E se você se isolasse na natureza selvagem?

Muito se diz sobre viajar o mundo, cair na estrada, pegar caronas ou andar de bicicleta sem limites por aí, conhecendo lugares, pessoas e sem a obrigação de criar raízes. A fórmula “largar tudo para viajar o mundo”, inclusive, tem sido cada vez mais presente na cabeça e no coração dos jovens, inspirando nômades digitais, estudantes e a produção de conteúdos específicos sobre o tema para que esse mesmo público possa ter inspirações, além de ter alguém que fale por eles e na mesma língua – nesse caso, a de viajar.

Quando o filme Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn e protagonizado por Emile Hirsh, deu as caras nos cinemas e na casa das pessoas, muita gente se mobilizou por esse sentimento libertário de abandonar a carreira, a casa e tudo o que conheciam para partir em uma jornada em meio a árvores, praias, lagos, montanhas e muitas aventuras imprevisíveis. Quer dizer, se mobilizou para discutir ideias e sonhar com a atitude extrema de Chris McCandles, cuja história sensibilizou a maior parte das pessoas que acompanhou o filme e leu o livro escrito pelo jornalista Jon Krakauer. Mas praticar isso é muito mais difícil do que se imagina, ainda mais quando seres humanos possuem uma essência tão social e pautada em relacionamentos intensos e em laços afetivos. Uma árvore é uma coisa linda de se ver, mas falar com ela pode ser um tanto quanto… Frustrante, eu diria.

Crédito: Death To Stock (Menina da Estrada)
Crédito: Death To Stock

Mais recentemente, Reese Whiterspoon deu vida a Cheryl Strayed nos cinemas, uma escritora norte-americana cuja obra Livre relatava suas aventuras em uma jornada cansativa na Pacific Crest Trail, uma trilha gigantesca que corta tanto geleiras quanto florestas e desertos. O objetivo: buscar autoconhecimento e uma superação silenciosa da dor de perder sua mãe e ter um casamento interrompido com traições (feitas por ela mesma) e envolvimento intenso com drogas. Uma versão feminina de McCandles, porém mais preparada, com um objetivo final e sem um destino trágico.

Leia a entrevista da autora no site da Folha de S. Paulo

Na vida real, realizar um feito desses é muito mais complicado do que parece. É um sonho grande pra muita gente que tem alma de viajante. Pra aqueles que, como diria a música O Viajante, da banda For Fun, gostam de pensar: “Me sinto em casa em qualquer lugar, mas sou turista em todos”. Mas o que aconteceria de verdade se a pessoa mergulhasse em um mundo um tanto quanto isolado e mais cercado de aventuras? A resposta não é tão simples, e acumula grandes prós e contras. Muito maiores e mais intensos do que qualquer ser humano ousaria imaginar.

Autoconhecimento e amadurecimento

Crédito: Death To Stock (Menina da Estrada)
Crédito: Death To Stock

Entrar nesse processo duplo, muitas vezes doloroso, pode exigir ajuda profissional e muitas sessões com um psicólogo. Mas é claro: dependendo da pessoa que você for, estar em uma viagem, tendo você mesmo como companhia primária e essencial, pode ter o poder de fazer com que você faça reflexões profundas sobre si mesmo e reflita sobre seus gostos pessoais, sonhos, objetivos na vida, relações com familiares e amigos e até quem exatamente você quer que te acompanhe nessa jornada tão árdua, complexa e fascinante que é a vida.

Trilhas enormes, escaladas na montanha, animais à espreita e o ato de buscar sua própria comida fazem com que  ser humano entre em um contato extremo com sua alma e sua psiquê, colocando-o de frente com sua verdadeira natureza. Isso pode fazer com que você amadureça, cresça como pessoa e saiba valorizar ainda mais suas relações interpessoais.

É claro: nada disso é fácil e pode exigir sacrifícios enormes, tanto físicos quanto mentais. Se essa não for sua praia, tem sempre um bom divã esperando ou uma atividade gostosa e social, como dança e teatro, que podem ter os mesmos efeitos terapêuticos e abordar essa parte da nossa vida de uma maneira mais leve.

Entrar em contato com um lado selvagem da nossa alma – e abdicar dos excessos desnecessários

Crédito: Death To Stock (Menina da Estrada)
Crédito: Death To Stock

Andar com um celular nas mãos, fones de ouvido, notebook no colo, televisão ligada… Tudo isso pode ser maravilhoso quando dosado. Mas como qualquer excesso, isso provoca doenças e pode contribuir para aumentar um mal estar gigante na nossa vida contemporânea, já muito atribulada. Parte da nossa natureza humana tem um quê de selvageria que se adapta bem com o cheiro intenso das florestas e com a visão arrebatadora de montanhas. Não à toa: muitas pessoas, quando entram em contato com essas paisagens, sentem um misto de libertação e familiaridade. E esse é o lado da nossa alma e espiritualidade gritando, anunciando que voltamos para casa.

Em sua bela obra Mulheres Que Correm Com Os Lobos, a psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés aborda esse lado do ser humano, sobretudo das mulheres, com analogias a contos de fadas, que foi mortalmente domesticado e manipulado na sociedade, quando na verdade há uma essência muito mais livre e intensa lutando para dar as caras. É o lado que luta para cuidar dos doentes, cantar sobre os ossos, encarar a morte com mais naturalidade, entrar em contato com nossa essência tanto cuidadora quanto autossuficiente de uma forma muito mais límpida.

Em suma: recorrer a esse ato de explorar a natureza dessa forma tão grandiosa faz com que repensemos nossa verdadeira essência como pessoas. E, em contraponto com o significado atual e distorcido do que é selvagem, nos tornamos mais dóceis e menos exigentes conosco. Afinal, nós exercitamos uma quantidade enorme de talentos manuais e essenciais para a nossa existência, que andam tão esquecidos em tantas camadas de tecnologia e superficialidade.

Por outro lado: muitas pessoas estão, hoje, procurando resgatar esses talentos esquecidos e incentivando outros grupos a retomarem essas atividades que aprendemos com nossos antepassados e que possuem um efeito terapêutico impressionante e extremamente valioso, tais como escrever (à mão mesmo!), cozinhar, costurar, pintar, cuidar de plantas, criar artesanato, entre tantas outras coisas lindas. Pode ser que você não precise entrar em contato com esse lado entrando nessa jornada, mas que precise recuperar sua essência de uma forma artística. Há dois lados grandes aí que podem ser explorados. Resta saber qual deles combina mais com você.

Um exercício de autossuficiência 

Crédito: Death To Stock (Menina da Estrada)
Crédito: Death To Stock

Independência em excesso pode fazer mal pra seres tão sociais e que andam em bando, como os seres humanos. Mas excesso de dependência emocional também pode prejudicar ao extremo nossa saúde. O ideal é que haja um equilíbrio entre as duas coisas, pra que todo mundo consiga viver em harmonia e extraindo o melhor de nossa existência aqui na Terra.

Se o mundo anda em desequilíbrio nesse sentido pra você, talvez encarar esse tipo de viagem e experiência sejam bons pra que você saiba estruturar o ato de estar bem consigo mesma (o). E é claro: nem tudo é isolamento. Você pode encontrar muitas pessoas incríveis pelo caminho que estejam nessa jornada ou que queiram chegar em caminhos distintos, mas cujas histórias têm o poder de encantar a sua mente e enriquecê-lo com diferentes experiências e muitas coisas incríveis para contar no caminho de volta. E usar isso tudo para criar coisas novas e ter inspirações em trabalhos e outras atividades ao longo de sua existência.

Mas realmente: você não precisa estar no meio dos sons da natureza, dentro de uma barraca e com um livro como companhia primordial, para desenvolver o ato de bastar-se. Isso pode ser feito de muitas outras formas, basta que se busque essas alternativas e, claro, tenha muita persistência para alcançar esse objetivo. Porque no final das contas, esse processo não é fácil!

Crédito: Death To Stock (Menina da Estrada)
Crédito: Death To Stock

Em suma: por mais que a interferência humana nos recursos naturais e na vida dos animais estejam ridículas e totalmente prejudiciais na vida do nosso planeta, ainda há muitos lugares prontos para serem explorados e que com certeza vão fazer com que você repense sua existência, além de desafiar seus limites. A pergunta é: você tá pronto pra isso? Você foi realmente feito pra isso?

E aí, vai encarar? Porque se for, não esqueça de estudar sobre o assunto e de se preparar bem pra jornada que te espera! 😉

LEIA MAIS (todos esses textos foram publicados por mim): ♥

Parques nos Estados Unidos para conhecer
Paisagens naturais arrebatadoras do Brasil
11 filmes ideais para curtir o frio

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3 Comments Add yours

  1. Reblogged this on and commented:
    Criei o blog meio como um “escape” dessa epidemia #semcriatividade que dominou algumas redes. Ter blog pra mim é muito mais uma terapia, um ioga, do que um merchan para ficar “famosa”. Lembro de quando era adolescente e criava blogs , e nossa… quantos blogs eu já tive! Mas o sempre gostei nesse universo, a possibilidade de fazer amizades com pessoas que eu nem conheço, de ler bons conteúdos e saber que quem escreve é uma pessoa como eu, atrás de uma telinha em algum lugar desse mundão de meu Deus.

    Sabe, vivemos em uma época que as coisas duram menos que uma temporada de seriado, as pessoas não sentam para ouvir as outras, para terem diálogos que se pareçam realmente com diálogos e não monólogos, que queiram ler o que o outro tem a dizer. Então, hoje eu resolvi “bisbilhotar” blogs, ler os posts do começo ao fim, tentar entender o universo de algumas pessoas. E nessa pesquisa eu encontrei um blog maravilhoso, curti o layout, a forma como a autora escreve, o conteúdo. Na verdade, gostei tanto do conteúdo, pois tem muito a ver com as minhas ideias e com o Coração Nômade que resolvi reblogar esta publicação da MENINA DA ESTRADA.
    Espero que gostem, assim como eu.

    1. camilahonorato says:

      LINDA! Muito, muito e muito obrigada! ♥
      Seguimos em frente, sempre em busca de conteúdo e de formas de trazer mais conhecimento pras pessoas, sem esse apelo marketeiro que já deu, né. Obrigada pela indicação. Adorei seu blog e tô seguindo aqui! 😉

      1. HAHAHA Valew Camila, é bom saber que não estou sozinha nesse mundo louco. Seu blog é lindo, já virei fã ♥ Conteúdo de auto nível.

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