Crônica: Música, a linguagem dos anjos

Notas que flutuam no ar. Vozes que ecoam pelo espaço. Sons capazes de atravessar montanhas, furando os espaços deixados nas geleiras dos picos. Picos gélidos do cérebro e do próprio coração humano, cheio de intrigas em cada uma de suas complexidades.

Atravessar uma rua com buzinas altas, faixas mal intencionadas e motoristas desavisados enche de rancor o peito da criatura engolida. Mas pode ser amenizado pelo aconchego de fones de ouvido, que tornam até invisível a cantada desavisada sob a qual alguma mulher é obrigada a se submeter no meio de tanta barbaridade passada de boca a boca.

Loucura essa imaginar que a mesma criatura capaz de palavras tão malditas possa ser da mesma espécie daquele que dedilha ao violão sobre alguma saudade causada pela falta do mar. Que senta na rede para relembrar as agruras de um sertão longínquo. Das faltas das margens dos rios Guaíba, São Francisco e de tantas maravilhas que cortam o Brasil pelo meio, com o pôr do Sol despedindo-se de cada sotaque cantado como uma reza alta.

Incrível imaginar que, de um solo tão pobre e cheio de prantos por chuvas, existe alguém capaz de atravessar assovios e cantarolar sobre algum aspecto iluminado do dia. Que de cavalos selvagens atravessando os pampas, alguém é capaz de anunciar a paixão pela própria terra através de um som emitido pelos ares, mesmo na maior das dificuldades presentes.

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Foto: Magic4Walls

Do outro lado do mundo, através dos tempos, palcos ornamentados com ouro abrigaram óperas consagradas, concertos repletos de violinos, pianos e vozes femininas cantando sobre algum amor perdido. Compositores enlouqueceram plateias, ganhando explosões de cores em figurinos para suas tão melancólicas canções imortalizadas. Nada do que é musicado com o coração é capaz de morrer. Tudo que tem beleza é imortalizado.

À beira de um lago, embaixo do sol, uma mulher canta. Embalando um bebê no colo, entre a amamentação e o toque firme, um casal canta. Debaixo das águas da chuva ou do aconchego de um chuveiro bem aquecido, alguém canta. E do alto das nuvens, figuras andróginas e belas de asas mandam recados de que não há tristeza que sobreviva a uma boa música.

Não sei se o céu  tem harpas. Mas com certeza, foi dele que veio o recado ritmado avisando que, no fundo do peito, existe sempre um som capaz de tornar sublime e angelical a mais humana das experiências.

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