Crônica: A dor de amadurecer

Tornar-se adulto não é um processo fácil. Aliás, eu costumo dizer que é um processo traiçoeiro, doloroso e que gera muita ansiedade e dúvidas.

Pra começar, nada como citar o exemplo da imagem que ilustra o início desse post. Quando o primeiro filme da série Toy Story, da Disney/Pixar, estreou, eu era uma menininha que brincava de boneca. Me recordo até hoje de sentar na sala da minha casa, brincando enquanto assistia ao filme e escutando os passos da minha mãe na cozinha, que alguns minutos depois me trouxe um belo bolo de chocolate cheio de cobertura. Aliás, costumo dizer que memórias boas prevalecem e tem a capacidade de sobrepôr qualquer lembrança ruim, porque elas se tornam irrelevantes, fracas e medíocres, como elas merecem ser. Então toda vez que vejo os créditos iniciais desse filme, me lembro de estar em casa, com a pessoa que mais amo na vida, com meus brinquedos favoritos e comendo o bolo que eu mais gosto.

Anos depois, veio a continuação, Toy Story 2. Acho interessante como o filme aborda justamente certas questões que nos acompanham conforme nós vamos crescendo. Sobre começar a abandonar os brinquedos pra cuidar de outras coisas (olha aí a gente falando: “Mas eu nunca vou abandonar a minha boneca!”). Sobre aceitar que brinquedos não duram pra sempre, começar a se adaptar com certas mudanças. E então, por fim, veio o final da trilogia, com a parte mais dolorosa de tudo isso: a gente cresce, e parar de brincar com os nossos brinquedos torna-se inevitável, assim como abandonar a rotina reconfortante de ficar na sala, com o bolo quetinho da mamãe.

É claro que todo o processo de crescer tem suas vantagens: maior autonomia, a possibilidade de entrar em lugares que antes não podíamos, de poder viajar e por aí vai. Por aí vai? Calma aí, qual é exatamente a coisa mais maravilhosa do mundo no processo de crescer? Você deixa a tua boneca Jessie ali no canto ou acaba doando porque não sente mais vontade de brincar com ela – e precisa aceitar e colocar na tua cabeça que isso é um processo natural, que faz parte da vida e todo o blá blá blá generalizado que vem com isso.

Você tem que abandonar velhos hábitos, entender que tem novas responsabilidades. Que precisa estudar, e que estudar é pra vida toda. Que precisa entrar na faculdade e depois entender que só ela não é o suficiente pra te dar estabilidade e até a chance de entrar e permanecer vivo no mercado de trabalho. Precisa se virar por si mesmo, e entender que nem sempre pode recorrer aos teus pais ou a quem te criou pra pedir socorro. Que não se pode sair de sua cama para compartilhar a cama deles porque você teve pesadelo, porque não está conseguindo dormir sozinho. Não se pode ficar desconfortável em dormir sozinho, é preciso superar um pesadelo sem ajuda e não se pode ter medo do escuro. Quanta chatice e quanta balela!

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Andy, em ‘Toy Story 3’, doando seus bonecos para a fofa da menininha Bonnie. Jesus, me salva! | Crédito: Divulgação

O processo de amadurecer é penoso de diversas formas. Como seres humanos, criaturas sociais e cuja criação e manutenção de hábitos e rotinas é essencial e saudável, não conseguimos entender de imediato porque tantas mudanças ocorrem. Se antes a gente passava horas bebendo e interagindo dentro de uma balada, hoje a gente acha estranho preferir fazer uma janta regada a um bom vinho pros amigos, grudar no namorado pra ir no cinema ou passear com a família.

Se antes os amigos eram tantos e numerosos, hoje eles se reduziram e você passa a ter um seleto e pequeno grupo no qual confia – o que inclui, também, pessoas da sua família. Se antes eram madrugadas adentro vendo séries, conversando, assistindo filmes e fazendo tantas outras coisas, como uma verdadeira coruja, hoje você passa a valorizar mais a noite de sono e o ato de cantar como um galo quando a manhã chega.

Isso é, na maior parte das vezes, meio difícil de aceitar. Porque é complicado entender que a gente muda, que a gente cria novos hábitos e que, ás vezes, somos tão diferentes do que costumávamos ser que passamos a nos ver como outra pessoa, com sonhos completamente diferentes do que foi anteriormente previsto. Que somos mais pés no chão, mais realistas e menos sonhadores. Que temos responsabilidades como pagar contas e que nos sobra cada vez menos tempo de fazer o que anteriormente havíamos planejado tanto.

Amadurecer é doloroso. É se despedir de uma parte de si mesmo e entrar num processo que, muitas vezes, precisa de uma ajuda firme e um empurrãozinho pra te fazer ir em frente e não olhar muito pra trás. No meio do caminho, muitas dificuldades acontecem. Afinal, a vida é uma eterna luta. Uma luta contra si mesmo.

No final das coisas, talvez o excesso de preocupação venha muito da nossa cobrança pra dar conta de tudo – coisa que não conseguimos fazer. Os tempos são diferentes. Manter uma casa hoje em dia é bem mais difícil. E faz parte aceitar que a gente muda e quer abraçar a mudança e essa nova pessoa dentro de nós mesmos, que muitas vezes pode nos trazer coisas bacanas, sim!

Não tem problema em achar esse processo complexo – porque ele é assim mesmo e dói no coração. Não tem problema em ainda precisar de ajuda, porque a gente leva um tempo até se acostumar com isso. Também não tem problema nenhum em ficar com os pais e morar com eles por um tempo, aceitando que tem que estar bem preparado pra fazer a mudança bombástica que é se mudar e aguentar o tranco por si mesmo, como a linda da Bia Jiacomine falou nesse vídeo. A gente tem uma mania de achar que vai ser tudo maravilhoso e que não vai ser difícil… Mas é complicado dar adeus a muitas coisas e amadurecer. Isso não significa que não vamos conseguir. Muito pelo contrário: talvez venha a ser ainda mais natural do que a gente imagina.

Mas que é chato, céus: disso não há dúvidas!

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“Eu tentei ser um adulto, mas não era pra mim”
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“Ser um adulto é a coisa mais estúpida que eu já fiz”
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“Eu coloquei muitas expectativas nisso, mas eu não acho que ser um adulto vai funcionar pra mim”.

 

 

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