Crônica: Auto suficiência existe mesmo?

Reflexões sobre bastar-se consigo mesma (o) é o que não faltam no mundo. Inclusive dessa escritora humilde, que está sempre fazendo imersões loucas e questionamentos a respeito da vida (até já escrevi um texto sobre o assunto por aqui). Mas e quando a gente escolhe o termo pesadão “auto suficiência” pra descrever certas situações. O que acontece?

Já tive muitos debates com alguns amigos próximos sobre qual o verdadeiro significado dessa palavra e o que diabos ela significa. Inclusive, já acreditei que eu tivesse inveja de pessoas consideradas auto suficientes por pensar que, dessa forma, a vida poderia ser mais fácil, pois grande parte das preocupações ganharia um peso menor. Afinal de contas, não teríamos que ter essa questão absurda de estarmos sempre acompanhados, de termos sempre tendo que cuidar de alguém. Ou de estarmos simplesmente o tempo inteiro próximos das pessoas.

Não tem a ver com egoísmo e nem com solidão | Crédito: Matthew Wiebe/StockSnap (Menina da Estrada)
Não tem a ver com egoísmo e nem com solidão | Crédito: Matthew Wiebe/StockSnap

A pergunta que me fiz é: o que significa ser auto suficiente, afinal de contas? Seria mesmo o conceito de estar sempre bem sozinho, sem precisar de influências externas? Vejo que muitas pessoas ainda associam esse significado a um certo egoísmo, pois ser considerado um indivíduo que não precisa de outras pessoas para ser feliz faz com que estejamos sempre cercados dentro de um universo próprio, intolerante à companhia dos outros, a outras opiniões, criando abismos e uma certa preguiça até de se relacionar com os outros através da amizade, do amor e do sexo.

O que a gente não pensa é que há uma diferença grande entre amor próprio e egoísmo. Somos seres humanos frágeis em um processo muito delicado e lento de evolução, o que faz com que ainda hoje, em pleno século 21, cometamos erros absurdos. Um desses erros é acreditar que, para nos bastarmos, nós precisamos diminuir a importância das pessoas nas nossas vidas e acreditar a ferro e fogo que não precisamos de absolutamente ninguém para sermos felizes. Na prática, nós seguimos o caminho inverso – e colocamos toda a nossa teoria individualista ladeira abaixo nas nossas atitudes.

"Eu me basto, eu consigo" - Crédito: Noah Siliman/StockSnap (Menina da Estrada)
“Eu me basto, eu consigo” – Crédito: Noah Siliman/StockSnap

Falo isso por experiência própria. Sou uma pessoa avoada, pisciana com ascendente em escorpião, que cria um universo particular dentro da própria mente e vive bem nesses mundos paralelos e loucos. Ás vezes, por falta de atenção, acabo não demonstrando em atitudes o quanto amo as pessoas que me cercam e o quanto elas são importantes para mim. Toda essa combinação de atitudes, somadas às minhas expressões exacerbadas, fizeram com que a maior parte das pessoas que fazem parte do meu convívio acreditassem que eu não preciso de ninguém. Mas ora essa: eu preciso, sim! Gosto de ter a companhia dos meus pais, da minha irmã e da minha cachorra. Gosto da companhia dos meus amigos e do meu namorado, o grande amor da minha vida. Gosto de viajar acompanhada e até de estudar tendo alguém do meu lado. Ser uma pessoa que aprecia os silêncios e, nem por isso, desprezar outras companhias.

A solidão, por mais bem vinda que seja em determinados momentos, tem um grande poder de nos levar ao limbo da tristeza profunda, da agonia, da depressão. Quando podemos compartilhar nossas alegrias com outras pessoas na qual amamos e confiamos, a sensação de plenitude nos alimenta de tal forma que passamos a acreditar mais em nós mesmos e a termos mais confiança para seguir os nossos caminhos de uma forma completa e digna. O fato de sermos auto suficientes não nos torna egoístas de forma alguma, muito pelo contrário: o amor próprio e o ato de estar bem com nosso estado de espírito fazem com que estejamos ainda mais aptos a amar outras pessoas e aproveitarmos todas as coisas boas que elas podem transferir para nós.

"Venha, my friend! Vamos nos bastar juntos!" | Crédito: Everton Villa/StockSnap (Menina da Estrada)
“Venha, my friend! Vamos nos bastar juntos!” | Crédito: Everton Villa/StockSnap

“Amai ao próximo como a ti mesmo”. É isso que a auto suficiência deve fazer. Não o caminho inverno. Não um caminho raso, sem vírgulas e recheadas de pontos inflexíveis. Qualquer coisa diferente disso traz significados maléficos e que corrompem toda a nossa evolução e nossa completude.

A auto suficiência existe, sim. Mas é muito diferente do que fomos concebidos e educados a acreditar que seja.

LEIA MAIS: Crônica – O drama das pessoas literárias

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