Ode aos domingos de proteção do Rio São Fracisco – uma homenagem a Domingos Montagner

O sol brilhava no horizonte nordestino na tarde de uma quinta-feira. Ao longo da margem de seu rio protetor, um homem colocava os pés na borda das águas, sentindo a brisa fresca que pairava acima de sua extensão e da natureza esplendorosa que o cercava.

Um sorriso feminino o acompanhava. No peito. guardava a sensação plena de um trabalho bem realizado, tal qual o de um pescador em época de cheias, que leva pra casa e para a mesa de jantar com a família uma rede farta de peixes. No seu caso, a plenitude vinha de sua arte, de textos bem interpretados e de uma sensação grande da saudade de casa, que o impulsionava a viver na beleza que aquele trecho de Sergipe o reservava.

Sua alma intensa e bondosa lhe deu o poder de dar vida a diferentes personagens: ao palhaço contrastante, de tristeza e alegrias, repleto de contornos leves que o mais faziam parecer um artista da vida real do que um integrante dos clássicos circenses; aos grandes amores; ao forte cangaceiro, que percorre terras e inspira versos cordelistas com sua luta; ao nordestino de alma trabalhadora e que luta em todos os momentos de sua vida; ao homem de traços divertidos.

Naquele dia, os anjos decidiram que a vida imitava a arte. O homem ao qual deu a vida, que sofreu uma emboscada no Rio que corta uma parte do país e foi resgatado por índios, entregou seu sorriso fácil, as feições belas e a pele morena às águas que pediam por um novo protetor. O Velho Chico sonhava em habitar o imaginário popular em tempos nos quais a poética de sua importância encontram-se em estado de extinção, tal qual as aves coloridas e raras da Amazônia. Só não contava que esse mesmo imaginário misturaria suas gotas de água doce com o salgado das lágrimas. O Rio não entende que, para ter um protetor, precisa trazer lembranças de dor e melancolia. Não entende que sua poética se alimenta de uma dose cheia do sofrimento humano.

Domingos Montagner | Crédito: Divulgação (Menina da Estrada)
Domingos Montagner | Crédito: Divulgação

A quinta-feira absorveu o domingo de aleluia. As procissões e as vestes brancas de homenagem às santas transformaram-se  em redemoinhos e pedras. Suas ruas, tão cheias de homenagens, tornaram-se o lar de pedidos calorosos. Que ele retorne à superfície. E se não retornar, que siga com tranquilidade o curso do rio e se encontre com o espírito de índios protetores da natureza do outro lado da margem, prontos para conduzir-lhe ao caminho da paz. “São Francisco, cantando eu sou feliz. São Francisco, ó Rio do meu país”.

Um dia de semana ganhou o contorno dos domingos tão cheios de descanso e amor. O homem que antes mergulhava agora caminha sobre suas águas, como um Cristo que acalma a tempestade e devolve à natureza o respeito que ela merece ter.

“Quer saber quanto custa uma saudade? Tenha amor, queira bem e viva ausente” – Bráulio Bessa. 

* Vá em paz, grande homem. Obrigada pelas emoções, pelo entretenimento e por despertar tantos sentimentos bons na sua capacidade enorme de interpretar e de ser o melhor artista do circo, dos palcos e da televisão. Figuras como o seu bravo Capitão Herculano sempre vão morar no nosso coração. Viva, Domingos Montagner!

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