Fobias são coisa séria – e você precisa respeitá-las!

Medo é um sentimento ruim que, infelizmente ou felizmente, faz parte da natureza humana. Infelizmente porque o sentimento de ter medo de alguma coisa é horrível: seu coração sai batendo descompassado, suas mãos suam e você fica o tempo todo em alerta. Felizmente porque o sentimento de ter medo de alguma coisa faz com que você respeite o objeto que te ameaça e, consequentemente, mantenha distância e preserve sua saúde e sanidade.

Quando se trata de fobias, o problema é muito maior. Na realidade, o buraco é muito, mas muito mais embaixo. Primeiro porque fobia é uma patologia. O medo natural de alguma coisa se transforma em algo muito mais grandioso, que pode comprometer seriamente a tua qualidade de vida e te trazer sintomas físicos e psicológicos sérios, que carecem de ajuda médica para serem tratados. Segundo porque, ao contrário do que muita gente pensa, fobia não é qualquer medo bobo e o seu tratamento e controle não pode ser feito por qualquer um e de qualquer forma: isso necessita de um controle especial. Terceiro porque, infelizmente, como quase tudo que se trata de psicológico, a fobia não é vista da forma como deveria e muita gente usa isso pra ser sem noção até com os próprios amigos.

Sadness Digital Hint
Crédito: Digital Hint

Cito o exemplo da minha irmã, autora do blog Querida Asquini e que, inclusive, fez um post bem esclarecedor sobre o assunto aqui. Quando uma pessoa se abre pra falar sobre esse tipo de coisa, infelizmente também pode se tornar alvo de algumas atitudes bem babacas. Entre elas, piadinhas infames e brincadeiras escrotas sobre uma coisa muito, mas muito séria. Ora essa: tem gente que pensa em suicídio por causa de uma fobia, pelo amor de Deus! A falta de noção não permite que se analise uma coisa absurda como essa e que precisa ser levada a sério. Não é possível que exista tanta gente babaca assim!

Eu nem ouso falar os meus medos, porque sei o quanto isso poderia me prejudicar seriamente. E acredito que, se alguém faz isso com um amigo, é porque consegue ser sem noção até com as pessoas que gosta. Essa pessoa merece distância! E preciso incluir um adendo sobre profissionais que arriscam a saúde do paciente em nome de um tratamento ou de uma experimentação pouco estudada e aplicada também. Disso, infelizmente, o ramo da psiquiatria e da psicologia estão cheios. O que serve de alívio pra mim, e pra população geral desse país, é que também há ótimas interferências de grandes profissionais que realmente ajudam e respeitam cada um dos sintomas das pessoas, conversando com elas e estudando a melhor forma de ajudá-las.

Na semana passada, um episódio na televisão aberta me deixou com receio pelas pessoas envolvidas. No programa Encontro com Fátima Bernardes, cujo tema em questão era medos e fobias, o psicólogo Cristiano Nabuco realizou um procedimento, mostrando um tratamento que realiza com fobias específicas através de um simulador de realidade virtual. Sua participação teve pontos bem bacanas, como uma diferenciação esclarecedora entre os dois. Nas palavras dele, o medo é uma resposta biológica através de situações que nos colocam em risco, enquanto a fobia evolui de tal maneira que “pode nos impedir de realizar atividades triviais, como a de pegar um elevador”. Ela sai do controle da pessoa, fazendo com que ela evite situações que possam fazê-la ficar de frente com o objeto ou a situação em questão. Em suma: ela pode, sim, te impedir de viver e até fazer com que você desenvolva problemas mais sérios, como a depressão. Percebem a gravidade do assunto?

O problema é o seguinte: cada pessoa tem uma história de vida. A fobia pode ter uma função, inclusive a de proteger a pessoa e alertá-la para um possível desvio de atenção da raiz do problema, além de muitas vezes estar atrelada a um episódio traumático. Na Terapia Comportamental Cognitiva, há alguns tratamentos que envolvem a dessensibilização da pessoa diante do objeto que teme, expondo a pessoa gradativamente à fobia – e isso nem sempre é a resposta mais eficaz. Me diga: como você vai expor a pessoa aracnofóbica (que é uma fobia muito comum e extremamente atrelada à cultura brasileira) a uma aranha? Qual é exatamente a necessidade disso, se a exposição dessa pessoa ao animal pode fazer com que ela tenha uma piora em seus sintomas?

E foi isso o que quase aconteceu. A entrevistada Renata tem aracnofobia, e desenvolveu o problema depois de um episódio que presenciou durante sua infância, na qual seu irmão batia na irmã para retirar uma aranha Viúva Negra que ela tinha em cima de si. O resultado: a possibilidade de estar perto de uma aranha já era o suficiente pra acionar seu receio e fazê-la acreditar que seria agredida por alguém (viu só como a fobia tem a ver com a experiência pessoal de cada um?). A equipe do programa, então, passou a exibir cenas de aranhas no telão enquanto o repórter Felipe Andreoli brincava com uma aranha de plástico na sua frente (uma atitude bem burra, por sinal). Enquanto isso, Renata suava e cravava as unhas na mão da apresentadora Ana Furtado (que aliás, vale o elogio: ela foi muito bacana com a moça!), tamanho o pavor que tem do bicho. Cristiano, então, disse que era comum o indivíduo fugir da realidade só de ver e saber que está perto do objeto fóbico. Então eu pergunto de novo: pra que submeter a pessoa a isso?!

Sad Bear HD Color
Crédito: HD Colors

O experimento de Nabuco consistia em exibir uma tela virtual com a presença distante de uma aranha, que se aproximava aos poucos. Renata mostrava que sentia taquicardia ao observar o ambiente e tremia fortemente com a possibilidade de se deparar com o animal a qualquer momento e de ter que enfrentá-lo. No processo completo do tratamento, a ideia é que o paciente seja capaz de movimentar o livro do ambiente virtual e derrubá-lo em cima da aranha, matando-a. Ou seja: aniquilando o medo. Talvez esse tipo de tratamento seja muito eficaz em situações que podem comprometer o cotidiano do paciente, como a fobia de elevador, por exemplo (aliás, uma mulher da plateia chorava só de contar sobre a fobia e foi vetada na experiência pelo próprio Nabuco, que disse não ser o caso recomendado pelo fato de que ela estava muito nervosa). Mas até pra isso a pessoa precisa realizar outros tipos de tratamento pra ser inserida aos poucos ao conceito de dessensibilização. Não dá pra colocar uma pessoa com sintomas físicos tão graves e incômodos de ansiedade sem ao menos prepará-la e preveni-la. Aliás, isso só faz com que eu questione ainda mais esse tipo de tratamento e sua eficácia, além dos malefícios que pode trazer para o indivíduo tratado. Qual é, afinal de contas, a necessidade de tudo isso? E se você tem fobia de coisas que não foram feitas pra serem saudáveis e têm a função justamente de trazer medo, além de colocá-lo em risco?

Tratar-se dessa forma não é pra qualquer um. Em muitos casos, isso tem o efeito contrário. Não questiono a qualidade de Nabuco como profissional. Acredito que isso possa ser eficiente em medos mais brandos, que só chegam a esse patamar através de um acompanhamento longo e muito delicado e que exigem outros tipos de técnicas psicológicas prévias. Mas realizar esse procedimento dessa forma em um programa visto na televisão é de uma irresponsabilidade e tanto, ainda que ele deixe claro que, pra testar essa experiência, a pessoa deve estar apta por toda uma equipe médica depois de uma bateria de testes. E não só da parte dele, mas de toda a equipe do programa, que permitiu que uma pessoa com um problema grave fosse submetida a um tratamento experimental. Por mais que tenha havido um consentimento prévio, é uma exposição desnecessária e extremamente arriscada. E se ela passasse mal ao vivo, como é que iam fazer?

Sad Doll Magic 4 Walls
Crédito: Magic 4 Walls

Respeitar o seu medo, sua fobia e contar com profissionais qualificados para tratá-los, como psiquiatras e psicólogos, é a melhor forma de resolver qualquer porém ou de mantê-lo afastado e sob controle. Ás vezes, os sintomas decorrentes de uma situação tão traumática quanto essa pode carecer até mesmo de tratamento medicamentoso. E, muitas vezes, a melhor resposta pode ser manter distância e fazer outras coisas muito mais saudáveis e que alimentem sentimentos e lembranças boas em você. Cada fobia diz respeito a uma única pessoa e à sua história – e não deve ser ridicularizada, pois você não sabe a extensão do problema e nem o peso que a pessoa carrega. Nenhuma fobia é bizarra. Nenhum medo é ridículo.

Piadas ruins, brincadeiras de mau gosto e tratamentos toscos não fazem parte da lista que melhoram a vida das pessoas. Qualidade de vida é o que a gente quer, acima de tudo. Favor, não ultrapassar limites!

* Crédito da foto de capa: Jennifer Stenglein Photography / Somewhere Magazine

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