Por quê a Geração Y anda tão infeliz?

Tenho pensado bastante a respeito desse assunto e conversado com uma quantidade significativa de pessoas da mesma faixa etária. O resultado, como muitos bem sabem, não é exatamente agradável: vejo uma quantidade impressionante de pessoas que reclamam sobre ansiedade, sentimentos de vazio, incompletude, insatisfação no trabalho e nos relacionamentos. Os diagnósticos de transtornos aumentam e, junto com eles, um sentimento generalizado de infelicidade. E o pior: parece que todo mundo está no mesmo barco.

Mas afinal: você já parou pra refletir porque as pessoas da chamada Geração Y, jovens na faixa dos 20 ou 30 e poucos anos, andam tão infelizes? Por quê exatamente essas reclamações andam tão recorrentes?

Refleti muito a respeito e listei alguns motivos pelos quais a cabeça e o corpo desse jovens andam tão bagunçados. É claro que isso tudo envolveu reflexões pessoais, inclusive dos meus próprios sentimentos. Não sou perfeita mas, como todo ser humano, chega um momento em que o sentimento forte de ansiedade e incompletude precisam de um basta. Junto com isso, vem um longo processo de autoconhecimento. Haja terapia, amigos!

Eis o que eu concluí comigo mesma, e com a convivência com amigos e familiares da mesma idade e que sofrem desses mesmos problemas:

Os tempos mudaram

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Cena do filme “Um Senhor Estagiário”, com Anne Hathaway e Ribert De Niro. Uma lição sobre respeitar o tempo, sobre aceitar mudanças e aceitar aprender | Crédito: Divulgação

Você já se pegou imaginando como a vida era no tempo dos seus pais ou até mesmo dos seus avós? Em como eles saíram da casa dos próprios pais mais cedo, como eles conquistaram um carro e foram morar sozinhos com pouca idade?

Esse tipo de pensamento parece ser uma constante hoje em dia. Afinal de contas, muitas pessoas da Geração Y sequer terminaram uma faculdade ainda. Mas por quê isso precisa ser uma coisa tão ruim? Por quê é tão vergonhoso, pra muita gente, morar com os pais ainda aos trinta ou até depois disso? Por quê é verdadeiramente tão desesperador assim?

Os tempos mudaram. Adquirir a casa própria, morar de aluguel e encarar tudo isso por si mesmo, ou em um casamento, exigem muita maturidade, preparo psicológico e, sobretudo, financeiro. Tudo está, sim, muito mais caro e bagunçado, em uma série de fatores! E não adianta nos compararmos com culturas como a americana, onde os jovens vão morar sozinhos na faculdade. Nossa cultura e nossos hábitos, bem como nossa realidade, são muito diferentes! E está tudo certo.

Então pare, pense e reflita: um diploma não é sinônimo de grandes conquistas. Você precisa trabalhar duro, estabilizar em um lugar pra conseguir conquistar esse tipo de coisa e trabalhar arduamente por isso, tendo em mente que não acontece da noite pro dia e que é um processo longo, sim. Não há nada de errado em ficar na casa dos pais durante esse processo e não se sentir preparado pra sair. Enquanto isso, vale estabelecer rotinas saudáveis de convívio dentro de casa, como ter diálogo, dividir contas e tarefas domésticas. Isso, com certeza, é um suporte e tanto para quando você for andar com as próprias pernas. Mas o vínculo afetivo sempre vai durar, se essa for sua preocupação maior.

Os tempos mudaram, sim. Não é impressão de que tudo esteja muito doido e que tem uma quantidade absurda de mudanças acontecendo de uma forma geral. Mas com certeza, no final, tudo se resolve.

Relações vazias

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Em “Namorados Para Sempre”, Michelle Williams e Ryan Gosling vivem uma relação infeliz pela falta de diálogo | Crédito: Divulgação

Conversar com alguém pelas redes sociais, estabelecer grupos no WhatsApp ou no Messenger do Face nunca vão substituir uma bela conversa pessoalmente, o toque de uma mão amiga, o encontro pessoalmente com palavras ditas de uma forma real, onde seus verdadeiros sentimentos estão expostos – e não sujeitos à interpretação atrás das telas.

Sua vida não depende no número de posts que faz por dia no Instagram e quantas curtidas uma foto precisa pra você se sentir completo. A tecnologia tem suas mil faces boas, mas também pode ser extremamente destrutiva, sobretudo se você se vicia nas relações unicamente dentro delas e esquece os encantos da vida real.

Vejo pessoas reclamando que conversam com uma quantidade enorme de gente e que, no final das contas, continuam se sentindo sozinhas. Somos seres humanos, seres sociais, precisamos de convivência com outras pessoas, troca de experiências. Mas é fato que amizades verdadeiras são poucas, até porque é bem difícil manter um círculo  gigantesco de amigos no qual você possa sempre contar. Isso é uma das coisas dolorosas que mudam na transição da adolescência com a juventude e, posteriormente, a maturidade.

A gente demora pra aceitar que teremos um círculo menor de amizades, e que isso significa que precisamos lutar para mantê-las e valorizá-las. Levar o melhor amigo pra tomar um café, passear por ruas repletas de lojinhas bacanas com as amigas, marcar uma sessão de cinema. Tudo isso contribui pra diminuir o sentimento de vazio nesse mundão de meu Deus. E relaxa: as redes sociais têm muitas pessoas e você não vai conseguir dar conta de todas elas. E nem precisa!

Excesso de informação

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Mafalda definindo a vida! | Crédito: Divulgação

Em um de seus depoimentos sobre ansiedade, o psiquiatra e escritor Augusto Cury aponta que um dos grandes impulsionadores para essa sensação horrorosa é, justamente, o excesso de informação. O vídeo pode ser visto aqui.

Hoje em dia, a gente tem um milhão de formas de se informar sobre os mais variados assuntos, de diferentes formas e tudo de um jeito acessível. Só que minha gente: nosso cérebro também precisa de cuidados e, obviamente, não lida muito bem com os excessos. É claro que ele entra em colapso se é posto pra funcionar além de sua capacidade natural.

Somos estimulados das mais diferentes formas. Dentro de sites que impulsionam o consumo, que facilitam você favoritar o que deseja pegar pra si, nos inúmeros vídeos do YouTube, nas fan pages que impulsionam informações aos montes no Facebook (muitas delas, desnecessárias), no futricamento da vida alheia dentro do mundo virtual, nos downloads, nos aplicativos, no Netflix… O pior de tudo é que a gente acha que consegue dar conta de tudo isso sozinho e num curto prazo de tempo! E minha gente: é muita coisa pra conseguir lidar, não é assim que a banda toca não! Como diria o escritor Umberto Eco: “O excesso de informação provoca amnésia”.

Sempre vamos aprender, pro resto da vida. NUNCA vamos dar conta de tudo que está no nosso alcance e não precisamos. Um curso, uma faculdade e um diploma dentro de alguma dessas vertentes são apenas um capítulo de uma vasta e interminável fonte. Basta a gente se acalmar, ver aquilo no que deseja se aprofundar, entender que não precisamos dos excessos para sermos felizes e que nunca vamos saber tudo a respeito de tudo sempre. E que isso, no final das contas, é um alívio! Já dizia Sócrates: “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância”. Ter isso em mente não é fácil, mas com certeza diminui a cobrança pra saber de tudo, e descobrir que há uma glória e tanto em admitir: “Simplesmente não sei”.

“Joga no Google”

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“Não me diga que você escalou o caminho todo até aqui antes de tentar o Google?”, na ilustração de Pirillo Fitz. Calma, moço, não é bem assim… | Crédito: Pirillo Fitz

“- Eu queria propor-lhe uma troca de de ideias.
– Deus me livre”.

Esse textinho curto do Mário Quintana pode ser aplicado em muitas coisas positivas da vida. Quando você simplesmente quer se poupar de um estresse absoluto discutindo sobre alguma coisa que não te leva a lugar algum (tipo opiniões sobre partidos políticos), evitar temas que possam gerar um estresse desnecessário e até falar com alguém que não te faz bem, que destrói sua auto-estima e que te faz ter uma gastrite nervosa desgraçada.

O problema é quando você se fecha em um canto, sente orgulho de ser antissocial e não pertencer à casta de pessoas que precisam se relacionar e depois fica caçando motivos pra justificar sua solidão e infelicidade. O Google da Geração Y é um alívio e uma maldição ao mesmo tempo. Ele contribui pra conhecimentos, mas também contribui pra os excessos de informação ditos anteriormente e pro isolamento. A graça de saber alguma coisa é justamente a arte de poder compartilhá-la. Se alguém lhe pergunta alguma coisa, por mais óbvia e estúpida que lhe pareça, para o outro ainda é uma dúvida. E honestamente: qual o problema em saná-la e contribuir pra trazer diálogos e até um pouco de conhecimento pra essa pessoa? Ô comentário da preguiça!

Me parece que os jovens de hoje em dia se fecham muito pra se relacionar com as pessoas. Muitas vezes por preguiça. Por mais bem informadas e de mente aberta que sejamos, empacamos em coisas extremamente importantes para a sobrevivência como seres humanos: o convívio social, a aceitação de opiniões divergentes e o estresse absoluto acima de qualquer coisa que fuja do controle. Isso gera impulsividade. E dá merda.

Dá pra conviver com as pessoas de uma forma saudável e não acreditar que a resposta pra tudo está no Google ou em outras formas de informação digitais. Diminui-se a importância do convívio social pra sanar dúvidas e desvaloriza-se profissionais porque a crença é que a resposta pra tudo não está nas pessoas. Quantas vezes você, por exemplo, já não se diagnosticou com uma doença porque o resultado de um exame te levou a pesquisar sobre isso e, chegando ao médico, descobriu que não tinha absolutamente nada a ver com o que você estava pensando. O ser humano é insubstituível em uma série de coisas, por mais que sejamos hesitantes em admitir isso.

Excesso de cobrança e idealizações

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“Whiplash – Em Busca da Perfeição” mostra como o excesso de cobrança pode ser prejudicial | Crédito: Divulgação

Eis, aqui, mais uma coisa da qual achamos que podemos dar conta. O tempo inteiro nos cobramos, pra tudo na vida. Pra termos dinheiro o suficiente, pra sermos os melhores em tudo o que fazemos, não aceitarmos que podemos errar, que o emprego dos sonhos não existe da forma como imaginamos (já que todos os trabalhos exigem, sim, muitas coisas de nós), que não existe não como resposta, que muitas coisas são motivos de derrota, e não percalços naturais da vida.

De uma forma geral, fomos condicionados a encarar o mundo de uma forma mais idealizada e sonhadora. E ver como muitas coisas funcionam na prática soa, sim, muito assustador. Isso faz parte do doloroso processo de amadurecimento, sobre o qual escrevi aqui. Ele não é fácil, se tornar adulto é um processo bem chato. Mas ao mesmo tempo, vem um lado positivo de encarar o lado racional da vida, porque ele pode muito bem ser um impulso interessante apara auxiliar nossa vida, inclusive na realização dos nossos sonhos.

O ser humano precisa de sonhos, afinal ele é uma das coisas que mais nos movem. Mas idealizar em excesso provoca uma infelicidade tremenda, pois faz com que não aceitemos erros, não aceitemos defeitos de outras pessoas e nem que alguma coisa possa eventualmente fugir de nosso controle, que não cabe a nós resolver. E aí entram mais cobranças, mais infelicidade e um processo tão chato que esgota as nossas forças e gera mais questionamentos.

Não há nada de errado em ser um 9, ao invés de um 10. Não há nada de errado em pedir ajuda pra dar conta de muitas coisas – como eu já disse muitas vezes, ao contrário do que muita gente pensa, isso é um belo sinônimo de força.

Ansiedade

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Em “Terapia de Risco”, com Rooney Mara e Channing Tatum, a personagem Emily Taylor sofre com crises de ansiedade e depressão – antes de descobrirmos várias reviravoltas no filme | Crédito: Divulgação

Por fim, cito ela. Essa demônia sem vergonha que tanto assombra nossa vida nos dias de hoje.

A ansiedade é nossa velha conhecida. E isso vem muito do sentimento fresco de acreditar que é possível agarrar o mundo com as próprias mãos.

Sabe aquela história de colocar a semente na terra, regar e cuidar com carinho durante semanas e depois começar a esperar o resultado surgir? Pois então: não aprendemos isso. Com a aceleração nos tempos de hoje e esse grau gigantesco de impaciência, a vontade que temos é de que essa planta cresça no dia seguinte e que já possamos colher e fazermos o que bem entendermos com ela.

Esperar é uma palavra que parece pouco usada nos dias de hoje. Que parece impossível e inadmissível. Mas é preciso pensar duas vezes, respirar fundo, adquirir hábitos saudáveis e evitar o que possa nos expôr a esse tipo de sentimento, que não resulta em nada e pode ser o estopim pra coisas muito mais sérias, como transtornos e até depressão.

As coisas acontecem no seu tempo. A nós, cabe fazer a nossa parte e entender que nem tudo é culpa nossa. A entender que muitas coisas podem demorar pra vir e que isso exige um processo de trabalho árduo da nossa parte.

Eu sei bem como é lidar com todos esses sentimentos. Mas o que posso dizer é que, no auge da minha juventude, espero de verdade que as coisas melhora, que possamos encarar tudo de uma forma mais leve. Porque eu sei, minha gente: fácil é uma coisa que não está, não!

Mas melhora! ❤

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