“La La Land”: Mia e Sebastian partiram o meu coração

Todo mundo ficou impressionado com a loucura que foi o resultado de melhor filme do ano no Oscar de 2017. A bagunça quanto aos nomes dos vencedores gerou um show de desconforto, memes e vergonha alheia. Mas mais do que isso: tanto o suposto favorito à estatueta, La La Land, como o surpreendente e desafiador roteiro do vencedor, Moonlight, ficaram ainda mais presentes nas conversas sobre cinema e alçaram a curiosidade dos espectadores. O primeiro deles eu pude conferir de perto. E vou confessar que não encontrei nada de tão extraordinário que merecesse a quantidade imensa de indicações de prêmios e suas respectivas conquistas.

Não é que La La Land seja um filme ruim – muito pelo contrário. É uma história bacana, com bons números musicais e um certo encantamento. No entanto, não é um musical extraordinário que mereça toda essa supremacia. Ele é apenas legal – e ponto. Não tem a grandiosidade de um O Fantasma da Ópera, cuja superprodução passou longe de levar as estatuetas, ou a melancolia cômica de Moulin Rouge. Não é algo que consiga cobrir a genialidade de títulos como My Fair Lady e Chicago, cujas montagens espetaculares ao redor do globo ainda chamam a atenção de uma plateia sedenta por apresentações de ponta. Ao contrário disso, La La Land carece de figurinos e maquiagens extraordinárias, de números musicais de tirar o fôlego, de dramaticidade e, principalmente, de uma grande capacidade vocal de seus protagonistas. Em suma: é mais barulho do que beleza em si. No final das contas, é só um romance de Sessão da Tarde bem feitinho.

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O número musical principal de “La La Land” tem muito sapateado – e fofura! | Crédito: Divulgação

Passada a opinião polêmica, gostaria de dizer que houve, sim, certos momentos de reflexão do filme que merecessem um destaque em um texto bem elaborado aqui nesse blog, tentando ao máximo (e falhando) não dar muitos spoilers. E o que mais me espantou é o quanto os protagonistas Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) têm em comum com casais típicos da vida real, cheios de defeitos e incompreensões. Pra começar, os dois são sonhadores em meio a uma indústria contraditória, capaz de alimentar e destruir desejos em uma única tacada, que é a indústria da arte e do entretenimento. Ela é uma aspirante a atriz, colecionando “nãos” em testes sequenciais, enquanto ele é um músico passional que deseja montar sua própria casa noturna voltada para o jazz. Em um momento conturbado, quando Sebastian perde o emprego de pianista em um restaurante local, os dois se cruzam e iniciam uma história marcada por um primeiro encontro conturbado e recheada de encontros e desencontros de partir o coração.

Toda a saga de Mia para se tornar atriz me lembrou de meus sonhos de adolescente, quando eu almejava ocupar esse mesmo cargo e me frustrava com testes negados ou que simplesmente não davam certo. Frente a isso, recorri ao refúgio mais artístico e libertador que os palcos do teatro me deram, onde todo papel é mais desafiador e sem a carga de exigências quanto à aparência, que chegam a beirar o ridículo. Mas o que mais me entristeceu foi o momento no qual ela elabora o próprio monólogo, se esforça, trabalha incansavelmente pela sua estreia para, no final, aparentemente nada sair do jeito que ela planejou e merece. “Estou cansada de passar vergonha”, ela diz. E independente desse ser um momento chave para uma mudança total no rumo da história, essa decepção dela me tocou fundo. De verdade.

Ryan Gosling e Emma Stone estão bons nos papeis de Sebastian e Mia. Mas faltou gogó! | Crédito: Divulgação
Ryan Gosling e Emma Stone estão bons nos papeis de Sebastian e Mia. Mas faltou gogó! | Crédito: Divulgação

Mas não é só isso que me deixou triste na trama envolvendo o casal principal. Pra começar, o relacionamento que deveria ser pautado na parceria, na compreensão e no respeito, que começa com toda aquela magia de jazz e filmes clássicos, degringola rapidamente quando Sebastian arruma um trabalho como músico de uma banda mainstream (pausa dramática pra assimilar a presença de John Legend aqui), sem acreditar muito no trabalho e sem gostar da sonoridade proposta pelo grupo. Afinal de contas, o rapaz é muito rabugento quando se trata de manter as tradições do jazz. Mas enfim, quem nunca foi trabalhar com algo que exatamente não gosta pra poder se manter, juntar uma grana e realizar o seu sonho mais pra frente?

O problema é que Sebastian mostra como a gente acaba postergando os próprios sonhos em função de uma estabilidade financeira e um papel social que nos é exigido. E aqui eu me lembrei do quanto na nossa vida a gente abdica dos nossos sonhos para nos encaixarmos nesse papel social, no quanto a gente de repente se vê com medo de arriscar e sair do nosso lugar comum e da nossa zona de conforto. A gente acaba por se tornar o que a gente sempre criticou com medo de tomar um tombo, de não se realizar e de se tornar um fracasso na vida. E é aí que a nossa magia como seres humanos começa a perder a nossa luminosidade, que as nossas vontades de adolescentes começam a se transformar e dar lugar a uma maturidade fria e sem muita graça. Sebastian traduz um pouco do que é esquecer de um sonho pela estabilidade que o meio termo proporciona.

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O romance de Sebastian e Mia é encantador – até começar a degringolar | Crédito: Divulgação

Até aí eu já estava começando a me chatear. E aí veio aquela cena da Mia no monólogo (que eu descrevi ali em cima), e eu desmoronei por dentro. Mas o que realmente me machucou foi ver o quanto de realismo tem na relação dos dois. No quanto tem de verdade na história de faltar com companheirismo em algum momento do relacionamento. No quanto alguém que você ama de repente pode falhar, porque seres humanos falham. E que nós também falhamos. E o problema disso tudo é que nós não respeitamos essas falhas, dificilmente perdoamos por completo e nos permitimos seguir em frente. Acabamos por resgatar cicatrizes antigas para termos argumentos pra falar contra aquela pessoa que tanto nos encantou no passado. Procuramos justificativas e explicações para os nossos comportamentos tóxicos. Deixamos que os erros sobressaiam aos momentos de cumplicidade, amor, união e tranquilidade.

Faltou a Mia e Sebastian a compreensão de que tudo isso é passageiro. Faltou a eles o entendimento de que é possível manter uma relação feliz em meio a carreiras artísticas sólidas e que exijam tanto comprometimento. Faltou a eles a capacidade de seguir em frente, reconstruir cenas, assumir responsabilidades mútuas – e não jogar no colo um do outro a culpa pela falta a uma peça de teatro ou do entendimento de que alguns sacrifícios precisam ser feitos para que outras coisas boas possam ganhar forma. Faltou muitas coisas que faltam em relações potencialmente lindas e duradouras. E foi isso que tanto partiu meu coração.

VAI LÁ
La La Land – Cantando Estações
Direção e Roteiro: Damien Chazelle
Produção: Fred Berger, Jordan Horowitz, Gary Gilbert, Marc Platt, John Legend e Jasmine McGlade.
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J. K. Simmons, Rosemarie DeWitt, Finn Wittrock, Callie Hernandez, Jessica Rothe e outros.
Trilha Sonora: Justin Hurwitz
Cenografia: David Wasco
Coreografia: Mandy Moore
Distribuição: Paris Filmes
Classificação: ♥♥♥ (Bom).

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