Crítica de Cinema: A importância do filme da “Mulher-Maravilha”

No início da década de 1940, o mundo das histórias em quadrinhos consolidava sua importância em meio às vendas de conflitos de super-heróis másculos e imbatíveis. Eram homens em suas melhores formas, fortes e destemidos, combatendo vilões insanos e guerras terríveis. Em meio a esse contexto, reflexões começaram a surgir. Faltava uma figura que combatesse o mal sem destruir seu bem interno, que exalasse amor e, acima de tudo, falasse não só para o público masculino, mas também para o feminino.

Naquela época, no auge da Segunda Guerra Mundial, homens eram convocados para campos de batalha enquanto suas esposas tinham que arregaçar as mangas para trabalhar e sustentar as casas. A emancipação feminina ganhava seus contornos, juntamente com a força dos primeiros sinais do movimento feminista daqueles tempos. No campo editorial, era preciso ir além do sonho de jovens homens que usavam as histórias de personagens como o Super-Homem como válvula de escape para os problemas sociais da época. Era preciso, pois, conversar com quem ainda não havia cedido seu tempo de leitura para as HQs. Era preciso conversar com as mulheres.

HQ de "Mulher-Maravilha". A personagem penou para ser aceita pela crítica e pelo público | Crédito: Divulgação
HQ de “Mulher-Maravilha”. A personagem penou para ser aceita pela crítica e pelo público | Crédito: Divulgação

Segundo matéria publicada no site da Revista Superinteressante, o psicólogo William Moulton Marston, que integrava o campo de profissionais envolvidos no universo da DC Comics, se viu impulsionado a criar uma personagem que dialogasse com as mulheres. Ele próprio era um defensor das causas femininas, da igualdade de gêneros e dos relacionamentos livres e poliamorosos. Ele vivia com sua mulher Elizabeth, que deu a ideia de que o personagem que triunfaria com amor nos campos de batalha deveria ser uma mulher, e com sua amante Olive Byrne, cuja marca registrada eram as pulseiras metálicas que adornavam seu figurino. As duas mulheres juntas serviram de influência e impulso para que ele criasse uma das, se não a mais, personagens emblemáticas femininas do universo do quadrinhos: a Mulher-Maravilha.

Diana (Gal Gadot) dialoga com a mãe e com as amazonas para defender o que acredita | Crédito: Divulgação
Diana (Gal Gadot) dialoga com a mãe e com as amazonas para defender o que acredita | Crédito: Divulgação

É claro que deixar um homem à frente da criação de uma heroína teve lá suas consequências: o figurino da personagem era composto por trajes mínimos e contextos que traziam referências ao sadomasoquismo, tornando-a, portanto, uma personagem indecente aos olhos da crítica e do público. O machismo conteve a repercussão da personagem, que era mais uma secretária do que uma heroína. William lutava pelo espaço dessa mulher, que só acabou deslanchando entre as décadas de 1960 e 1970, quando conflitos da personagem passaram a chamar a atenção. A Mulher-Maravilha perdeu seus poderes para só retomá-los com a interferência da ativista Gloria Steinem. A venda dos gibis atingiu seu pico e a personagem ganhou séries de TV. Ainda assim, em relação aos outros heróis homens que ganhavam diversas adaptações para as telas do cinema, a bela amazona era deixada para trás e perdia espaço para outras produções. Até agora.

A rainha amazona Hipólita (Connie Nielsen) segura a sua pequena Diana (Lilly Aspell) | Crédito: Divulgação
A rainha amazona Hipólita (Connie Nielsen) segura a sua pequena Diana (Lilly Aspell) | Crédito: Divulgação

Lançado em junho de 2017 nos cinemas brasileiros, o filme Mulher-Maravilha finalmente ganha os cinemas com um formato de super-produção, quase nove décadas depois da criação da personagem nos quadrinhos e muitos anos depois de ver heróis como Super-Homem, Batman e até personagens do plano B da DC Comics, tais como Lanterna Verde e Arqueiro Verde, ganharem filmes de orçamentos escandalosos e séries de televisão. O roteiro liberta-se dos contornos do exagero do nacionalismo americano para retomar as origens mitológicas da personagem, criada do barro por sua mãe Hipólita (Connie Nielsen) na fictícia Ilha de Temiscira, habitada unicamente por mulheres, as amazonas, e encomendada por Zeus para combater os males e o ódio à humanidade de Ares, o Rei da Guerra.

Aqui encontra-se o primeiro acerto do roteiro do filme, que sabe usar bem o mito da criação e das batalhas enfrentadas pelas amazonas para prender o espectador. Diana (interpretada com afinco pela atriz novata Gal Gadot), nome da heroína que batiza a história, é criada sob o escudo protetor de sua mãe enquanto treina em segredo com a tia Antíope (Robin Wright) para se proteger e proteger suas semelhantes contra a ameaça de um ataque iminente à ilha. No meio dos cenários paradisíacos do lugar e das belas tomadas de luta dos treinamentos das mulheres que o habitam, um jovem acaba adentrando a ilha ao fugir da perseguição dos alemães. Trata-se de Steve Trevor (interpretado por Chris Pine), um espião do governo britânico que detecta a ameaça de um veneno produzido em larga escala para matar as pessoas em meio à guerra e que foge com a fórmula ameaçadora da sinistra Dra. Maru (ou Dra. Veneno, interpretada por Elena Anaya), que serve aos nazistas.

A sinistra Dra. Maru (Elena Anaya), que desenvolve um veneno altamente destruidor | Crédito: Divulgação
A sinistra Dra. Maru (Elena Anaya), que desenvolve um veneno altamente destruidor | Crédito: Divulgação

É a partir desse momento que Diana decide sair da ilha para defender os humanos dos horrores da guerra e enfrentar a constante ameaça da influência de Ares. O resto é o que compõe as longas duas horas e meia do filme, onde a princesa das amazonas adentra os cenários de Londres, disfarça o uniforme curto e metálico em meio a roupas da década de 1940 e traça um plano para combater a doutora disforme, seu chefe Ludendorff (Danny Houston), mais cego de ódio e tolo do que ameaçador, e salvar as pessoas da destruição provocada pelos conflitos armados. Vamos continuar essa análise sem spoilers, tá bem? 

A força da direção de Patty Jenkins, uma mulher inteligentemente selecionada para conduzir o longa metragem, está nas tomadas de luta e treino entre as mulheres, nas cenas delicadas de amizade e amor entre os personagens e na ação livre de efeitos especiais. A fotografia é um ponto forte, sobretudo no início do filme com tomadas delicadas e estratégicas dos cenários cuidadosamente selecionados, que inclui lugares na belíssima Costa Amalfitana, na Itália. Além disso, o figurino e a trilha-sonora compõem um dos pontos técnicos altos do longa metragem. Na história, as dúvidas dos homens quanto à força da mulher são deliciosamente confrontadas quando Diana os defende, luta e amedronta com seu lendário Laço da Verdade, seu escudo e sua espada (faltou o mitológico avião invisível, mas há boatos de que ele terá sua vez em Liga da Justiça). A escolha de Gal Gadot como a personagem principal foi outro bom acerto: o delicioso sotaque e a humanidade de sua atuação convencem, mostrando que a seleção da israelense para viver uma personagem tão forte e de coração tão puro foi um caminho certeiro. E é linda. Como é linda!

A atriz Gal Gadot, bela e impecável como "Mulher-Maravilha" | Crédito: Divulgação
A atriz Gal Gadot, bela e impecável como “Mulher-Maravilha” | Crédito: Divulgação

Entre os pontos fracos, destacam-se a ausência de personagens negras, já que a história original deu muito espaço para elas. Em tempos de discussão sobre inclusão e combate certeiro contra a sombra do racismo, não podemos voltar atrás e dar espaço para um elenco majoritariamente branco, como defende sabiamente a colunista e colaboradora da ONG Think Olga Luíse Bello em seu texto para o Huffpost Brasil. A vilã Dra. Maru poderia ser mais explorada em cenas sinistras e irônicas que fazem jus à sua natureza, visto que ela acaba perdendo espaço para a maldade de Ludendorff. Em se tratando de uma personagem responsável pelo desenvolvimento de um veneno extremamente ameaçador para os seres humanos, isso jamais deveria ter acontecido. Além disso, a revelação surpreendente quanto ao personagem Sir Patrick (o ator David “Professor Lupin de Harry Potter” Thewlis) ficou vaga, pois faltou ao roteiro dar espaço às nuances do personagem e evidenciar um pouco mais sua dualidade. Tiveram um poder indiscutível de surpreender e confundir o espectador, que acabou sendo desperdiçada.

A luta das amazonas, lideradas pela guerreira Antíope (Robin Wright) é um dos pontos altos do filme | Crédito: Divulgação
A luta das amazonas, lideradas pela guerreira Antíope (Robin Wright) é um dos pontos altos do filme | Crédito: Divulgação

Por fim, a maior das falhas: a computação gráfica e os efeitos especiais de Mulher-Maravilha beiram a vergonha alheia, transformando cenas de ação em potencial em extensões mal feitas de quadrinhos. É evidente a influência dos traços de Zack Snyder, que assina a produção do filme. Sua identidade profissional tornou-se um mal clichê tal qual os filmes assinados por Tim Burton, com um agravante: todos os filmes que o envolvem parecem uma extensão de Sucker Punch – Mundo Surreal e sua computação gráfica propositalmente fora da realidade. Em filmes de super heróis da DC Comics, cujo maior trunfo foi a recente trilogia sombria de Cristopher Nolan para o Batman de Cristian Bale, há que se libertar da produção questionável de longas decepcionantes como Batman Vs Superman para recorrer a efeitos não irreais em cenários verdadeiros – e cujo foco é a capacidade dos atores e do desenvolvimento do roteiro complexo.

Steve (Chris Pine) e Diana (Gal Gadot) desenvolvem uma boa parceria na batalha contra os horrores da guerra. E um amor puro também! | Crédito: Divulgação
Steve (Chris Pine) e Diana (Gal Gadot) desenvolvem uma boa parceria na batalha contra os horrores da guerra. E um amor puro também! | Crédito: Divulgação

Mesmo que com algumas ressalvas, Mulher-Maravilha merece, sim, bons aplausos. É a maior consagração das produções recentes da DC Comics, que devolvem à companhia um possível desenvolvimento potencial nos cinemas (já que as recentes adaptações do selo foram verdadeiramente desastrosas). Ironicamente, quem devolveu essa possibilidade de se redimir com o público e tentar ao menos um terço da qualidade da Marvel à gigante dos quadrinhos foi justamente a personagem feminina subestimada lá nos idos da década de 1940. O ato de despir a capa e revelar a armadura de uma guerreira impressionante e forte é de emocionar. A sensação trazida às mulheres é a de finalmente ver uma representação firme e convincente do potencial de luta e heroísmo. Finalmente o cinema tem uma heroína e semi-deusa dos quadrinhos pertencente ao sexo da intuição. Tais características são, louvadamente, fortalecidas e valorizadas frente à sensibilidade de Patty Jenkins como diretora e de Gal Gadot como atriz.

Mulher-Maravilha em ação. Quem disse que a gente não consegue lutar também? | Crédito: Divulgação
Mulher-Maravilha em ação. Quem disse que a gente não consegue lutar também? | Crédito: Divulgação

As bilheterias gritam: tem recorde mundial ultrapassando U$ 700 milhões e um mulherão da porra na boca do povo, trazendo um potencial e positivo poder de influência para tantas mulheres que sonharam se sentir verdadeiramente representadas. Chupa, Superman!

VAI LÁ!
Mulher-Maravilha
Direção: Patty Jenkins
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Connie Nielsen, Robin Wright, Danny Huston, David Thewlis, Elena Anaya, Luci Davis, Ewen Bremner, Saïd Taghmaoui, Lisa Loven Kongsli, James Cosmo, Steffan Rhodri, Rachel Pickup, Rainer Bock, Florence Kasumba e Eleanor Matsuura.
Roteiro: Allan Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs.
Trilha-Sonora Instrumental: Rubert Gregson-Williams.
Produção: Deborah Snyder, Zack Snyder, Charles Roven, Richard Suckle, Geoff Johns, Rebecca Steel Roven e Jon Berg.
Fotografia: Matthew Jensen.
Distribuição: Warner Bros.

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2 Comments Add yours

  1. Tati says:

    Nunca li as HQs, mas adorei o filme.
    Mesmo com os problemas, também acho um filme importante, ainda mais se levarmos em consideração todo esse universo de heróis.

    1. camilahonorato says:

      Assino embaixo, Tati! ♥

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