Caindo na Estrada: a história e as atrações de Paranapiacaba (SP)

Tão encantadora e histórica quanto assustadora. Esse foi o primeiro pensamento que passou por mim no instante em que eu pisei na cidade de Paranapiacaba, localizada no município de Santo André, em São Paulo. O lugar é compacto, com atrações limitadas, opções razoáveis de alimentação e preços justos. Não é um lugar de temporada, mas de bate e volta para quem mora no estado.

A natureza dialoga com o abandono na estação de Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
A natureza dialoga com o abandono na estação de Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato

A história da região remonta a um passado curioso, com uma pitada de assombro. O lugar esteve na rota da construção da primeira ferrovia do estado de São Paulo, que ligava cidades interioranas ao litoral. O projeto ganhou forma no século 19, quando o imperador D. Pedro II assumiu a coroa e o país passava a ganhar maior importância com suas terras férteis e grandes produções, dentre as quais se destacavam a cana de açúcar e o café. Em contrapartida, do outro lado do mundo, a Inglaterra fincava seus pés na modernidade com a contraditória Revolução Industrial. Era preciso, pois, alinhar os avanços tecnológicos das terras britânicas com os meios de produção e o crescimento econômico do Brasil. Era iniciado o projeto da estação ferroviária, que trouxe materiais e trabalhadores ingleses para as nossas terras tupiniquins.

O cemitério é o primeiro ponto turístico de Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
O cemitério é o primeiro ponto turístico de Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato

A obra criou um trecho que ligava Jundiaí a Santos. Nascia a São Paulo Railway Company. Trabalhadores britânicos instalaram-se no chamado Alto da Serra para trabalhar na construção e fixaram pequenas casas e comércios para a longa temporada de trabalho. O Alto da Serra era o que hoje conhecemos como Paranapiacaba. Do passado glorioso do auge da indústria ferroviária, hoje restaram destroços, peças, paredes descascadas e construções em completo desuso.

Chegar até Paranapiacaba e desfrutar do pequeno gostinho do que foi esse passado paulista requer um pouco de verba. Afinal de contas, o Expresso Turístico, que parte da interessante Estação da Luz, cujo conjunto arquitetônico está entre as maiores preservações do passado da cidade de São Paulo, e segue até a Estação de Paranapiacaba pede R$ 45 para uma viagem de ida e volta ao turista – o que, colocando na ponta do lápis, para quem costuma utilizar transporte público para chegar até o local, chega a ser um abuso. Em contrapartida, se o turista chega de ônibus até Santo André, pode pegar um único ônibus pelo preço tabelado da EMTU até Paranapiacaba ou, ainda, pegar o trem da CPTM, descer na estação de Rio Grande da Serra e, de lá, pegar o ônibus até a cidade. O trajeto é relativamente rápido e infinitamente mais barato.

O cemitério de comboios está entre as principais atrações da cidade | Crédito: Camila Honorato
O cemitério de comboios está entre as principais atrações da cidade | Crédito: Camila Honorato

O primeiro ponto turístico para quem chega a Paranapiacaba é o cemitério – o que, para um casal que veio em um ônibus enlouquecidamente rápido, foi até sugestivo. Os jazigos datam do século 19 e foram encomendados pelos próprios chefões ingleses que conduziram o projeto da construção, já que os trabalhos braçais eram extremamente intensos e forneciam muitos riscos de acidentes fatais. Além disso, as condições climáticas locais também trouxeram uma epidemia preocupante, varrendo alguns daqueles trabalhadores, literalmente, para debaixo da terra. Não é raro passar pelo local e constatar que muitos dos túmulos antigos que ali se encontram apresentam homenagens da São Paulo Railway Company a seus pupilos que vieram a óbito durante o trampo.

O lugar é considerado patrimônio histórico do município, e pudera: o túmulo de óbito mais recente que avistei data da década de 1970 (o que no fundo é um alívio, já que a última coisa que eu queria era ver uma combustão acidental na minha frente). Apesar de mórbido e recheado de uma atmosfera bem mal assombrada, com direito a um banheiro mal cuidado e de paredes descascadas, flores mortas nos túmulos e muito musgo, o cemitério é uma parada valorizada pelos turistas, está sempre cheio de visitantes e rende fotos inspiradoras para um curta de terror. O que, avaliando o vídeo abaixo, vocês podem ver que tentei aproveitar.

Destroços compõem o cenário da estação abandonada de Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato
Destroços compõem o cenário da estação abandonada de Paranapiacaba | Crédito: Camila Honorato

Saindo de lá, tem uma pequena igreja antiga e muito pouco convidativa, que atende pelo nome de Igreja de Bom Jesus. O lado externo é válido para fotografias, mas não existe nada de atrativo lá dentro. As pinturas são de gosto duvidoso e a escultura pavorosa de Jesus Cristo chega a dar susto. Seguindo pelo entorno da igreja, a vista da serra é convidativa para uma bela olhada e uns cliques, como é de praxe. Saindo de lá, pequenas ruas estreitas levam o turista para o andar de baixo, deparando-se com pequenas casinhas temáticas da chamada Vila Inglesa, muitas delas abandonadas, e comércios discretos. Vale dar uma pausa para provar as cachacinhas e os licores de Cambuci do seu Moretti, figura carimbada por ali e que esbanja simpatia e rock and roll.

A parada seguinte já é a principal atração turística de Paranapiacaba: o famoso cemitério de comboios, que nada mais é do que uma estação abandonada, cheia de vagões em desuso, trilhos cobertos por uma vegetação insistente e uma construção que sugestivamente imita o Big Ben londrino. Visto de longe, em dias nublados, ele compõe um perfeito cenário de terror graças à neblina insistente que percorre a região. O museu ferroviário, anexo ao espaço a céu aberto, exige R$ 10 do turista para ser explorado.

Comboios e peças em desuso tão o tom do lugar | Crédito: Camila Honorato
Comboios e peças em desuso tão o tom do lugar | Crédito: Camila Honorato

Em se tratando de uma atração histórica, ainda que o apelo de abandono seja um dos atrativos locais, há uma quantidade enorme de peças em estado lastimável de conservação e que com certeza poderiam passar por um respeitoso reparo, sem que o mesmo prejudicasse sua estrutura original, para serem mais convidativos aos olhos de quem os observa. Ainda assim, é interessante ver as peças utilizadas para compor a locomotiva, dar uma checada nos objetos legítimos que pertenceram a trabalhadores e, de quebra, dar uma esticadinha até o “comboio real”: o vagão que transportou o imperador D. Pedro II em uma de suas andanças por aqueles trilhos.

Ainda que a história paire com cheiro de mato e neblina no ar, não é só do passado que Paranapiacaba sobrevive. Por aqui, é possível explorar trilhas ecológicas em áreas de preservação ambiental. O ecoturismo, aliás, é muito mais convidativo para uma parcela significativa de jovens turistas, que percorrem belos trechos da natureza, preparados com tênis, bermuda larga, garrafa de água e mochila nas costas.

A maioria das atrações de Paranapiacaba têm esse tom sinistro | Crédito: Camila Honorato
A maioria das atrações de Paranapiacaba têm esse tom sinistro | Crédito: Camila Honorato

Na outra extremidade, a gastronomia local é movimentada e carregada de opções consideravelmente interessantes. Entre os estabelecimentos, destacam-se o Estação Cavern Club Restaurante & Wine Bar, que mais parece um bistrô com opções variadas de vinhos, e o Bar da Zilda, que ganhou novo espaço e oferece uma vasta opção de cervejas e produtos locais para levar para casa. Esse último, aliás, foi a nossa escolha pra bater um PF daqueles no final do passeio. As mesas externas, é bom avisar, vivem lotadas.

Ainda que seja um roteiro histórico, Paranapiacaba carece de investimentos para ficar mais convidativa aos olhos. Mesmo com essas falhas, vale a pena pelas peças antigas, pelas histórias que conta e pela natureza.

Veja mais fotos da viagem no meu Flickr clicando aqui.

Acesse o vídeo do curta sobre a viagem no meu canal no YouTube abaixo: 

LEIA MAIS: Os 30 lugares abandonados mais incríveis do mundo – Viagem & Turismo

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One Comment Add yours

  1. Tati says:

    Bem legal!
    Já fui pra Paranapiacaba uma vez pra fazer trilha, mas nunca fui na cidade mesmo. Tenho vontade. 🙂

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