TAG Literária: 5 livros infantis que marcaram a minha infância

Falar sobre literatura é uma coisa que sempre me fascina. Afinal de contas, os livros são uma parte importante na minha vida, são meus melhores amigos e, por muitos anos, foram minhas principais companhias quando eu sofria com a falta de relacionamentos dentro da escola onde eu estudava.

Diante desse cenário, eu me deparei com muitas obras que me trouxeram uma boa dose de autoestima, sonhos e exercícios lindos de criatividade. Muitos dos exemplares que mudaram minha visão de mundo na minha infância foram títulos solicitados por professores. E isso me ajudou a, futuramente, escolher meus gêneros favoritos e exercer uma leitura saudável, que se tornaria um ótimo hábito do meu dia-a-dia.

Crédito: Josh Applegate/StockSnap
Crédito: Josh Applegate/StockSnap

Na novíssima categoria do site, que fala sobre o universo da educação, tomo a liberdade de compartilhar com vocês os livros que marcaram a minha infância e que me ajudaram muito nos meus momentos livres e introspectivos. No final das contas, essas páginas escritas e cuidadosamente ilustradas podem significar muito mais para uma criança do que você possa imaginar.

1.Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado 

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

“Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo pra ser tão pretinha?”. Essa frase é um chavão da obra da escritora carioca – e eu amava escutar minha mãe narrando essa parte do livro. Na história, um coelho branco e atrapalhado realiza mil peripécias para conquistar o sonho de ter a pele e os pelos escuros que ele tanto admira na bela criança.

Quando eu era pequena, me via como um peixe fora d’água por não me enquadrar nos padrões que a maior parte das crianças da minha idade seguiam. Miscigenada, descendente de portugueses, espanhóis e índios, eu me diferenciava do protótipo de pele clara e cabelos lisos das minhas colegas de sala com a minha pele escura e meus cabelos muito pretos, longos e cacheados, frequentemente presos em uma trança bem grandona. Hoje em dia, eu vejo em mim mesma o quanto da minha aparência mudou frente ao que eu pensava que as pessoas acham bonito e o quanto a passagem do tempo também levou muito do que aquela menina representava – e eu não deixo de sentir um pouco por isso quando vejo minha imagem refletida no espelho.

Acontece que, nessa época, ainda que eu não fosse identificada ou me identificasse como negra, esse livro me deu uma nova perspectiva sobre o que realmente pode ser considerado bonito – e foi uma injeção de auto estima pra mim, que vi um valor extremo no apelido de Pocahontas que eu ganhei de minha família nessa época. Basicamente: eu entendi que havia, sim, muito valor no meu tipo de beleza. E hoje, olhando pra trás, imagino o quanto tantas outras crianças negras, indígenas e/ou nitidamente miscigenadas se sentem felizes e representadas pela menina do título e pelo coelho. Por mais que haja episódios duramente criticados no livro (quando se trata da romantização da miscigenação), é nítido o quanto ele grita contra os padrões de beleza e impulsiona as meninas a se sentirem lindas exatamente como elas são.

2. A Fada Que Tinha Ideias, de Fernanda Lopes de Almeida

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Eu amava/amo esse livro com todas as minhas forças. E adorava reler várias vezes alguns pontos específicos dele e constatar o quanto a Clara Luz, personagem central do livro, tinha uma criatividade fora do comum e representava as meninas diferentonas. Basicamente, era um alento para quem que, como eu, preferia assistir programas de arte na televisão (“E tesoura seeeeem poooonta”), queria aprender a cozinhar, passava horas do dia lendo e amava tudo que envolvesse educação artística e música – ao invés de passar horas conversando sobre nada e criando intrigas.

A história é super bacana e delicada, mostrando um universo mágico de fadas e feitiços. O problema começa quando Clara Luz passa a questionar a regra imposta no Reino das Fadas, onde só é permitido fazer a magia descrita pelo Livro das Fadas. Entediada, ela passa a desobedecer as ordens da rainha e a realizar seus próprios feitiços, como transformar bule de café em passarinho e colorir a chuva. No final das contas, isso gera problemas pra maluquinha e ela é obrigada a encarar de frente a fúria da rainha rabugenta para defender seu livre arbítrio.

Algumas partes dessa obra valem o destaque. O capítulo que eu mais gosto é quando Clara faz uma receita de bolinhos de luz que acaba dando errado, fazendo com que o dito cujo transborde e obrigue sua mãe a interferir. A relação dela com a mãe é, aliás, um show à parte, já que a coitada vive com falta de ar graças às maluquices que a filha apronta. “Ora, mãe, como é que você pode sentir tanta falta de ar? Olha aí a quantidade de ar que tem pra você respirar”. E não é que é verdade, Clara Luz?

3. O Fantástico Mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira

Crédito: Divulgação

Eu leio contos de fadas desde que me conheço por gente. Aliás, na minha infância, eu colecionava livros de fábulas antigas, muitos deles com versões mais fiéis aos contos obscuros de figuras como os Irmãos Grimm. Sendo assim, além de leitora fiel e pessoinha apaixonada pelos filmes de princesas da Disney, ter nas minhas mão um livro tão cômico e questionador quanto o do autor Pedro Bandeira foi uma coisa que tinha tudo pra me deixar com raiva. Mas ao contrário: me deixou fascinada e me fez morrer de amores pelo livro, que eu relia por horas a fio.

Na obra do premiado escritor, as personagens clássicas dos contos infantis, tais como Bela, Cinderela, Branca de Neve e afins, encontram-se quando comemoram Bodas de Prata, estão com fios grisalhos e grávidas, compartilhando as agruras de casamentos caóticos e de lidar de frente com as falhas que as narrativas dessas histórias apresentam. Uma das que mais me fizeram rir foi a do sapatinho de cristal, quando a Branca de Neve não se conforme de saber que o príncipe precisou testar o calçado em várias meninas do Reino quando podia simplesmente ter se lembrado da princesa “olhando para a sua cara”. Mais genial impossível.

Mas mais do que isso, o livro também encanta com o desespero de Chapeuzinho Vermelho por ser a única que não encontrou um príncipe e o quanto ela fica aliviada por não ter se casado quando vê o caos que é a vida das companheiras de fábulas (e dá pra ver umas cutucadas boas na forma como o casamento é encarado como obrigação nos dias atuais) e a união de todas para descobrir onde diabos foi parar Feiurinha, uma princesa criada para acreditar que sua beleza era, na verdade, uma feiura sem fim provocada pela falta de atributos clássicos das bruxas que a viram crescer. Uma fofura!

4. Um Rato na Biblioteca, de Carlos Augusto Segato

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Comprei esse livro com a minha mãe na primeira feirinha que eu fui na minha escola. Minha mãe, aliás, foi sempre uma das maiores incentivadoras que eu tive em relação ao ofício da leitura, e uma das grandes responsáveis por impulsionar a minha escrita e minha alfabetização precoce, já que eu insistia tanto para aprender a ler logo.

A história é, aliás, uma fofurice em forma de identificação. No começo, nos deparamos com uma bibliotecária frustrada por ter os exemplares que ela tanto amava e cuidava sendo atacado por ratos e tendo suas folhas roídas. Eu gostei muito de me ver naquela personagem porque, recém-alfabetizada, via nessa profissão um dos maiores sonhos da minha vida (olha como criança é uma coisa pura, minha gente).

Pra conseguir conter a destruição em massa de tantas obras, a bibliotecária recorre à ajuda de um gato, o Xaxá, para supervisionar a biblioteca e espantar os roedores. O problema é que, no meio desses ataques, um ratíneo fofíneo acaba sendo a exceção e mostra que realmente gosta de estar no lugar por se encantar com as gravuras dos livros. E aí o que era pra ser perseguição vira uma parceria e uma lição sobre amizade e cumplicidade. Um amorzinho.

5. A Formiguinha e a Neve, de João de Barro

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Aparentemente, a fábula da Formiguinha e a Neve é antiga, de autor ou autora desconhecido (a) e já fascinou muitas crianças por aí. Recontada por João de Barro, popularmente conhecido como Braguinha, o livro foi inicialmente publicado em 1995 e contava com dois fatos interessantes que me marcaram muito. O primeiro deles era a ilustração rica, detalhista e melancólica de Rogério Borges, que eu revia incontáveis vezes sem me cansar de admirar, e o segundo era o desfecho da história. Em suma: foi o primeiro livro que me fez chorar na minha vida e eu não podia deixar de fora da minha pequena lista.

Assim como o primeiro livro que ocupa esse post, a obra da Formiguinha também conta com um jargão que se torna uma figura de linguagem, conforme mais personagens surgem na história e encontram obstáculos para livrar a bichinha do que mais a agonizava: o pézinho preso em um floco de neve. “Sol, tu que és tão forte, derreta a neve e desprenda o meu pézinho?”, ao que o sol responde: “Mais forte que eu é o muro que me tampa”. E assim, cada um que cruza seu caminho joga para um outro ser, teoricamente mais forte, a responsabilidade de libertar a formiga do frio. Por fim, negada até pela Morte, ela encontra a redenção apenas nos braços de Deus, representado na ilustração como uma bela e gigantesca mulher que acolhe o pequeno animal em suas mãos e a leva para o paraíso, longe do cenário gélido. Entenderam o contexto? Snif!

Crédito: Kelly Sikkema/StockSnap
Crédito: Kelly Sikkema/StockSnap

Esses são só alguns dos exemplos de obras que eu amava e que até hoje guardo com muito carinho no meu coração. Mas a lista é muito extensa e, até hoje, eu descubro novos títulos que com certeza serão bem recebidos pelos meus futuros alunos e filhos.

E você? Qual livro marcou sua infância? Desafio minha baby sister Larissa Honorato, do Querida Asquini, e a Livia Guimarães, do Coração Nômade, pra contar pra vocês quais livrinhos elas tinham na cabeceira quando eram pequeninas.

Que a gente sempre se derrame em boas leituras por aí! ♥

Crédito: Lacie Slezak/StockSnap
Crédito: Lacie Slezak/StockSnap
Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s