Resenha Literária: “Memorial de Maria Moura” é obra obrigatória pra vida!

Tenho um grande fraco por literatura brasileira e obras que abordam o sertão do nosso país. Foi assim que, aos dezesseis anos de idade, estudante de teatro e do Ensino Médio, me encantei pelo universo de João Guimarães Rosa (1908 – 1967) e mergulhei em seus livros sem reclamar da obrigatoriedade de Sagarana em alguns vestibulares e nem de ter que me aprofundar em Grande Sertão: Veredas para encenar uma peça e conseguir fazer algumas provas decentemente. Pra mim, as palavras desse homem sempre foram motivo de fascínio.

Se você é que nem eu e não resiste às palavras desse escritor maravilhoso, com certeza vai se encantar com a potência que a literatura de Rachel de Queiroz (1910 – 2003) tem. Considerada uma das melhores escritoras da história do Brasil e primeira mulher a ganhar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, Rachel de Queiroz foi um respiro no meio de um universo majoritariamente ocupado por homens. Suas obras, assim como as de Guimarães, recorrem a uma linguagem literal, recheada por expressões regionais e que pouco buscam refinamento ou expressões rebuscadas. É a linguagem do povo, traduzida de uma maneira eficiente e repleta de personagens fortes e intensos.

A escritora fofa, já na maturidade | Crédito: Divulgação
A escritora fofa, já na maturidade | Crédito: Divulgação

Nascida e criada no Ceará, Rachel procurou relatar as agruras vivida pelo povo do sertão nordestino em tramas bem delineadas que até hoje, infelizmente, traduzem a miséria e as dificuldades de uma parte significativa da população. Foi assim em uma de suas grandes e fenomenais obras-primas: Memorial de Maria Moura, que se tornou uma série elogiada da Rede Globo nos anos 1990 e foi protagonizada por Glória Pires.

É através da feminilidade selvagem de Maria Moura que a autora escancara, em um realismo despudorado, como boa parte daquele povo enfrentava a seca. A personagem principal carece dos protótipos femininos e de pouca força que são relatados em muitas obras literárias ao redor do mundo, expondo como a natureza da mulher é complexa, recheada de determinação e de desejos intensos. Ela é, afinal, um ser humano extremamente sexual, mas que não hesita em vingar a morte da mãe quando o padrasto, com quem mantinha um caso, elimina a figura materna através de um relacionamento abusivo, manda matar um homem que a ameaçava, queima a casa na qual vivia para não deixar nenhuma herança a primos que tentam eliminá-la e lidera um bando de jagunços, explorando terras em cima de seu cavalo e mostrando-se uma líder capaz de deixar muito coronel no chinelo.

Mas o mérito da escritora não é só uma protagonista intensa, capaz de fazer de tudo para conseguir o que quer. Suas histórias paralelas, que ao final se cruzam entre si, é repleta de tramas fascinantes, que tornam o livro gostoso de ler do começo ao fim. Estão lá a saga do Padre José Maria, que se apaixona por uma mulher casada, a Bela, e passa a ser perseguido depois da consumação de um episódio sanguinário, feito pelas mãos do marido violento; a linda história de amor do trapezista Valentim e de Marialva, prima de Maria Moura, que foge de casa para conseguir se casar com o homem que ama; os desejos da protagonista por Duarte, filho da negra Rubina, e por Cirino, um rapaz louro filho de um homem rico e poderoso.

Glória Pires como Maria Moura na minissérie homônima da Rede Globo, exibida em 1994 | Crédito: Divulgação
Glória Pires como Maria Moura na minissérie homônima da Rede Globo, exibida em 1994 | Crédito: Divulgação

A violência dos homens não é poupada em suas descrições, bem como abusos cometidos contra as mulheres. A realidade do sertão, por sua vez, é tratada de uma forma romântica que falta ao escritor brasileiro. Um amor sem igual por sua terra, por sua história, sua tradição. Uma ode às nuances do brasileiro.

A obra relata outros períodos importantes de nossa história e escancara problemas ainda vividos pelo país, como a herança maldita da escravidão e o machismo. É uma obra que você deveria incluir como obrigatória na vida. Pra ser lida e relida quantas vezes for necessário, tendo suas palavras devoradas página a página.

Me pergunto: quando é que o povo das letras e que seleciona as obras para os vestibulares finalmente vai entender que precisamos de uma mulher como Rachel de Queiroz representando nossa literatura, nossa história e o papel das mulheres no ramo? Dica amiga: nunca é tarde.

VAI LÁ
Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz
Preço: Entre R$ 20 (Pocket Book) e R$ 55
Avaliação Final: ♥♥♥♥♥ (Excelente)

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