Crítica de Cinema: “O Filho Eterno” emociona na medida certa

Marcos Veras é um ator conhecido no gênero de comédia no Brasil, sobretudo com as esquetes do gigantesco canal Porta dos Fundos, um dos maiores e de maior repercussão do país. Pensar em seu nome é, muitas vezes, se lembrar dos roteiros cômicos e encenados com colegas como Fábio Porchat e Gregório Duvivier. Não raro, é também se lembrar de suas aparições em programas como Encontro Com Fátima Bernardes, uma das oportunidades que alavancaram ainda mais a sua carreira e reconhecimento diante do grande público. O que pouca gente sabia até então é que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, atores de comédia como ele também possuem um talento forte e promissor diante em papeis dramáticos e de grande complexidade. E é exatamente esse o resultado visto no filme O Filho Eterno, em cartaz nos cinemas de todo país.

Crédito: Divulgação
Em”O Filho Eterno”, os personagens de Marcos Veras e Débora Falabella descobrem que são pais de um menino com Síndrome de Down | Crédito: Divulgação

No longa metragem dirigido por Paulo Machline, com roteiro adaptado por Leonardo Levis direto da obra original e homônima do autor Cristóvão Tezza (premiado com um Jabuti pelo livro), Veras encara de peito aberto o desafio de viver o escritor e professor Roberto. Casado com a jornalista Cláudia (vivida com intensidade pela ótima atriz Débora Falabella), ele se vê às voltas de uma mudança brusca em sua vida com a chegada de um filho especial. Suas falas, preconceitos e expectativas absurdas são escancaradas de tal forma que o poder do personagem é o de cutucar diretamente o espectador de todas as formas possíveis – inclusive o de despertar no público o susto que é um ser humano admitir suas ideias errôneas, carregadas de dogmas negativos, e falhas, como a de cuidar de uma pessoa com Síndrome de Down e de passar por cima das dificuldades para se assumir de vez como pai e criar laços afetivos com o garoto.

A emoção do filme está justamente na tratativa do pai para com o seu filho. Sua esposa Cláudia e seu próprio pai, avô coruja do menino, tentam de todas as formas mostrar para ele que o jovem tem qualidades imensas e que pode se desenvolver plenamente como qualquer garoto da sua idade. Roberto, por sua vez, chega a chocar com a sua falta de tato e preconceito nítidos, chegando ao limite para procurar uma educação e tratamento adequados para o pequeno. É nas suas reações, retribuídas com imenso carinho pelo filho Fabrício (o fofíssimo Pedro Vinícius), que moram o principal mérito do apelo emocional da história. A reação de Fabrício é, aliás, o que desmonta o espectador de todas as formas possíveis. Mesmo diante de tanta rejeição e adversidade, que resultam em uma crise forte no casamento dos dois, a criança continua plena em sua pureza e na capacidade de enxergar beleza nas pequenas (miúdas) coisas da vida.

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

O Filho Eterno não é um filme no qual a obviedade prevaleça. Ele é um filme que fere justamente por causa da sua proximidade imensa com a realidade e com os conceitos errôneos e sujos repassados por nós mesmos no dia-a-dia. O fazer chorar aqui é enxergar-se como um ser humano que se vê emotivo diante de tais situações, principalmente com grandes desafios e com uma identificação brusca e difícil de assumir.

A história reflete um preconceito muito comum e empurrado para debaixo do tapete, sobretudo quando se trata da rejeição paternal. Qualquer semelhança com a realidade, sobretudo com um contraponto tão enorme diante de uma mãe tão cheia de amor incondicional, não é mera coincidência. Afinal de contas: ainda falta muita compreensão da sociedade como um todo para tratar bem e respeitar pessoas especiais e ver o devido potencial que elas merecem.

VAI LÁ
O Filho Eterno
Direção: Pedro Machline
Roteiro: Leonardo Levis e Murilo Hauser
Elenco: Marcos Veras, Débora Falabella, Uyara Torrente, Augusto Madeira e Pedro Vinícius.
Distribuição: Globo Filmes
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

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