Crítica de Cinema:”Vidas Partidas” acende debate sobre violência doméstica

“O assunto tá na moda”, é o que muitos dizem. Alguns sem refletir mais a respeito da importância que esse tipo de debate, reflexão e luta têm em nossa sociedade. Violência doméstica nunca foi e nunca será meramente um debate “da moda”. É muito mais do que isso: isso nos afeta como seres humanos, impacta diretamente na nossa sociedade e, mais importante, tem um impacto muito sério na vida dos principais alvos: as mulheres.

Acendendo ainda mais esse debate sobre violência doméstica, o cinema nacional hoje mostra um filme sobre o tema. Vidas Partidas é um retrato cru sobre o que acontece por debaixo dos panos de uma sociedade patriarcal e que ainda vê a mulher como propriedade do macho alfa. O “alfa”, aliás, é um substantivo que tem o poder de transformar relações equilibradas em um jogo de poder, onde o submisso vira alvo de agressões físicas e verbais.

Vidas Partidas - Divulgação - Menina da Estrada
Crédito: Divulgação

No longa metragem, a protagonista Naura Schneider vive Graça, uma profissional do ramo da saúde que ascende profissionalmente e ultrapassa até mesmo o sucesso de Raul, seu marido que atua como professor e é vivido brilhantemente por Domingos Montagner (na minha opinião, um dos melhores atores do país atualmente). De início, o filme recorre a uma abordagem fetichista para mostrar a vida sexual ativa de um casal apaixonado. As cenas são, inclusive, um ponto forte em um cinema que ainda aborda a nudez em excesso e esquece que a consumação carnal entre dois amantes é feita de toques, expressões e respirações intensas e irregulares.

Com o desenvolvimento do filme, no entanto, Raul passa de sedutor a algoz e transforma graça em seu alvo de agressões, com uma série de atitudes absurdas que resultam em um drama nos tribunais e promove uma reflexão sobre os desdobramentos da Lei Maria da Penha no país. O resultado final do filme carece um pouco de atenção nos elementos técnicos, tais como iluminação, trilha sonora e uma dinâmica maior entre os cortes das cenas. Ainda assim, os atores são extremamente eficientes ao mostrar o retrato dessa brutalidade que ainda carece de combates eficientes por parte da justiça e da sociedade, que ainda busca justificar o comportamento do agressor.

Vidas Partidas - Divulgação - Menina da Estrada
Crédito: Divulgação

Em exibição realizada na Casa do Saber em São Paulo, promovida pela Revista Cláudia, a Europa Filmes, a Secretaria Para Mulheres da Prefeitura de São Paulo e o Instituto Avon, o filme acendeu o debate sobre o cenário enfrentado pelas mulheres brasileiras. Naura Schneider, que há anos realiza pesquisas e trabalhos voltados sobre o tema, destacou a escolha de Recife como pano de fundo para os desdobramentos da história, visto que a capital pernambucana é considerada uma das cidades brasileiras mais violentas nesse quesito. Ela mostra, ainda, o lado feminino que poucas pessoas conseguem entender: o do por quê existe tanta resistência por parte da mulher agredida de abandonar o parceiro.

Mais do que o medo das consequências que essa atitude pode trazer para ela e para quem a cerca, sobretudo quando a situação envolve os filhos e um risco de morte pairando sobre o ar, Naura destaca que a mulher nutre uma esperança pela mudança de comportamento do agressor. “Ela se apaixonou por aquele homem. Ela não quer outro homem. Ela quer ele, porém mudado”, afirmou ela. É por isso que campanhas de conscientização sobre a violência e trabalhos voltados para a proteção da mulher agredida são tão importantes.

Vidas Partidas - Divulgação - Menina da Estrada
Debate na Casa do Saber sobre o filme “Vidas Partidas | Crédito: Camila Honorato

Muito se fala, aliás, sobre as justificativas do comportamento do homem agressor. O próprio filme aponta algumas explicações que, no dia a dia, são muito pouco convincentes. Uma delas é a visão patriarcal do marido, que ainda se vê como o principal agente da casa e sente dificuldades de aceitar a ascensão da mulher no mercado de trabalho e da equidade de gêneros nesse mesmo setor. Sobre essas justificativas, o diretor Marcos Schechtman lançou uma frase impactante e que serve de reflexão para muitas pessoas que debatem o tema: “O ser humano tem dificuldade em lidar com a bestialidade humana. Não se pode aceitar, em nossa sociedade, que haja uma atitude brusca sem uma explicação. Não aceitamos que o ser humano possa agir dessa forma simplesmente porque deixa seu lado animalesco, monstruoso e bestial falar mais alto”.

Veja abaixo o trailer do filme e um trecho do debate na Casa do Saber, que também contou com a participação de Ana Fátima Macedo Galati, especialista em sexualidade feminina, responsável legal pelo Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde e coordenadora da Casas Abrigo; Carolina Vieira da Costa, advogada e diretora de Acesso à Justiça na Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres; e Mafoane Odara, psicóloga, mestre em Psicologia Social pela USP e coordenadora de projetos do Instituto Avon.

SOBRE A CASA DO SABER

Esse espaço charmoso, localizado no Jardim Paulistano em São Paulo e na Lagoa no Rio de Janeiro, é um lugar bacana pra fazer cursos e oficinas voltados para o ramo das artes, comunicação, história, psicologia e muito mais. Muitos eventos também são ministrados por aqui, além de debates e palestras. Também é possível se inscrever nas aulas abertas, totalmente gratuitas. Todas as salas são extremamente confortáveis e diferentes de uma sala de aula convencional, com cadeiras, poltronas e sofás, bons materiais didáticos e muitas cores. O café do lugar é uma boa opção na cidade para fazer uma pausa, comer um salgado leve e ler um livro. Veja abaixo fotos da unidade de São Paulo, dirigida por Mário Vitor Santos e que tem em seu conselho ninguém menos do que a (maravilhosa) atriz Maria Fernanda Cândido:

Casa do Saber/Camila Honorato
Fachada da Casa do Saber, em São Paulo | Foto: Camila Honorato
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Casa do Saber | Foto: Camila Honorato
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Casa do Saber | Foto: Camila Honorato
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“Diga-me e eu esquecerei. Ensina-me e eu me lembrarei. Envolva-me e eu aprenderei” – Benjamin Franklin. Foto tirada na Casa do Saber em São Paulo. Crédito: Camila Honorato

VAI LÁ
Vidas Partidas.
Drama.
Direção: Marcos Schechtman.
Elenco: Naura Schneider, Domingos Montagner, Georgina Castro, Juliana Schalch, Nelson Freitas, Milhem Cortaz, Rafael Studart, Edmilson Barros, Ana María Orozco, Suzana Faini.
Classificação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

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