Por quê o Lollapalooza é o melhor festival de música da atualidade?

Line up amalucado, ingressos nas alturas e público indie/crazy/woodstock. Quando se trata de falar sobre o Lollapalooza, várias definições surgem imediatamente na boca do público. E não se trata somente de elogios e grandes expectativas em relação às edições do festival, que se consolidou como um verdadeiro sucesso no Brasil e se tornou um dos eventos musicais mais esperados do país anualmente, mas também de reclamações e de diversos questionamentos sobre qual a lógica seguida pelos organizadores na hora de selecionar os artistas que ocuparão seus palcos.

Na semana passada, a T4F, responsável pela edição brasileira do festival, que nasceu nos Estados Unidos e é idealizado por Perry Farrel, líder do Jane’s Addiction, divulgou para o público geral o line up oficial do próximo ano. Junto com ela, veio a bomba: por quê diabos o Metallica está cotado para tocar com um bando de bandas desconhecidas e o que eles têm a ver com The Strokes e The Weekend? No geral, as pessoas sempre fazem perguntas similares em qualquer edição. E um dos pontos mais levantados pelo público é, justamente, a inserção de bandas novas e do cenário underground em um festival de grande porte e com headliners extremamente requisitados na indústria fonográfica, como já foi o caso de Foo Fighters, Pearl Jam, Muse, Soundgarden e tantos outros.

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Lollapalooza 2015 – Crédito: Larissa Honorato / Querida Asquini

O que pra muitos talvez seja motivo de reclamação é justamente o que torna o Lollapalooza tão querido. Nós sabemos que, quando se trata do público fiel do metal e de outras grandes bandas do rock, sobretudo do porte do Metallica, tudo pode acontecer. Mas o que o cenário musical parece gritar atualmente é: por quê não justamente misturar? Por quê continuar definindo a música em rótulos e segregando quando se pode fazer um universo muito mais inclusivo e onde as pessoas possam conviver mais harmonicamente sem preconceitos? Afinal de contas, em pleno ano de 2016, ainda temos que lidar com tanto preconceito musical?

Contrariando a opinião de muitas pessoas, listei alguns dos motivos que tornam o Lollapalooza simplesmente o melhor festival de música da atualidade. E isso vai muito além do line up tão mesclado, apesar de ser esse justamente um dos seus maiores trunfos. Olhem só!

Mais do que música – o Lolla é cheio de opções de entretenimento

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Lollapalooza 2015 – Crédito: Larissa Honorato / Querida Asquini

Quando escuto falar de festival de música, logo vejo que muitas pessoas ainda associam o significado aos antigos festivais de rock dos anos 1970, naquele clima de paz, amor e música (e sabe-se lá Deus mais o que, não é mesmo?). Ou, ainda, às primeiras edições do Rock in Rio, quando grandes nomes do rock faziam barulho na arena e o público ficava completamente enlouquecido com aquelas guitarras altíssimas ecoando pelo espaço. O problema é que o maior erro está em acreditar que esses festivais se restringem ao rock como gênero musical e que devem, primordialmente, dar espaço a bandas mais antigas e extremamente consolidadas na indústria como headliners.

Vejam bem: não são somente os tiozões e os clássicos que são capazes de lotar espaços ao ar livre, fazer apresentações de qualidade e encantar o público com seu talento e sua capacidade em solos gigantescos e potentes. Há, sim, muitas bandas novas que possuem capacidade plena para isso. Mas não são somente os shows, hoje, os grandes responsáveis por atrair a atenção das pessoas. Para sobreviver no universo musical atualmente e ter um evento bem avaliado, é preciso que os organizadores pensem em outras formas de entretenimento que possam complementar as apresentações e distrair as pessoas que não desejam, exatamente, ver um determinado artista tocando em um determinado espaço de tempo.

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Lollapalooza 2016 – Crédito: May F./Flickr/Creative Commons

Além de evitar com que as pessoas fiquem focadas em uma banda/cantor que não gostem e gerem as famigeradas vaias (uma verdadeira falta de respeito que também diz respeito à nossa cultura), a organização do evento promove outras atividades dentro do espaço e otimiza cada um deles. O Chef Stage, por exemplo, é cheio de opções de pratos preparados por chefs de restaurantes renomados a preços populares (e foi minha alegria na edição de 2014!). Há, ainda, pistas de patinação e iniciativas que variam de ano pra ano, como as redes de descanso.

A gente sabe que ficar o dia todo passeando pra ver o show de um artista e conseguir um lugar cativo na plateia é um esforço e tanto e acaba sendo bem cansativo. Então nada mais justo que a gente se mantenha bem ocupado e veja outras coisas interessantes!

A mescla de bandas é um trunfo, e não uma falta de coerência

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Eddie Vedder durante a apresentação do Pearl Jam no Lollapalooza 2013 / Crédito: Gustavo Paques/Flickr/Creative Commons

“Ah, mas não tem cabimento a banda X tocar no mesmo dia da banda Y”. “Não faz sentido não ser um festival que só toque rock”. Um monte de coisa não faz sentido e blá blá blá.

Eu vejo muita gente reclamando sobre a grande mistura de estilos musicais e dizendo o quão absurdo é uma banda de metal estar no mesmo evento que dá espaço para o rock alternativo e até para DJs de música eletrônica. A questão é: será que realmente é tão ruim assim estar em um espaço gigantesco que saiba misturar gêneros musicais de uma forma respeitosa?

No Lolla, o público vê de tudo! Desde pessoas caminhando com roupas escuras e tatuagens à mostra, passando por indivíduos de cabelos excêntricos, pessoas que curtem um batuque na orelha, som de ervas, hip hop e até quem senta na grama só pra assistir o Silva. Ou seja: isso tudo é maravilhoso!

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A cantora Lorde durante apresentação no Lollapalooza 2014 / Crédito: Gustavo Paques/Flickr/Creative Commons

Estar num espaço desses é como ter uma lição de respeito às diferenças. É ter o privilégio de sair do lugar comum e experimentar uma situação nova e extremamente diversificada, fazer contato com pessoas que possuam outros gostos musicais e até de fazer novas amizades. Acreditar que um festival de música tenha que ser exclusivo para o rock e para os matusaléns do gênero é um retrocesso, além de representar uma certa parcela de preconceito que as pessoas escondem por trás das notas musicais que costumam ouvir. Ir de Planet Hemp ao Pearl Jam é um benefício que nem todos conseguem perceber. Tem um valor inestimável.

A música é, aliás, uma arte repleta de vertentes. E isso é o que a torna tão fascinante!

O Autódromo de Interlagos é um dos melhores espaços de eventos em São Paulo

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Público no Autódromo de Interlagos no Lollapalooza 2015 / Crédito: André Tambucci/ Fotos Públicas

Houve quem acreditasse que a única finalidade do Autódromo era a de ser destinado ao seleto público que assiste às corridas de automobilismo. Ora essa, aí está a prova de que não é bem assim! Um lugar daquele tamanho pode servir pra muitas outras coisas. E como pode!

Anteriormente, o evento ocupou os gramados e uma parte considerável do Jockey Club, no Morumbi. Uma localização de elite que gerou reclamações por parte dos moradores (chatos) da região e que, consequentemente, impulsionou ainda mais a decisão dos organizadores do festival de realocá-lo para outro lugar. Consequentemente, o público pôde ter mais espaço, mais opções de lazer e, de quebra, ficar longe do cheiro de esterco de cavalo (e deixar essa parte pra quem gosta, não é mesmo?).

É claro que, se você for uma pessoa que nem eu e tem uma vontade gigantesca de assistir a todos os shows do line up, isso pode trazer algumas desvantagens. Afinal de contas, o deslocamento de um palco pro outro exigem longos e exaustivos minutos de caminhada e até um transitinho de pessoas no meio do percurso, dependendo da banda e do horário de exibição dos shows. Mas a vantagem é que os sons não interferem um no outro e que há mais espaço pra correr – inclusive em casos de chuva!

É preciso dar espaço para bandas novas

A banda Of Monsters And Men, uma das grandes atrações do Lollapalooza 2016 / Crédito: Divulgação
A banda Of Monsters And Men, uma das grandes atrações do Lollapalooza 2016 / Crédito: Divulgação

Eu insisto nisso. Eu preciso disso. Eu acho essa vantagem do Lolla uma coisa maravilhosa!

Nesse ano, o festival teve o trunfo maravilhoso de trazer nomes como Munford & Sons e Of Monsters And Men, duas grandes bandas no cenário indie/folk e que estouraram na indústria fonográfica nos últimos anos. Infelizmente, não tive o prazer de vê-los pessoalmente e tive que acompanhar tudo pela tela da televisão mesmo, já que o orçamento estava apertado. Mas o que o Lolla entende é que, por mais que a presença de figuras renomadas da música seja essencial, é preciso que haja espaço para que novas bandas tenham a oportunidade de mostrar o seu trabalho e de encantar o público.

O mundo da música está sempre em mutação. Todos os anos, novas bandas e cantores solo aparecem na mídia. Estilos musicais estão sempre se transformando, sobretudo o rock, que possui tantas vertentes. Acreditar que só o antigo é que tem o seu valor é uma ilusão e expõe um pensamento extremamente arcaico e fechado, que só traz malefícios pros nossos ouvidos. Há, sim, muitas coisa novas e boas surgindo a todo momento! Tá aí uma banda brasileira como o Suricato, escalada para a próxima edição, que não me deixa mentir.

Se é pra ser caro, então tem que valer a pena

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Lollapalooza 2015 / Crédito: André Tambucci/ Fotos Públicas

Não é barato. Orra, se não é! E eu entendo isso. E eu também sofro com isso.

Muitos fatores influenciam nos preços dos ingressos de um show e, sobretudo, de um festival de música de grande porte. Além de estarmos em um país onde os gastos são extremamente altos e abusivos, nós também temos que lidar com o fato de que, atualmente, fica muito difícil para um artista conseguir comercializar CDs, DVDs e afins, ainda mais com o aumento de alternativas gratuitas dentro da internet para que o público possa conhecer e escutar o trabalho de quem ama.

Ainda que iniciativas como o Spotify e os mecanismos do Youtube tragam certos benefícios para os músicos, é certo que as porcentagens ainda não são significativas e que produtores, gravadoras e os próprios músicos tentem sempre buscar uma forma de conseguir melhorar esse cenário. Mas um dos principais rendimentos são, inevitavelmente, os shows. E aí, minha gente, o negócio encarece e a faca literalmente entra e fura os nossos bolsos!

No entanto, se tudo está nesse valor exorbitante, nada mais justo que os valores se justifiquem. Como eu disse acima, as opções de entretenimento são essenciais! E um adendo: nada compensa o sentimento e a experiência de estar lá pessoalmente. Mas se o orçamento apertar, tem uma vantagem: a bugunça sempre passa no Multishow! ♥

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Line Up do Lollapalooza 2017. Vem, gente! / Crédito: T4F / Divulgação

Em suma: o festival pode ter muitas coisas que podem ser melhoradas. Mas tudo isso é um indício forte de que eles estão no caminho certo, além de promoverem a diversidade de um jeito divertido. E eu aposto que você, no final das contas, vai acabar se rendendo!

LEIA MAIS: Crítica Musical – O saldo do Lollapalooza 2015, por Larissa Honorato

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