Crítica de Cinema: “Cinquenta Tons Mais Escuros” acerta no elenco, mas peca no fetichismo

Minha gente, há quanto tempo eu não dava a minha cara e as minhas palavras nesse meu blog tão querido! Nesse começo de ano, trabalhando como social media, tive uma carga de trabalho tão alta e tantas coisas aconteceram por esses tempos que os meus posts acabaram ficando adiados até que tudo se estabelecesse e a calmaria voltasse a dar seus sinais de vida. Passado o caos do Carnaval, horas extras e muita terapia pra aguentar o tranco, eis que minha rotina do site pode voltar ao normal. Finalmente! E nada como um post com crítica de cinema pra poder retomar a rotina.

No mês fofo dos namorados, a tão aguardada sequência de Cinquenta Tons de Cinza ganhou as telas dos cinemas e reacendeu o debate sobre qualidade literária, best sellers supervalorizados e afins. Ó, céus, esse povo não pára nunca! A realidade é que o filme retoma a narrativa cansativa da escritora E. L. James com um pouco de drama, apelos psicológicos e tomadas eróticas pouco desenvolvidas.

E não é que rola mesmo uns paranauês em “Cinquenta Tons Mais Escuros”? | Crédito: Divulgação

Em Cinquenta Tons Mais Escuros, os protagonistas Anastasia Steele e Christian Grey (interpretados corretamente e até com mais carisma do que a descrição permite, na minha opinião, pelos atores Dakota Johnson e Jamie Dornan) voltam a se falar depois de um episódio dramático de palmadas – um final que até hoje eu acho bastante confuso – do primeiro filme. O dominador Grey percebe a falta que a mocinha lhe faz no apartamento gigante em Seattle e volta atrás na decisão de nunca manter um relacionamento com as mulheres que ele toma como suas submissas. Dessa vez, sem contratos ou regras, os dois retomam o relacionamento e, em pouco tempo, o passado de Christian vem à tona, mostrando que seu comportamento controlador e agressivo possui raízes em sua infância conturbada.

A história toda, mesmo aquela descrita com certa riqueza de detalhes pela escritora britânica em seus livros, carece de conflitos, altos e baixos e até de explicações consistentes sobre o drama que assombra a mente de Grey. Por trás dos ternos bem cortados, das gravatas sóbrias e dos cifrões da conta bancária, o personagem central mostra que recorreu à prática do BDSM como forma de redenção para controlar seus impulsos agressivos e direcionar sua raiva e frustração em castigos físicos, sexo e relações que não ultrapassam o quarto vermelho, recheado de apetrechos sexuais. A autora nunca negou que recorreu a traumas psicológicos de Christian para justificar seu prazer sádico – e aqui, a figura materna dá suas caras, juntamente com um subentendido e obscuro complexo de Édipo. Freud explica.

Brincadeiras sexuais como pompoarismo ganham a vez em “Cinquenta Tons Mais Escuros”| Crédito: Divulgação

A grande falha da escritora é notavelmente a sua falta de pesquisa. Se a ideia era abordar um trauma, faltou MUITA riqueza de detalhes e histórias bem abordadas. A falta de uma explicação extraordinária para tantos conflitos e de suspense sobre os mesmos faz com que a história fique muito rasa, tanto no filme quanto no livro. No final das contas, nem mesmo isso é capaz de justificar a obsessão de Christian por controle – e tudo o que a gente pensa é: “Meu Deus, moço, é por isso que você fala que é controlador? Não está te faltando um pouco de vergonha na cara pra se tratar não?”.

Aqui, Ana perde um pouco da ingenuidade pra mostrar uma postura mais firme e cobrar do atual companheiro atitudes sensatas. Mostra que quer trabalhar na sua área, ter controle sobre suas decisões e que não gosta de ser vigiada. Por outro lado, Christian não esconde nem um pouco a capa de “homem chato da porra” e quer ter domínio sobre todos os aspectos da vida da moça, desde seu emprego até as roupas que veste. O moço é bonito e tem bom gosto, mas quem é que aguenta tanto presente desnecessário e exagerado fora de hora?

Na nova etapa da relação, o casal de “Cinquenta Tons Mais Escuros” briga com a mesma facilidade que transa. Quem nunca? | Crédito: Divulgação

Se no primeiro filme a direção de Sam Taylor-Johnson acertou em jogo de sombras, nudez estratégica e sugestiva, elegância e fetichismo, o mesmo não se pode dizer dos cortes do diretor James Foley. Ainda que cumpra o papel para o qual foi designado com competência, sem ir além, faltou-lhe a abordagem erótica e sensual proposta pelo título. Em diversos momentos, a condução das cenas de sexo mais pareciam a sequência cômica de uma típica comédia romântica do que a adaptação de um romance escancaradamente erótico. O roteiro de Niall Leonard teve ainda mais falhas: a história ficou corrida e muito pouco explicada, deixando buracos sobre o passado de Christian com a perturbada Leila Williams (Bella Heathcote), sua antiga submissa, e de seu passado com Elena Lincoln (Kim Basinger, que conseguiu a proeza de deixar a personagem ainda mais nojenta e abusada do que na obra original). O personagem Jack Hyde (o competente Eric Johnson), por outro lado, foi um verdadeiro desperdício de criatividade: eu esperava tudo dele, menos que ele fosse se tornar um mero coadjuvante besta na história para que a figura de herói de Christian pudesse vir à tona. Céus!

Outra coisa que corta o coração nessa história é o desperdício de talento de atores como Marcia Gay Harden (que vive a chiquérrima mãe de Christian, Grace Grey), Luke Grimes (o irmão legal Elliot) e até de Rita Ora, cuja presença firme poderia ser mais bem aproveitada no longa metragem. No final das contas, mesmo tendo mais autonomia e maturidade, as escolhas de Ana são de deixar o espectador decepcionado. Seu fusca era mais divertido e seu apartamento era muito mais charmoso do que aquele troço gigantesco que Christian chama de lar. E minha gente: precisava tudo acontecer tão rápido desse jeito com esses dois? Calma lá!

Em “Cinquenta Tons Mais Escuros”, Dakota Johnson e Jamie Dornan estão incrivelmente lindos. E o figurino impecável é o ponto alto do filme | Crédito: Divulgação

Apesar dos pesares, o que mais incomoda em Cinquenta Tons Mais Escuros é realmente sua história rasa – e isso não tem nada a ver com a equipe completa do filme, mas unicamente dos méritos de E. L. James como escritora que, convenhamos, carece um cadinho de criatividade. É um filme que cumpre o que promete, sem ir além.

Se eu posso destacar coisas que realmente fazem a diferença por aqui é a beleza dos cenários, a competência dos atores, a boa trilha sonora e o figurino. O figurino é, aliás, o que mais vale a pena por aqui. Esse, sim, foi totalmente lindo e impecável!

VAI LÁ
Cinquenta Tons Mais Escuros
Direção: James Foley
Roteiro: Niall Leonard
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Bella Heathcote, Kim Basinger, Eric Johnson, Rita Ora, Marcia Gay Harden, Eloise Mumford, Rita Ora, Hugh Dancy, Tyler Hoechlin, Luke Grimes, Victor Rasuk e outros.
Produção e Distribuição: Universal Pictures
Classificação Final: ♥♥♥ (Bom).

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