A triste normalização da violência contra a mulher

Tive uma experiência desagradável dentro do transporte público. Daquelas histórias que você infelizmente se permite ouvir e acaba ficando tão chocada que não consegue desenvolver palavras necessárias pra descrever. Mas pelo menos tentamos.

Podia ser um domingo qualquer dentro de uma estação de metrô e trem. Eu andava em grupo e nós discutíamos sobre violência contra a mulher, as propagandas pouco eficientes espalhadas pelos vagões e até onde entra a discussão sobre o que é a cultura e onde ela pode e deve ser questionada.

Poucos segundos depois de termos iniciado essa discussão, um homem se fez ouvir dentro do vagão. Falava ao celular e, pelo tom de voz, tinha ficado mais do que claro que ele queria que todos que estavam ao seu alcance pudessem ouvi-lo. As palavras que ele jogou no ar pairou por longos minutos por ali. Deixou o ar pesado e nos calou.

“Ela me veio com a ladainha feminista de que podia competir comigo na força. A gente discutiu, fui pra cima dela e ela tentou revidar. Fiquei puto. Se ela achou que realmente podia tentar medir força com homem, se ferrou. Quebrei ela, empurrei contra o guarda-roupa. Ela caiu. Falei pra ela que, se ela realmente queria medir força, tinha que vir pra cima de mim pra me matar. Porque se você cai na porrada com alguém, tem que ter culhão pra aguentar as consequências”.

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Crédito da Foto: Worldwide Weird News

O sangue subiu dentro de mim. Ferveu, escorreu pelas minhas veias e borbulhou em cada um dos meus nervos. Como era possível eu, uma mulher, estar sujeita a ouvir um discurso como aqueles, que denunciava um orgulho do “macho alfa” agressor, que precisa da agressividade pra provar uma masculinidade construída na mais pura essência da covardia? Me pareceu, e ainda parece, absurda uma situação na qual um homem se gaba de agredir uma mulher, confessa isso em público e não tem ninguém em volta que tenha coragem de contestá-lo.

O silêncio pairou pesado dentro do meu grupo. Nós nos entreolhávamos e não conseguíamos dizer uma palavra que fosse. Só compartilhávamos expressões de horror e indignação. Ele continuava a falar que confrontou a família daquela mulher, que enfrentou o sogro e contou que a mulher era, essa sim, uma covarde que não conseguia assumir as consequências de seus atos. “Sua filha mexeu com a pessoa errada”. Naquele momento, eu fechei as mãos em punho. Tentei controlar a raiva e o instinto protetor que eu desenvolvi para blindar qualquer mulher das agruras de uma coisa tão terrível como a violência doméstica.

Minha atitude impulsiva foi a de filmá-lo e tentar usar suas palavras, tão cheias de um orgulho cego e um ódio obscuro, contra ele mesmo. Tentei arrancar dele uma confissão pelo celular, qualquer vídeo que pudesse servir como uma prova de seu comportamento monstruoso, de uma besta qualquer. Ele rinha que ser punido. Fiquei uns bons minutos com o aparelho erguido, aguardando ansiosa por um nome, por qualquer coisa que viria a ser útil para incriminá-lo. Mas me frustrava quando, a cada frase que passava, sua confissão parecia ainda mais distante e se encaminhava para uma conversa de camaradagem entre dois homens estúpidos. Eu estava determinada a ir até o fim e não finalizar o vídeo enquanto ele não falasse o que eu esperava que ele diria. Aquelas palavras horríveis que ele ousara afirmar poucos minutos antes. E foi então que ele me viu.

“Abaixa o celular”, minha irmã e meu namorado disseram, desesperados com o fato de que podia ser eu a pessoa posta em risco. Tentei fazer mais gravações, mas o instinto de me proteger falou mais alto. Aqueles olhos horríveis que me encararam, em uma expressão acusatória de raiva, foi apenas uma amostra do que a mulher que dividia a casa com ele, a quem anteriormente atendia pelo nome de “companheira”, “namorada” ou “parceira” enfrentou. E o que eu vi ali era o extremo da bestialidade. Uma coisa que deixou meu coração acelerado e descontrolado, fazendo com que eu temesse duas vezes: por mim e pela mulher que fora sua vítima.

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Crédito da Ilustração: Favim.com

Sobre essa história, escutei mais de uma vez: você não podia interferir, porque não sabe o que aconteceu. Acontece que, a cada minuto que se passa, esse tipo de atitude, que procura uma justificativa para esse ato tão brutal que é o de agredir uma mulher, se torna mais um impulso para a normalização dessa violência no nosso dia a dia. A cada minuto que se passa, pode ter certeza de que, em algum lugar do Brasil e do mundo, uma mulher está sendo agredida, e que cruzar os braços para isso é permitir que esse tipo de coisa continue acontecendo e sendo normalizado em uma quantidade imensa de diferentes culturas ao redor do mundo.

Meu cunhado me disse: “Cultura serve para ser questionada”. E a pergunta que me faço é a de que até quando alguma coisa pode ser usada como justificativa pra explicar esse lado cultural de cada povo? Em países da Ásia, África e Oriente Médio, mulheres são mutiladas, violentadas e assassinadas sob o manto da justificativa das culturas e das religiões. Se não fossem esses questionamentos, é provável que boa parte dos países desenvolvidos que temos hoje em dia ainda seriam tão retrógrados quanto esses que criticamos.

A questão é que, depois desse episódio, eu não consegui ir em frente com a denúncia porque não consegui captar algo que sustentasse a minha acusação. E o que se abateu sobre mim foi um misto de medo, tristeza e frustração tão grande que me deixou um gosto amargo na boca e um outro bem salgado de lágrimas bem sentidas. Achei que não fosse capaz de parar de chorar tão cedo. Havia testemunhado um relato cru de confissão de violência doméstica e não fiz nada. Isso acabou comigo e ainda me corrói por dentro. Eu poderia ter feito a minha parte. Mas não consegui.

A realidade é que, quando aquele brutamontes percebeu que eu o filmava, a reação instintiva que ele teve foi a de mudar de assunto e disfarçar emendando outro tema qualquer com o ouvinte atrás da linha. O problema é que eu não sei o que aconteceu com ele depois. Se a mulher que ele agrediu estava minimamente protegida.

Essas dúvidas me levam a ver que não: a violência contra a mulher não pode ser normalizada de jeito nenhum, sob nenhum aspecto ou justificativa. Ela deve ser combatida com as nossas garras. Sempre. Por todas nós.

* Crédito da Ilustração no topo do post: sir4life0/PixaBay

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