Crônica: Um nado na tempestade

Ela afundou os pés descalços na areia quando o entardecer iniciou os primeiros passos de sua despedida. Não era um dia típico de sol, e o litoral perdeu aquele encanto alaranjado do crepúsculo, quando o sol se põe no horizonte e lança suas pinceladas no céu.

O dia era cinza. O vento que soprava na paisagem lançava-lhe gotas melódicas e finas de uma chuva preguiçosa. Seus olhos perdiam-se na direção do horizonte, focados em uma paisagem qualquer, desfocada pela escuridão precoce e pela neblina.

Crédito: Tom Eversley/ISO Republic
Crédito: Tom Eversley/ISO Republic

Não havia crianças brincando de bola no canto raso da praia. Não havia castelos de areia, frescobol, cangas estendidas, protetores solares escorrendo em costas suadas e tocadas por mãos amigas. Aquele silêncio pairava no ar, pesado como só o frio de um litoral abandonado pode proporcionar.

No canto oculto da praia, ela espia. Senta-se discretamente em um ponto que a torna invisível e abre o exemplar de um livro surrado que carregava na bolsa. Ela adorava a praia fria e solitária. Gostava da paz proporcionada pela natureza em sua essência sublime, vazia e ausente. Só se ouvia o ruído do mar, o farfalhar dos coqueiros e o sussurro de algum pequeno animal desavisado cortando caminho pelo lugar que o pertence.

Crédito: Ben White/StockSnap
Crédito: Ben White/StockSnap

As palavras descritas no livro ganham pequenos cenários em sua mente tranquila. Personagens ganham formas na paisagem em preto e branco ao qual se insere, e os elementos vistos em cada uma de suas frases contornam a sua própria realidade atualmente. Ela usa a bolsa como travesseiro e se deita. Usa o livro como escudo para proteger seus olhos do céu que, por mais escuros que estejam se tornando, ainda lançam reflexos luminosos de uma tarde que custa a abandonar a Terra. A areia pinica sua pele, os pés se afundam ainda mais enquanto ela os movimenta. Ela não se importa.

“Esfolia”. Essa é a sensação que lhe atravessa quando a areia úmida pelas gotas da garoa acariciam sua pele. O livro fica manchado com a água, as frases formadas começam a borrar. As páginas, já tão desgasatadas pelo tempo, começam a perder sua forma, a se desintegrar. Dentro daquele exemplar, dois amantes despediam-se com um beijo cálido em uma cidade longíqua, tendo como pano de fundo os arranha-céus e as luzes da cidade que ela tão pouco conhecia. Os cenários urbanos não lhe proporcionavam a paz que desejava, e ela sentia-se grata por não atravessar as ruas barulhentas que tanto lhe assustavam.

Crédito: Yoann Boyer/StockSnap
Crédito: Yoann Boyer/StockSnap

Logo, a garoa vira chuva. E os amantes proibidos são levados pelo banho. Ela sorri, abandona o livro na areia e sente todos os respingos gélidos daquele fim de tarde de outono lavarem a alma tempestiva. Sozinha, sem que ninguém possa observá-la, umedece os dedos numa mistura harmônica da chuva no céu e do vão triangular entre suas coxas. Seus sons são abafados pelos trovões. Sua mão percorre o contorno dos seios, naquele carícia particular que lhe era tão conhecida. Pesados, esparramados, lindos e duros.

Ela sente seu estupor se aproximar e se desmancha. Relaxa por completo e, sem perceber, adormece na chuva. Seu sono é cortado por aquela sensação de sobressalto, como se tivesse despencado da montanha. Seus olhos se focam na tempestade que agora atravessa a praia. De súbito, nota que não está mais sozinha. Um jovem pescador se esconde por entre os troncos das árvores para observar o corpo úmido, meio desnudo e grudado na areia. Os cabelos cobrem parte do rosto sem, contudo, ocultar a beleza de seus olhos distantes, solitários e independentes. Ela o intimida, ele pensa. Ela não se abala.

Crédito: Tim Trad/StockSnap
Crédito: Tim Trad/StockSnap

Levanta-se com lentidão em direção às águas furiosas que a convidam para um banho sem volta. Atravessa a areia em direção ao alto mar. De longe, consegue avistar uma embarcação solitária e nada em direção a ela. Mergulha no escuro, sendo a água salgada um completo breu para seus olhos já há muito encharcados. Deixa que o seu encontro com a mãe das águas leve o medo. Mistura-se com as bolhas do mar como uma sereia que se dissolve em contos antigos e tristes.

Crédito: Vinh Pham/StockSnap
Crédito: Vinh Pham/StockSnap

Ela afunda. Some no meio da escuridão. Retorna à superfície sem notar quando as ondas lhe carregam de volta para a areia. Acorda quando já está escuro, quando está seco. Levanta e acolhe a mão do jovem pescador, cujos olhos felinos lhe conduzem de volta para a noite da cidade litorânea. A brisa do mar corta seus comércios vazios, mas ela pode notar pequenos copos batendo em brindes. Afinal, nada lhe aconteceu. Teria sido sonho ou real? Estava viva ou morta?

Ao atravessar a rua, aperta a mão do jovem e anuncia com a voz preguiçosa que sua casa fica na próxima esquina. Despede-se com um agradecimento e com um beijo que o pega de surpresa. Tolo, ela pensa. Atravessa a porta de casa com os olhos impressionados do homem felino que o observa do outro lado. Sorri antes de fechar a porta, lançando-lhe um sorriso convidativo para outro encontro silencioso no dia seguinte. Ela sabe, assim como ele, que não serão mais os dedos e a água a atravessar-lhe o ventre em um final de tarde qualquer. Sabe, assim como os amantes melancólicos do livro destruído na praia, o quanto aquele desejo irrefutável lhes atravessa.

Crédito: Luca Baggio/StockSnap
Crédito: Luca Baggio/StockSnap

O cheiro de comida que vem da cozinha lhe traz o aconhego que ela deseja sentir. Abraça a mãe, conversa, come e retoma seu diálogo interno quando vai para cama à noite, dando um abraço no pai e no irmão, que assistem a um noticiário qualquer. Logo, a tempestade volta a cair. A luz se apaga. Ela pensa no pescador.

Agora ela é água. E pode escorrer por entre os dedos para partir quando desejar.

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