Dia da Mulher: As mulheres extraordinárias que me inspiram

Falar sobre o Dia Internacional da Mulher é, no mínimo, se deparar com uma coisa contraditória e carregada de significados deturpados. É encarar um dia onde tantas mulheres que deram seu sangue por lutas e batalhas exaustivas por direitos e igualdade de gêneros são reduzidas a meros coadjuvantes e objetos impulsionadores de nossa sociedade de consumo, num mundo de flores, chocolates e descontos em objetos diversos.

“Minha nossa, mas até nisso vocês querem problematizar?”, diriam alguns. Ora essa, mas é claro! Tudo que envolve essa luta diária que é pertencer ao sexo feminino, independente de ter nascido com uma vagina ou não, é permeado por máscaras, falsidades e discursos de “parabéns” que ocultam a problemática de viver em um mundo que nos condena por nossas roupas, nossos comportamentos, atitudes. Que nos tiram os direitos de decidir sobre o nosso corpo, nosso ventre e nosso ofício dentro de casa e das empresas. Que tentam nos censurar quanto aos nossos direitos no trabalho, na vida social e cultural, enquanto seres pensantes.

O caminho é árduo e muitas coisas no meio dele nos fazem desanimar. Por mais que tenhamos conquistado mais espaço, ainda há muito pelo que lutar. Do direito a um parto humanizado, igualdade de salários e de cargos de chefia, liberdade de ir e vir, batalha contra a normalização do assédio, da cultura do estupro e dos direitos extremamente corrompidos de nossas irmãs negras, que sofrem com a dura realidade do racismo, da apropriação e da deslegitimização de seus discursos, e das mulheres do Oriente Médio e de países asiáticos que estão entre os piores do mundo para ser menina (como a Índia, onde a beleza de um sári colorido e cheio de vida às vezes camufla um olho roxo).

Cleo Pires como Ana Terra | Crédito: Divulgação
A personagem Ana Terra de Érico Veríssimo, na obra “O Tempo E O Vento” (interpretada recentemente por Cléo Pires), sofre com o machismo do pai e dos irmãos, tem um filho fora do casamento com um homem que acaba assassinado pela família, é estuprada e se reergue saindo do seu vilarejo e refazendo sua vida em outro lugar | Crédito: Divulgação

Ainda assim, por mais dores que ainda sintamos, há flores, delicadas e selvagens, no meio do caminho. Essas mesmas flores falam por nós, seja pelo seu perfume, pela beleza, pela força ou pela insistência de crescer em meio a folhagens verdes que tentam ocultar aquilo que elas nasceram pra ser. Consigo ver essas flores representadas em cada figura feminina que me inspirou a ser o que eu sou hoje, que me inspiram com atitudes frequentes e a capacidade absoluta de se reerguer quantas vezes forem necessárias.

Essas figuras estão presentes no sangue do meu sangue, com a onipotência de uma força descomunal que superou um assédio sexual e até hoje luta contra os demônios que decorrem desse passado corrompido. Ela está presente em mim, que lutei contra uma doença grave e com a possibilidade de tirar minha própria vida por causa da falta que um hormônio fez dentro do meu cérebro. Ela está presente na figura da minha mãe, com sua vaidade, inteligência, boca larga e teimosia que me influenciaram a lutar pelo meu lugar, a estar um ano à frente do meu tempo, a ler com quatro anos de idade e a sonhar com todos os caminhos grandiosos do mundo, tendo em mente que nenhum deles é impossível. Está na figura da minha irmã, que desde cedo mostrou uma maturidade e calmaria fora do comum, capaz de cuidar de mim e de me oferecer palavras de conforto e cuidados em momentos difíceis, lembrando a mim a graça de uma sapatilha de balé e de uma música bem executada. Tá na força das minhas avós, cada qual com sua trajetória árdua de batalhadora nordestina, desbravando os ares cosmopolitas de São Paulo com seus sotaques, perdendo amores e irmãos, uma tirando um filho da sarjeta das drogas e a outra lutando para que nenhum de seus oito frutos se perdesse no caminho.

Katheryn Winnick como a Lagherta, de "Vikings" | Crédito: Divulgação
A personagem Lagherta do seriado “Vikings” ganha a admiração de qualquer mulher por onde passa com sua garra, força e capacidade de conduzir batalhas. A atriz que dá vida a ela, a canadense Katheryn Winnick, também tem uma carreira paralela como professora de artes marciais | Crédito: Divulgação

Essa mesma figura sai dos contornos do meu sangue pra entrar na figura de mulheres que surgiram de repente. Está na minha sogra, uma camaleoa capaz de se reinventar, sair de um relacionamento abusivo que perdurou por anos, nunca perdendo as raízes fincadas em algum lugar perdido de Minas e lutando pra manter sozinha e em pé uma casa sob o seu comando manual e financeiro, esparramando por ela a fumaça de alguma comida bem feita. Está na professora que minha irmã acolheu como segunda mãe, que batalhou para educar quatro filhos sem a presença forte de um homem, que estudou arte e que tem um amor impressionante por gatos. Está nas minhas tias, sendo cada uma delas única em seu jeito de ser: passo pela tatuada de gênio forte e fome de viver, naquela intelectual que passou por cima das dores de um transtorno pra assumir sua independência, naquela que percorreu estradas musicais, na que se descobriu de verdade só depois de adulta, na que criou dois filhos extraordinariamente inteligentes e que dribla suas tristezas na forma da fé. Está na minha parentada extraordinária e perdida por aí, com histórico de lutas e batalhas contra doenças graves, nas mudanças bruscas, na tentativa e no erro. Todas imperfeitas, mas cada uma competente e única na arte de carregar sua própria história e de reescrevê-la quantas vezes forem necessárias.

Também está na figura de cada uma das amigas que carrego comigo. Cada uma única em seu jeito de ser, da sonhadora que superou uma doença e que sonha em atravessar mundões, das autênticas que trocaram suas casas por uma praia brasileira ou um vilarejo alemão, mesmo que temporário, das que se assumiram e lutaram contra seus transtornos, estando em buscas extraordinárias pelo próprio autoconhecimento e percorrendo cada um desses caminhos com o prazer que a contrariedade e intensidade que uma ariana pode ter. Está nas meninas zens, praticantes de ioga, meditação e estudiosas da espiritualidade, das autênticas atrizes às meninas únicas que nunca perdem uma festa, das habilidosas com as mãos às influenciadoras verbais e das figuras que encontro até hoje pelo meu caminho, entre a terapeuta que me acolhe até as minhas leitoras.

Michelle Obama, uma inspiração global | Crédito: StoryPick/Divulgação
Quem era o presidente era o marido dela, Barack. Mas em seu mandato, quem roubou a cena foi a primeira-dama Michelle Obama. Advogada, com diploma de Princeton e Harvard, deu voz à luta pelo direito das mulheres e pela educação das meninas. | Crédito: StoryPick/Divulgação

Meu universo esteve sempre cercado por essa força. Não consigo conceber um mundo onde eu não esteja representada pelas frases bem elaboradas de escritoras do calibre de J. K. Rowling, Lucinda Riley, Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Jane Austen e Lygia Fragundes Telles. Está na moda e na beleza estudada por Vic Ceridono, Julia Petit, Camila Coelho, Camila Coutinho, Juliana Romano e Marina Smith. Na culinária e na bagagem viajante de Danielle Noce e Paola Carosella. Nos temperos de Nigella Lawson, Isadora Becker e Palmirinha No jornalismo de Marília Gabriela, Sonia Bridi e Renata Vasconcellos. Na interpretação de Emma Watson, Viola Davis, Meryl Streep, Natalie Portman, Fernanda Montenegro, Marieta Severo e Glória Pires. Na voz de Janis Joplin, Marisa Monte, Joss Stone, Amy Lee, Elis Regina, Alessandra Maestrini, Beyoncé, Florence Welch, Loreena McKennitt, Madonna, Lady Gaga, Sandy e Nanna Bryndís (só pra citar as últimas tocadas no meu Spotify).

Isso sem falar nas grandes personagens que marcaram minha memória. Estão nelas a Ana Terra e a Bibiana de Érico Veríssimo, a Capitu de Machado de Assis, a Hermione de J. K. Rowling, a Daenerys Targaryen, de George R.R. Martin, a Lagherta de Michael Hirst e a uma infinidade de mulheres fortes e bocudas, que também inclui princesas Disney como Bela, Mulan e Pocahontas. As históricas Joana D’Arc, Ana Bolena, Anita Garibaldi, Coco Chanel e Zuzu Angel.

A todas vocês, nossa luta continua. Com fé, vamos conseguir avançar.

#DiaDasMulheres #NãoMeDêFlores #MeDêDireitos #MeRespeite

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