Crítica Literária: “Vidas Provisórias” revive cenário da Ditadura Militar

Assim como a Segunda Guerra Mundial, a Ditadura Militar é um alvo forte de livros e roteiros, que procuram apresentar tanto os personagens que torturaram vítimas como as vítimas que sofreram com a atrocidade de um dos períodos mais obscuros da história do Brasil. O contexto de repressão e desaparecimentos e a melancolia frente à bandeira verde e amarela são alvos perfeitos para romances, com histórias paralelas que emocionam e revoltam.

Esse contexto foi novamente retomado por Edney Silvestre, jornalista renomado e muito conhecido por sua cobertura nos eventos trágicos do 11 de setembro, na publicação de seu livro mais recente. Vidas Provisórias sabe mesclar histórias paralelas sem cair em uma narrativa cansativa e confusa, o que mostra o principal mérito de um profissional que mergulha sem medo na literatura.

Cena do filme "Batismo de Sangue". Sim, a tortura existiu! | Crédito: Divulgação
Cena do filme “Batismo de Sangue”. Sim, a tortura existiu! | Crédito: Divulgação

Tudo começa com o cenário onde o personagem Paulo, um dos protagonistas, está inserido. Exilado de sua pátria, ele refaz a vida na Europa e envolve-se com uma mulher mais velha e sueca. De início, o autor reveza-se entre o português e o inglês, tomando o cuidado de não deixar muitos buracos na suposta ausência de uma compreensão bilíngue. Ainda assim, para o leitor que pouco sabe o idioma, alguns trechos podem tomar alguns minutos para serem compreendidos. Por outro lado, a descrição delicada e ao mesmo tempo pouco pudica de sexo dá uma amostra de uma linguagem que sabe transitar entre a escrita culta e a popular, algo presente em toda a obra.

Na outra extremidade, está a jovem e igualmente expatriada Bárbara, que fugiu do Brasil diante de uma tragédia pessoal, tendo o governo Collor como pano de fundo, e se instala nos Estados Unidos na esperança de reconstruir sua vida. A narração das situações adversas e desconfortáveis pelas quais passam imigrantes ilegais narra ao mesmo tempo que cutuca, chamando a atenção para um problema que não ficou esquecido no início dos anos 1990, mas que até hoje gera polêmica. Essa história, aliás, vem a calhar em um momento no qual o país, que ainda é considerado a maior potência econômica do mundo, se vê permeado por xenofobia, falsos discursos nacionalistas e políticas desumanas de Donald Trump contra a presença de estrangeiros.

Na obra de Edney Silvestre, o protagonista é exilado e reconstrói a vida na Suécia | Crédito: Jaume Escofet/Flickr/Creative Commons
Na obra de Edney Silvestre, o protagonista é exilado e reconstrói a vida na Suécia | Crédito: Jaume Escofet/Flickr/Creative Commons

De um lado, a história de Paulo é recheada de cenas explícitas de tortura, revelações tristes sobre traição em família e rumos confusos que o levam ao Chile e, posteriormente, à Suécia. O momento no qual ele desperta no país nórdico, amparado por um médico cubano, levanta reflexões sobre o sofrimento de um exilado e sobre a iminência do suicídio. Do outro lado, Bárbara vê o sonho de estudar e aprender inglês ficar cada vez mais distante com as poucas oportunidades na América, tornando-se empregada doméstica e trabalhando na casa de prostitutas e de um homem doente, todos eles igualmente brasileiros. O amor torna-se um objeto oculto e proibido, sem grandes abordagens. O ar de melancolia mescla-se com a frieza e a falta de reações da personagem, tornando-a tanto uma figura apática quanto desesperançosa.

Edney não se restringe somente às duras críticas de dois temas tão tristes referentes a expatriados, tanto do lado de quem foi retirado à força de sua terra natal pela Ditadura como de quem sai fugido para sobreviver e tentar uma nova chance em um lugar desconhecido (e que poucas oportunidades lhe oferece), mas expõe tramas surpreendentes, sem recorrer a exageros. Paulo sofre racismo da própria família por ser negro, mas se reergue e torna-se um estudante engajado com as causas sociais, sem representar um papel violento dentro das lutas e marchas nas ruas. Nesse meio tempo, ele é traído e levado como um criminoso para as torturas horrendas de choques elétricos e paus de arara do DOPS. Anos depois, na Suécia, reconstrói sua vida e forma uma família, mas o lado triste de sua história ainda alcança certos clímax com acontecimentos inesperados.

Em "Vidas Provisórias", a cidade de Nova York se torna um ambiente pouco acolhedor para uma das protagonistas | Crédito: Jörg Schubert/Flickr/Creative Commons
Em “Vidas Provisórias”, a cidade de Nova York se torna um ambiente pouco acolhedor para uma das protagonistas | Crédito: Jörg Schubert/Flickr/Creative Commons

Já Bárbara sofre na pele o preconceito e a indiferença dos americanos frente aos estrangeiros. Um amor a prende no país, mas as poucas chances, mesmo no Brasil, também são fatores fundamentais para prendê-la na América do Norte. A falta de expressões e o conformismo com sua realidade entristece e revolta, mas a leveza de seu drama também revelam boas surpresas, que culminam em um cruzamento de histórias no final do livro, conduzido de forma deliciosa e surpreendente. Um jeito lindo de concluir uma história, deixando margem para interpretações concretas.

O livro de Edney Silvestre oferece um bom contexto histórico e social de dois períodos distintos e importantes da história brasileira moderna e contemporânea. A narração pouco rebuscada e muito inteligente do autor tornam a leitura agradável por si só, sem recorrer a elementos drásticos na história para prender a atenção do leitor. É uma história que, mesmo recheada de dramas, é carregada de sutilezas.

VAI LÁ
Vidas Provisórias
Editora Intrínseca
Autor: Edney Silvestre
Preço: entre R$ 22 e R$ 35
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom)

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