Crônica: Viver e escalar

Há uma linha tênue que separa o ato de viver do ato de escalar. E há muito dos dois que se fundem em uma coisa só.

Cheguei a essa conclusão em uma bela tarde de domingo ensolarado, quando me sentei e me pus a conversar com uma mulher, amiga de longa data de minha família. Na ocasião, estavam todos reunidos pra comer feijoada – o que me pareceu engraçado, já que feijoada e calor são duas coisas que não combinam entre si.

Mas o que combinou com o assunto, com aquele sol e aquela atmosfera alegre, foi a fala otimista daquela mulher, do bem estar que exercícios físicos tinham feito em sua vida e de como ela tinha superado uma fase difícil despertando sua atenção para uma paixão nova: a escalada.

Ela me contou que toda sua ansiedade era aplacada no exato momento em que ela se deparava com uma superfície íngreme, com o topo a se perder de vista. Seus pensamentos, sempre focados no momento seguinte e na expectativa do desenrolar dos fatos, relaxavam diante do objetivo de subir cada pedacinho do lugar que o instrutor propunha.

– Você não tem medo de altura? – perguntei.

– Tenho e sempre tive. Vou continuar tendo. Mas quando você escala, seu foco é continuar subindo. E quando você alcança seu objetivo, sempre tem o instrutor ali pra segurar sua mão e fazer com que você desça em segurança.

Olhei para ela e sorri. Não pude deixar de fazer associações com a própria vida, refletir sobre tudo o que vivemos. Há momentos em que você anda em linha reta, mergulha ou, por fim, escala. Escalar, em montanhas e na própria vida, é um ato difícil: requer esforço, concentração e suor. Ás vezes você tropeça em um obstáculo, e pra continuar subindo precisa respirar fundo, se concentrar e observar qual é o melhor lugar para colocar suas mãos e seus pés. Ás vezes você se solta da montanha, e precisa segurar na corda que te prende, pedir ajuda para retornar ao caminho. Há que se fazer o possível para não desistir e simplesmente soltar a corda, e não há nada de errado em levantar a mão e pedir que outra o ajude a impulsionar a escalada.

O medo, na maior parte das vezes, não desaparece. Mas você aprende a lidar melhor com ele respeitando-o – e respeitando os seus limites. A altura está ali, e não há motivos para olhar para baixo e sentir vertigem tentando se libertar de um medo ao qual basta o respeito e o distanciamento. Você pode ter medo de altura e andar de avião, porque quer visitar o país dos seus sonhos (para isso, há recursos que podem te ajudar a lidar com o voo). Você pode ter medo de altura, mas pode escalar e focar teus pensamentos em cada passo.

No final, o que encanta na escalada é a visão maravilhosa que ela proporciona, o sentimento indescritível de vitória e os braços acolhedores que te tranquilizam depois de um longo esforço.

E assim é a vida! ❤

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