Elke Maravilha: por um mundo mais transgressor!

Eu me lembro da primeira vez na qual eu realmente prestei atenção em Elke Maravilha. Tinha em torno de 7 ou 8 anos, ainda era extremamente fã dos filmes da Xuxa e me encantei pela vilã gótica de Xuxa Requebra. Não sabia ao certo o que me fascinava tanto nela. Afinal de contas, ela era a vilã e o certo seria torcer pelo contrário, não? Mas eu gostava tanto daquele visual obscuro, mesclado com ironias e sorrisos fáceis que achava que ela se sobrepunha à protagonista. E de fato, era realmente isso que a definia em todos os filmes nos quais participou e em todos os projetos de sua vida.

A história de Elke me fascinava em todos os detalhes. Primeiramente, pelos inúmeros lugares pelos quais passou, pela sua dupla expatriação (primeiro na Rússia, onde nasceu, e depois no Brasil, com suas posturas firmes durante a Ditadura Militar), à quantidade enorme de idiomas que falava (um total de oito, fora as línguas mortas), ao seu reconhecimento como ser humano e aos seus posicionamentos que fazem qualquer ser humano refletir sobre a verdadeira razão de sua existência – e a questionar os dogmas opressores de nossa sociedade.

Para ela, falar vários idiomas era uma coisa comum, um talento e uma curiosidade que o ser humano perdeu com a ascensão econômica americana, onde todo mundo passou a ver isso como uma coisa absurda e até impossível. E eu aqui, achando o máximo alguém defender a abertura das mentes em aprender outras culturas e línguas (coisa que eu amo demais), fazendo disso uma parte natural de nossa curiosidade e estudos. Ao longo de sua vida, assumiu diversos papeis antes de se tornar modelo e encantar (e chocar) o Brasil com sua risada fácil e escandalosa, teus trejeitos exagerados e o figurino que quebrava com todos os paradigmas comuns da definição do que era ser mulher.

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Foi professora, tradutora e militante, tendo como sua amiga pessoal ninguém menos do que Zuzu Angel, a estilista “boca larga” que não permitiu ser silenciada ao ter seu filho torturado e assassinado pelas mãos apodrecidas da Ditadura – e que lutou até o fim pelo direito de enterrar seu corpo e escancarar sua morte, usando o universo da moda como seu principal canal de protesto. Impulsionada por essa injustiça, Elke rasgou cartazes com a foto de Stuart Angel e acabou presa. Para ela, não havia outra atitude que pudesse ser feita por ela mesma. Essa era a única postura aceitável sobre o assunto. As grades eram, afinal, somente parte de um complemento de um conjunto de prédios que não teriam o poder de aprisioná-la, e de tampouco de intimidá-la. A prisão, afinal, era uma construção do próprio ser humano.

Elke também foi amiga de outra mulher que eu admiro muito: Nise da Silveira, a psiquiatra brasileira que quebrou com todos os protocolos retrógrados da medicina, passou a tratar pacientes com transtornos mentais como seres humanos e inseriu a arte em seu tratamento, recusando-se a aceitar medicações excessivas e eletrochoques como a solução mais adequada. Foi aluna de Jung, com quem trocou correspondências, e também recusou-se a aquietar-se. Grandes mulheres que, juntas, formam uma ponte de força.

Essa mulher foi, afinal, muito mais do que alguém com o poder de chocar. Ela foi uma artista transgressora que recusava a normalidade, mostrando que seus cabelos, maquiagens e figurinos espalhafatosos refletiam um contraponto enorme a uma série de regras chatas que definem o ser humano, como ela mesma gostava de se definir, não identificando-se sequer como mulher ou homem. “Ela é uma drag?”, perguntei ao meu pai quando eu era criança. Nem ele e nem minha mãe souberam responder, talvez porque eles mesmos soubessem que, assim como Elke, não havia uma resposta pronta para uma definição rasa do gênero humano. Era, afinal, uma inspiração. Se muito? “Por quê tão pouco?”, era a resposta que ela dava.

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

Ao longo de sua vida, Elke teve a nobreza de identificar a falta de um sentimento materno que a tornasse um protótipo de mãe. Teve a honestidade plena de assumir abortos e mostrar que aquilo não a tornava menor do que ninguém, pois não possuía em si o desejo e a “capacidade” de educar uma criança. Um papel que ela não diminuía, pelo contrário: apenas assumia com a cara e a coragem que não era para si. Também, com tantas coisas dentro de seu âmago e mostrando ao mundo esse universo tão cheio de possibilidades, ela era a definição do quanto não precisamos de papéis específicos e pré-estabelecidos para transcendermos como seres humanos. Basta que sejamos nós mesmos e que nos derramemos por aí.

A deusa do mundo LGBT, das mulheres e dos homens transgressores nos deixou nessa semana com uma lição absoluta: sejamos sempre mais. Afinal de contas, o pouco não tem graça.

Viva, Elke! Evoé! ♥

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