Resenha Literária: “A Irmã da Tempestade”, de Lucinda Riley

“Em momentos de fraqueza, você vai encontrar sua maior força”.

Essa é, sem sombra de dúvidas, uma das frases mais impactantes do livro “A Irmã da Tempestade – A História de Ally”, a continuação do livro “As Sete Irmãs”, da escritora irlandesa (e maravilhosa) Lucinda Riley. Lucinda, aliás, é uma das minhas escritoras favoritas e uma das pessoas que eu adoraria conhecer sob qualquer hipótese. Uma vez, mandei um e-mail para ela agradecendo por todos os benefícios, incluindo boas distrações, que seus livros me trazem.  E ela me respondeu da maneira mais delicada e amável possível, coisa que eu não esperava e que, obviamente, me fez saltitar que nem boba durante semanas.

O primeiro livro da série, que contará com mais cinco livros, com certeza ganhará uma resenha à altura aqui no blog. Mas enquanto esse dia não chega, vou detalhar minhas impressões a respeito desse livro, que eu considero um de seus melhores sob o ponto de vista de narradora e pesquisadora. É claro que, desde que descobri “A Casa das Orquídeas”, tenho devorado seus volumes e, a cada dia que passa, a considero uma autora mais e mais incrível.

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O livro fofo em cima da minha mesinha da sala | Créditos: Camila Honorato

A frase com a qual abri esse post é dita em um contexto doloroso, e não representa, sob hipótese alguma, a teoria de que passar por dificuldades nos torna seres humanos mais fortes, sábios e felizes. Nunca acreditei nessa afirmativa, e posso garantir que não sou grata por nenhum momento difícil ou por nenhuma dor que tenha passado. Em alguns dos encontros budistas dos quais participei, me deparei com pessoas que não valorizavam o sofrimento sob a ótica de que isso é um “mal necessário”. Ele não é um mal necessário e só faz doer, como seu próprio nome sugere.

Ouvi muitas pessoas dizendo que o sofrimento em si não serve de nada, mas que infelizmente é uma dificuldade com a qual os seres humanos se deparam, sem encontrar justificativas plausíveis para tanto. E é aqui que entram os questionamentos em um planeta tão cheio de dúvidas e maluquices, mas que, ainda assim, tem coisas maravilhosas para serem vistas.

Concluindo meu raciocínio e parafraseando muitos dos palestrantes com os quais me deparei: você é o agente transformador desse sofrimento porque, dentro de si, possui forças necessárias e descomunais para impulsionar sua melhora, inclusive quando reconhece que precisa de ajuda e corre atrás dela. A superação da dor se dá quando você resolve que quer passar por cima dela e lutar. É você que transforma isso em aprendizado, não a dor em si. E foi dessa forma que eu interpretei a frase do livro.

Sob muitos aspectos, Ally é diferente de sua irmã Maia, a estrela do primeiro livro, com raízes brasileiras e calcadas na cidade do Rio de Janeiro. De cabelos claros, arruivados e levemente encaracolados, com pele branca e muitas sardas graciosas (o que me fizeram lembrar da figura angelical da atriz Rachelle Lefevre), a irmã Alcíone da constelação das Sete Irmãs, que impulsionaram a adoção das seis pequenas procuradas por Pa Salt, um rico velejador, descobre que suas raízes são norueguesas e calcadas na música, com uma ligação e tanto com o compositor Edvard Grieg.

Durante todo o livro, Ally passa por tantas dificuldades, dores e descobertas extraordinárias, que não param somente com a morte de seu pai adotivo, que a única coisa que conseguimos pensar nesses momentos é que não, não somos os únicos a estarmos em um momento particularmente delicado da vida e que realmente: não tá fácil pra ninguém, não! São perdas realmente dolorosas, que culminam na decisão de abandonar a carreira na qual ela ocupava como velejadora e partir para os picos altos noruegueses a fim de descobrir suas origens e retomar sua paixão pela música e como uma talentosa tocadora de flauta.

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A irlandesa Lucinda Riley, uma das escritoras mais queridas da atualidade | Crédito: Divulgação

No meio do processo, ela descobre sua ligação com Anna Landvik, uma bela camponesa ruiva que vive no interior do país, sem qualquer dote como dona de casa e cuja voz encanta qualquer um que a ouça. Descoberta por um professor renomado da capital Oslo, antiga Christiania, ela parte para a cidade com o sonho de se tornar uma cantora famosa, mas acaba tendo tantos problemas, dores e dificuldades que a gente simplesmente pensa: Lucinda chega, mulher! Não aguento mais isso não…

Para compor a história de Anna, Lucinda se inspirou na lenda acerca da estreia de “Peer Gynt” no antigo e extinto teatro da capital norueguesa. Escrita por Henrik Ibsen, a obra sobre um jovem boêmio e errante foi musicada por Grieg e ganhou os palcos, além de iniciar certo conto de que, durante a primeira apresentação, havia uma bela voz fantasma ecoando por trás da orquestra. Graças ao bom Deus, Lucinda não recorreu a uma história sobrenatural e nos deu uma justificativa plausível, falando sobre Anna, seu envolvimento com o violinista e pianista Jens Halvorsen (um verdadeiro canalha, como a própria personagem diz e por quem acaba se apaixonando) e a mudança drástica dos rumos de sua vida.

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A bela e charmosa cidade de Oslo, capital da Noruega e antiga Christiania, onde a história do livro é ambientada | Créditos: Divulgação

Como se não bastasse o sofrimento de Ally e Anna, depois de algumas páginas nós nos deparamos com o drama que acomete duas gerações posteriores ao casal Landvik-Halvorsen. Este último, porém, fica situado na Segunda Guerra Mundial, no Holocausto, nos dramas vividos pelos judeus e nas tragédias que acometeram os apaixonados Pip e Karine. E aqui fica claro: o Holocausto é muito presente nas obras da autora, o que me faz pensar no quanto essas histórias a impactam e se não teriam algo a ver com suas origens… Isso é uma curiosidade que eu realmente gostaria de saciar conversando com a autora. Um dia eu chego lá, tenho fé!

Sob o ponto de vista dramático, o livro pode se tornar bastante cansativo. Há momentos em que o leitor simplesmente precisa descansar e arejar os próprios pensamentos diante de tanta tragédia. Nesse ponto, a história de Maia no primeiro livro é muito mais leve – e igualmente criativa. No entanto, o principal ponto positivo da obra é o quanto fica nítida a pesquisa e dedicação extrema da autora para correr atrás de informações sobre velas, riscos nos mares e música clássica. Acredito que ela simplesmente tenha implorado por algumas férias depois de tudo isso e deve ter ido descansar por um período mais do que justo.

Por fim, é interessante vermos como os rumos de uma pessoa podem mudar drástica e completamente. Ally praticamente deixa de se tornar uma pessoa para virar outra, abandonando os riscos em alto-mar para se dedicar à paixão pela flauta. Duas faces fortes dentro de si mesma. Mais do que uma leitura descompromissada, “A Irmã da Tempestade” é uma imersão extremamente criativa na cultura.

Ouça uma das belas trilhas-sonoras do livro: a primeira parte da suíte Peer Gynt, de Edvard Grieg, inspirada na obra de Ibsen:

CLASSIFICAÇÃO: ♥♥♥ (Bom)

Grau de Tragédia: ***** (Intenso. Prepare uma caixa de lenços).

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