canto do mundo, não adianta: a infelicidade vai vir tanto em uma praia paradisíaca, como em uma casa na montanha ou em uma cidade grande cheia de opções de lazer. Sem esse autoconhecimento, autopreservação, autocrítica e vontade de estar sempre mudando, você estará infeliz tanto nas highlands escocesas quanto no parque de tulipas da Holanda.

Keukenhof, na Holanda | Crédito: Lin Mei/Flickr/Creative Commons
Com padrões de reclamações repetitivas, nem um parque de tulipas como o Keukenhof, na Holanda, é capaz de te salvar | Crédito: Lin Mei/Flickr/Creative Commons

Veja bem: esse texto não é um alerta para pessoas que sofrem com distúrbios mentais, já que aqui o buraco é mais embaixo e carece de tratamentos psiquiátricos, psicológicos e muito apoio em mudanças de hábitos. Esse texto vem como um tapa primordialmente para a reclamação sem mudança de padrões, à qual todos nós, estando minimamente sadios, estamos fadados a ter. É muito fácil a gente reclamar de uma São Paulo se não se permite pedalar em um domingo de sol em um dos seus parques, usufruir de pinturas espetaculares em seus museus, aproveitar a diversidade de sua gastronomia e participar de seus muitos eventos culturais.

E digo mais: de nada adianta achar que a precariedade de alguns serviços no Nordeste destroem um dia inteiro se não existe uma pausa para aproveitar um pôr-do-sol digno em suas praias ou de visitar centros culturais que valorizam toda a história e a cultura de povos indígenas e de sertanejos itinerantes. De nada adianta desmerecer o jeitão orgulhoso de um gaúcho se você não atravessa uma parte do estado para conhecer os pampas ou mergulhar em uma cidade com o charme de Gramado e Canela. Isso só pra citar exemplos curtos desse nosso Brasil. Se eu fosse promover reflexões sobre todas as nossas regiões e nossas famigeradas reclamações, não ia sobrar gente a fim de continuar lendo esse texto. Os defeitos não são exclusividade de nosso país e existem em todos os lugares do mundo. Mas se você não tiver o discernimento para valorizar o lugar onde você mais gosta de estar para lutar contra o que está errado e valorizar o que está bom, não tem passaporte que te salve do seu resmungo excessivo.

O paraíso não é só externo. Ele também mora dentro da gente | Crédito: Etienne Boulanger/Unsplash
O paraíso não é só externo. Ele também mora dentro da gente | Crédito: Etienne Boulanger/Unsplash

A realidade é que a gente está sempre buscando motivos para justificar algo que falta no nosso cotidiano, mas pouco fazemos para mudá-lo. É fácil reclamar do emprego no escritório quando não se faz nada para mudar o ambiente ou quando não se busca novas oportunidades – e até mesmo toca o foda-se pra esse lugar que tanto prejudica a sua saúde mental. Nesse ponto, a gente se deixa afetar pelas armadilhas da rotina, da mesmice e do pessimismo, ficando cego até para enxergar um palmo à frente. Arriscar-se é menos amedrontador e nocivo do que se imagina e, muitas vezes, é o que nos salva da infelicidade quanto as coisas se tornam um marasmo grotesco ou um mar de ruindades impossíveis de se suportar.

Para aqueles que estão constantemente reclamando da falta daquilo que dá nome a esse texto, cabe a reflexão: o que exatamente você está fazendo para melhorar? Para que a mudança externa possa ocorrer, precisamos primeiro mudar certos aspectos de nós mesmos. Ou, então, estaremos sempre fadados a reclamações estapafúrdias e repetitivas na nossa rotina, que em nada contribuem para a nossa tão sonhada qualidade de vida, realização pessoal e concretização de sonhos.

O tempo não pára e não perdoa. Nós temos hoje para começar a mudar a nós mesmos | Crédito: Uros Jovicic/Unsplash
O tempo não pára e não perdoa. Nós temos hoje para começar a mudar a nós mesmos | Crédito: Uros Jovicic/Unsplash

Sejamos agentes e protagonistas de nossas histórias. Isso depende da gente e de mais ninguém. Que sejamos maduros o suficientes para saber quando é hora de mudar de rumo, assumir nossas falhas e exaltar nossas qualidades. Viver bem exige isso.

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2 Comments Add yours

  1. Tati says:

    Muito bom o texto, adorei! Ótimo pra refletir.

    1. camilahonorato says:

      ❤❤❤❤

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