“No one sings like you anymore”: a dor de perder Chris Cornell e a pureza da gratidão

Há uma semana, eu tive um dos banhos mais impactantes da minha vida. É normal que, em momentos de solidão, a gente reflita sobre a vida, pense nas coisas certas e erradas e raciocine sobre o peso e a delícia da existência. Às vezes a gente canta. Às vezes a gente conversa consigo mesmo em voz alta. E às vezes a gente só chora. E chora muito.

Naquela quinta-feira, o dia em São Paulo tinha amanhecido cinzento e frio, mas a nebulosidade percorria o país inteiro com os recentes escândalos políticos que envolveu nossa bandeira. São roubalheiras escancaradas, cinismo e injustiça. E, no meio do choque e das notícias cada vez piores dos noticiários, um homem de 52 anos, de coração puro e música sublime, cuja voz tornou-se um dos sons mais potentes desde os anos 1990, deixava esse mundo. “Que injusto”, eu pensava. Mas por quê? O que houve? Como assim?

A notícia da morte de Chris Cornell interrompeu minhas reflexões políticas e os planos que eu tinha no meu trabalho. O baque quase me fez cair debaixo do chuveiro ao ver minha mãe e irmã anunciando aquela notícia aos prantos. “Meu Deus”, pensei. E imediatamente, minha cabeça me transportou para o ano de 2007, onde presenciei um show impecável e divertido desse ser iluminado. Que dom e que maturidade musical! Como pode, dez anos depois, esse vigor todo abandonar o corpo? Não fazia sentido pra mim. Em prantos, rezei baixinho por um dos meus ídolos de infância e pensei como a vida às vezes pode ser tão injusta, deixando a nós, reles mortais, perdas importantes e, ao mesmo tempo, conflitos dispensáveis. Um filme inteiro se passou pela minha cabeça. E eu voltei pra minha adolescência.

Flashback – A explosão do grunge, do Audioslave e a importância de Chris Cornel na minha vida

Cabeleira de garagem e de respeito | Crédito: Autor Desconhecido/Divulgação
Cabeleira de garagem e de respeito | Crédito: Autor Desconhecido/Divulgação

Pensar em Chris Cornell é também refletir sobre um papel intenso, importante e de relevância extrema para a história da música. Afinal de contas, esse homão da porra foi um dos precursores de um dos movimentos mais melancólicos e intensos da história do rock and roll. Passada as reivindicações do Woodstock, onde o apelo político pelo fim da Guerra do Vietnã idealizou um mundo novo livre de conflitos armados e cheio de “paz e amor”, e da transição das guitarras de Jimi Hendrix pelas calças coladas de tantas bandas de qualidade entre 1970 e 1980, uma parcela dessa nova leva flertou com o outro lado da moeda. Essa mistura de gêneros, como o hard rock, o heavy metal e o peso bagunçado do punk, influenciaram diretamente um pequeno grupo de músicos de uma cidade específica dos Estados Unidos. Aqui, o “glamour” era desprezado pelo ambiente de rock de garagem e de familiaridade entre eles, já que muitas pessoas ali se conheciam.

Eddie Vedder e Chris Cornell no palco com o Temple Of The Dog. Isso é a personificação do amor | Crédito: Autor Desconhecido/Divulgação
Eddie Vedder e Chris Cornell no palco com o Temple Of The Dog. Isso é a personificação do amor | Crédito: Autor Desconhecido/Divulgação

Foi naquela época que o termo grunge começou a ganhar forma em Seattle, junto com o desenvolvimento de bandas como o Mudhoney, tido por muitos como os grandes impulsionadores desse novo movimento musical. Naquela época, sentimentos de depressão e revolta se misturavam com a agressividade dos instrumentos e à obscuridade das drogas. Um episódio em particular, aliás, serviu de estopim para reunir muitos dos músicos mais importantes da década de 1990 e, consequentemente, da história do rock: Andrew Wood, vocalista do Mother Love Bone, foi encontrado morto por overdose de heroína. Como forma de homenageá-lo, os integrantes Stone Gossard e Jeff Ament se reuniram com o guitarrista Mike McCready e Matt Cameron para encabeçar um projeto liderado por um belo cabeludo de voz encorpada. Era ninguém menos que Chris Cornell, cuja procura por um segundo cantor para compor o projeto o levou até um jovem tímido e surfista, de cabelos ondulados: Eddie Vedder. O resto a gente sabe que é história. E muita história! O Temple Of The Dog, que surgiu desse encontro, deu origem a algumas das melhores músicas dessa década, como Say Hello 2 Heaven e, é claro, Hunger Strike:

Depois desse tributo, Chris seguiu seu rumo e formou o Soundgarden, enquanto os demais membros do Temple se juntaram ao tímido Vedder, de voz surpreendente, para formar o Pearl Jam. E aí veio porrada atrás de porrada na música. Os grupos estouraram, juntamente com euforia provocada pelo Nirvana e o sofrimento potente das letras do Alice in Chains. Em uma das pontas, o mundo foi contemplado com obras-primas como Black Hole Sun, Jesus Christ Pose, Outshined, Spoonman e Fell on Black Days. Em paralelo, Chris gravou a música Seasons para o filme Vida de Solteiro, dirigido por Cameron Crowe, diretor conhecido por sua ligação com a música e que, em 2011, assinou a direção do documentário espetacular Pearl Jam Twenty, em homenagem aos vinte anos da banda.

O grupo de Chris permaneceu junto até 1997, quando anunciou a separação, e os membros seguiram rumos diversos. A Chris, veio trabalhos brilhantes da carreira solo e, em 2001, ele se reuniu com os ex-integrantes do Rage Against The Machine (Tom Morello, Tim Commerford e Brad Wilk) para formar o Audioslave. E bem: pelo estrondoso sucesso de músicas como Cochise, Like A Stone, Show Me How To Live, I Am The Highway, Shadow Of The Sun, Be Yourself e Doesn’t Remind Me, a gente bem sabe como isso terminou. Foi um ligeiro “cale a boca” em quem pouco botava fé na junção de integrantes de uma banda rotulada como rap rock com um cantor cuja voz era conhecida pelo tom melódico. Foram três álbuns de impacto e três indicações ao Grammy. Antes da separação oficial em 2007, o grupo ainda teve fôlego para ser uma das poucas bandas norte-americanas a ter peito para tocar para 50 mil pessoas em Cuba na Plaza de Havana, conhecida por abrigar protestos contra os EUA, e mostrou o feito histórico em um belíssimo registro em DVD.

O Audioslave em apresentação histórica em Cuba em 2005 | Crédito: Alejandro Ernesto/EPA/REX/Shutterstock
O Audioslave em apresentação histórica em Cuba em 2005 | Crédito: Alejandro Ernesto/EPA/REX/Shutterstock

Depois disso, Chris seguiu seu rumo com projetos solo, sendo que um deles o trouxe ao show que presenciei nos meus quinze anos, até então recém-completados, no Citybank Haal em Sampa (antigo Credicard). Um de seus projetos levou à gravação da música You Know My Name, tema de 007 – Cassino Royale, e a dois álbuns solos, Carry On e Scream, sendo esse último mais um tiro contra rótulos pré-estabelecidos, já que Chris quebrou com o protocolo do lado antiquado do rock e teve o disco produzido pelo rapper e produtor Timbaland. Posteriormente, as apresentações de shows solo se intercalaram com as reuniões que celebraram o retorno do Soundgarden. No meio disso, veio a música Live To Rise, tema do filme Os Vingadores, da Marvel, e um novo álbum intitulado como King Animal, que deu vida à porrada Been Away Too Long.

Foi um homem grandioso, lindo por fora e por dentro, até o fim | Crédito: Divulgação

Depois de todo esse panorama, vem a pergunta: mas afinal de contas, qual foi a importância que a carreira dele teve pra mim? E a resposta é simples: toda a importância do mundo. A voz de Chris me acompanhou durante a minha vida inteira, desde a infância, passando pela adolescência até os dias de hoje. Sou filha do grunge, um fruto perfeito da geração X e que se enquadra em quase todas as definições da geração Y. Cresci ouvindo essas músicas graças aos rádios da família, principalmente às escolhas musicais da minha mãe, que foi a professora perfeita nesse campo e me ensinou muitas das coisas que eu sei hoje em dia sobre essa forma de arte.

Era lindo demais | Crédito: Divulgação
Era lindo demais | Crédito: Divulgação

Eu me apaixonei pela voz dele desde sempre, já que não concebo outra alternativa pra mim. Não me lembro de uma primeira vez de ter ouvido o grunge, já que ele esteve tão intrinsecamente ligado à minha existência que, a meu ver, parece que sempre esteve comigo. Chris foi um dos consolos a quem recorri quando as coisas estavam apertadas na escola, como já escrevi aqui. Ele foi o colo que eu precisava para chorar com as minhas dificuldades emocionais, com os problemas que eu tinha pra me relacionar com as pessoas e ao lado depressivo contra o qual eu passei a minha vida inteira lutando. Meus momentos de insônia, não raro, eram confortados com I Am The Highway nos fones de ouvido. Não existe nada que não possa justificar a minha dor de fã: ela existe. Ela machuca. Ela me mostra o quão frágil podemos ser.

From ‘down on my knees today’ to ‘I am the lightning’

Chris no começo da carreira, em 1991 | Crédito: Divulgação
Chris no começo da carreira, em 1991 | Crédito: Divulgação

É triste e irônico que a morte de Chris seja amplamente divulgada e discutida, e sua figura linda e incansavelmente homenageada por músicos espetaculares ao redor do mundo, quando estamos refletindo, debatendo e tomando medidas contra uma das formas mais tristes de ser levado desse plano terreno que nos encontramos: o suicídio. Já desabafei muitas vezes e abri meu coração sobre como esse tipo de pensamento já me acometeu no auge de uma doença tão grave quanto a depressão. Essa semana, conversei com a minha família a respeito do assunto e retomei algumas memórias que hoje me parecem distantes, longe do meu estado de espírito atual. Minha irmã me relembrou dos tempos em que ela tinha alertado meus pais quanto à iminência dessa asa sombria e dolorosa pairando nas minhas costas e tendo o peso do mundo sobre mim. Não era a luminosidade de penas que têm o poder de levar você ao voo, mas o impulso de um corvo capaz de te levar à beira de um precipício e te impulsionar para uma queda livre, semelhante à dos anjos expulsos do paraíso de Deus.

Essa perda a gente sente na alma. Que falta você vai fazer Chris! | Crédito: Jeff Lipsky/Divulgação
Essa perda a gente sente na alma. Que falta você vai fazer Chris! | Crédito: Jeff Lipsky/Divulgação

Minha saúde é uma prioridade, e eu vou escrever em breve sobre como superei essa fase e como minha rotina mudou depois de tudo isso, bem como algumas visões que eu tinha sobre o mundo (aguardem a publicação de um livro). A depressão e a ansiedade não são uma experiência que, no final das contas, você queira agradecer por ter vivido pelo fato de ela ter te tornado uma pessoa mais sensata e madura, que foi o que aconteceu comigo. Sendo honesta, longe disso: eu preferiria nunca ter passado pelo o que eu passei e gostaria muito que esse amadurecimento tivesse acontecido de outra forma, sem uma doença incapacitante e que me levou dias preciosos, me colocando na cama e me tirando a vontade de comer, cozinhar, escrever, tomar banho. De existir.

Pior do que isso: transtornos mentais são, muitas vezes, plenamente silenciosos. Por fora, a pessoa trabalha, segue o rumo normalmente, canta (como foi o caso de Chris). Por dentro, ela sangra, grita, se debruça sobre o pingo de esperança possível pra sair de um limbo criado por uma mente traiçoeira. Só quem viveu e vive isso na pele sabe como cada ramificação fora de ordem do cérebro pode te derrubar e te tirar a vontade de ter o seu bem, que é a vida, sob qualquer ótica e qualquer plano. Você só quer dormir pra sempre, talvez acordar por curtos minutos pra experimentar uma sensação preguiçosa de um despertar breve e do prazer de poder voltar a dormir. Mas tristemente, você deseja que sua existência seja reduzida a isso, no máximo.

Quando a causa da morte de Chris chegou até mim, eu senti mais dor ainda. Dor por saber que, provavelmente, um dos meus ídolos enfrentou males semelhantes aos meus, o que me faz entender muito sobre o por quê de algumas de suas músicas descreverem tão perfeitamente meus estados de espírito, fossem eles alegres ou tristes. Em tempos de discussão de séries e jogos macabros, como foi o caso de 13 Reasons Why e a Baleia Azul, ver que uma pessoa tão cheia de luz própria nos deixou por causa de algo tão triste me deixe sem chão. Como diria a psicóloga australiana Dorothy Rowe: “Só as pessoas boas ficam deprimidas”. Não é fácil ter um coração puro em um mundo tão louco como o nosso.

Chris Cornell à frente do Soundgarden na explosão do grunge | Crédito: Autor Desconhecido/Divulgação
Chris Cornell à frente do Soundgarden na explosão do grunge | Crédito: Autor Desconhecido/Divulgação

Há uma série de desencontros de opiniões e suposições. Só você mesmo sabe a profundidade da sua dor, como só Chris sabia a dele. Como só eu e você sabemos as nossas. Sua esposa Vicky Cornell, que escreveu uma homenagem espetacular para se despedir do grande amor de sua vida, afirmou que acredita que a dose extra de medicamento que ele tomava para ansiedade possa ter interferido no seu ato. Eu, honestamente, não duvido. O primeiro dia tomando meu antidepressivo foi, de longe, o pior dia da minha vida. Nesses casos, é indispensável a presença de bons profissionais da saúde. É importante que você nunca esteja sozinho, como ela lamentou que ele estivesse no momento em que a tragédia ganhou forma.

A fisionomia de Chris, para mim, era a personificação de um desespero silencioso desde a divulgação dos vídeos da apresentação que o Audioslave fez em protesto ao presidente (TOLO) Donald Trump. Ali, eu ouvi uma voz falha, uma figura cansada, um olhar fundo e triste. Trechos de sua última apresentação com o Soundgarden em Detroit, que antecedeu tudo o que sofremos hoje, me confirmou que ele não estava bem. Nunca vamos saber o que o motivou a uma despedida tão impactante e inesperada. Eu só sei que ver um ídolo dizer adeus é como perder a presença física de um amigo querido, um parente próximo, alguém que você ama e considera muito. Não podemos ser hipócritas de achar que coisas assim, com pessoas que admiramos, não nos impacta diretamente. Porque impacta muito.

O mundo perde uma voz e um grande homem | Crédito: Divulgação
O mundo perde uma voz e um grande homem | Crédito: Divulgação

Dizer adeus a uma voz tão potente, uma figura humana sublime que sempre esteve na luta contra os seus demônios (internando-se em clínicas de habilitação para se livrar do vício de drogas e álcool e fundando a The Chris & Vicky Cornell Foundation, que tem o intuito de proteger crianças em situações de vulnerabilidade e, aparentemente, foi impulsionada por experiências pessoais do casal) dói muito. À parte de mais um elemento desse efeito Werther que tanto assombrou o mundo do grunge, fosse por vícios ou situações de suicídio, fica aqui um agradecimento sincero e os votos de que essa pessoa descanse bem. Não quero lembrar desses momentos tristes das últimas semanas e sei que, aos poucos, essa experiência dará a todos a sensação de paz e gratidão por tudo que foi narrado no segundo capítulo desse texto. Essa era do grunge e a música como um todo não seria nada sem ele.

Vou sentir falta da sua voz. Obrigada por tudo, pela música que você foi dos pés à cabeça. Eu amo você | Crédito: Divulgação
Vou sentir falta da sua voz. Obrigada por tudo, pela música que você foi dos pés à cabeça. Eu amo você | Crédito: Divulgação

Querido Chris: que você produza docemente onde quer que esteja e seja amplamente protegido (como vocês notaram, ateísmo não é comigo e essa é das grandes certezas que tenho na vida). Que todo o amor de fãs, da família, amigos próximos e músicos tão incríveis (vide homenagens memoráveis de membros do Stone SourAerosmith, Incubus, Linkin Park, The Pretty Reckless, Red Hot Chili Peppers, Live, Metallica, Tom Morello e tantos e tantos outros) chegue até você na forma de um sopro perfumado. Quero te agradecer por ter acolhido meu sofrimento com a sua voz, por ter falado comigo através de suas letras, por ajudar a montar uma parte considerável da minha personalidade, sendo o amor pela música uma peça fundamental dela e, por fim, por ter sido esse ser de luz aqui. Você ainda é.

Say hello to heaven, my black hole sun. We love you. ♥ 

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