Crônica: O drama das pessoas literárias

“Mas o que acontece com você, que é tão desenvolta pra conversas por escrito e morre de vergonha quando o contato é pessoalmente?”.

Quem nunca se deparou com esse dilema, que atire a primeira pedra! Pra quem mergulha de cabeça nas palavras e sente uma baguncinha quando o assunto é tocar, falar, ter contato visual, e é acompanhado de uma vermelhidão insistente nas bochechas, o assunto pode até virar um problema desconfortável.

O problema, acredite, não está em você. Afinal de contas, sua criatividade ganha níveis gigantescos quando se trata de escrever, de imaginar cenários, personagens e situações inacreditáveis quando se lê um bom livro e até quando se observa algum fato cotidiano que você trata de imediatamente definir mentalmente em palavras – e imaginá-las ganhando vida em frases montadas em um papel em branco.

Esse dom é extremamente valioso. E infelizmente não é todo mundo que consegue entender a beleza nisso tudo. Se estivéssemos vivendo no final do século XX, eu com certeza diria que muitas pessoas preferem o contato físico e a comunicação oral. Mas em um universo tão tecnológico, onde todo mundo caminha com um celular na mão e mal presta atenção no que está acontecendo ao seu redor, a situação ganha uma problemática ainda mais intensa. Afinal de contas, se formos ver o lado pessimista disso tudo, falta carinho, proximidade, troca de palavras (sejam elas escritas ou faladas) e troca de olhares. As relações ficam mais vazias – e se você for uma pessoa literária com a alma meio antiga, tudo fica meio desesperador. E disso nós, os literários, entendemos e sofremos bem.

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Crédito da Ilustração: Miriadna.com

Sentar em uma praça ou em uma livraria com um bom livro é uma coisa que pode mudar o nosso dia. A felicidade se encontra nas pequenas coisas, como uma leitura debaixo de uma árvore, no sofá de casa ou até na areia da praia. Não é que a gente despreze a paisagem litorânea e nem o toquezinho gelado da água do mar. Mas é que ficar ali, aproveitando desse cenário praticando a leitura e exercitando a imaginação, é uma das coisas mais maravilhosas do mundo. A gente pode até dar uma pausa pra curtir um frescobol e pular que nem tonto em cima de um banana boat sob o risco de tomar uma invertida da lancha e afundar na água. Mas nada disso se compara ao sossego do guarda-sol, da canga e daquele exemplar antigão.

Pra uma pessoa literária, baixar livros na internet é diversão e tormento. Diversão pela leitura querida que tanto nos fortalece. E tormento pela prática de desapegar daquele exemplar cheio de folhas que muitas vezes tem o cheiro do suéter guardado e esquecido da sua bisavó. É louco, mas folhear e sentir o cheiro de folhas tem um prazer estranho e intelectual que não sabemos definir. A gente adora levar mais exemplares do sebo e da livraria do que a gente consegue carregar. Comprar livros é um consumismo desenfreado que deixa até peça de roupa sem graça nenhuma. E o pior de tudo: a gente quer ler tudo ao mesmo tempo, sabendo que isso é humanamente impossível, e cria lordose com a quantidade de peso que carrega na mochila. Tudo pelo dito cujo. O que podemos fazer, não é mesmo?

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Crédito da Foto: IHD Images

Quem lê aumenta um milhão de possibilidades na vida, a começar pela chance de compartilhar conhecimento com o mundo. O exercício da criatividade, então, nem se fala. O exercício é um dos maiores impulsionadores da mente e pode ajudá-la até mesmo nos momentos difíceis, onde as histórias te salvam de um cotidiano obscuro e te levam a um mundo repleto de energias incríveis.

Ver fotos no Instagram, rolar o dedo pelo celular em busca de acontecimentos nas redes sociais… Na verdade, nada disso tem um apelo tão grande quanto aquele que nos acomete quando nos deparamos com um textão. Não um textão qualquer, mas aquele textão de alma. Saudades, cartas. Saudades, emails grandes e que demoram dias para serem completamente lidos.

Pessoas literárias se comunicam melhor com as palavras escritas. Não há méritos excluídos nesse sentido, pois qualquer indivíduo desses tem a capacidade de tocar, olhar e falar com grande sensibilidade. Mas a arte de escrever e de entrar em um universo particular da leitura toca no fundo da alma e dá mais sentido às coisas. As palavras trazem cor. As palavras ganham vida.

Se quiser saber qual a melhor forma de lidar com essas pessoas (e diminuir o nosso drama, faz o favor), permita-se adentrar um pouco mais nesse universo. Aceite-o e procure a beleza que parece tão oculta pra ti – garanto que ela está mais nítida do que você imagina. E leia as palavras que a gente dedica a você. É sério. Isso tem um grande sentido pra nós.

* Crédito da Foto de Capa: miriadna.com 

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5 Comments Add yours

  1. behmota says:

    Camila, me identifiquei muito com seu texto… E quem não tem a alma semelhante nossa dificilmente nos compreendem.

    1. camilahonorato says:

      Que bom que você gostou e se identificou com o texto!
      Realmente, é meio sofrido pra gente fazer com que as pessoas nos compreendam. Mas a gente tem fé! hehehehehe

      1. behmota says:

        Também gosto de escrever crônicas e poemas, se puder, siga a minha página também.

  2. camilahonorato says:

    Seguida!
    Adorei os seus textos ♥

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