Crônica: Sobre amor e acolhimento

Amor não é fogo que arde sem se ver, mas certamente é ferida que dói e não se sente. Camões versava sobre a dualidade de um amor, da dor que recai sobre os indivíduos quando o mesmo dá as caras por aí.

O amor não é fogo. Ele pode se reduzir às cinzas. Mas seu estado inicial é sempre de brandura. De acolhimento. O amor não se resume a duas peles se tocando como dois amantes desenfreados que gemem em êxito madrugadas adentro. O amor é perdão. O amor é segurar na mão do outro e perguntar se ele deseja comprar um livro naquela livraria gigantesca no meio da cidade grande – e estar ali para lhe fazer companhia e perguntar sobre quais versos modernistas mais lhe apetecem e tocam o fundo de sua alma.

O amor não precisa de frases feitas. Um olhar ás vezes basta. Mas o amor se transforma com o tempo: da ansiedade e das borboletas no estômago, vêm a parceria e a calmaria. Da tempestade, vêm as ondas do mar num dia de verão calmo. Das trilhas desenfreadas cercadas pelo mato, vêm a caminhada na floresta e o encontro com as borboletas. E do alto de uma árvore ao longe, a mais gigantesca do bosque, um pássaro canta.

love-man-woman-silhouette-sun-sunset-sea-lake-beachother1_1
Crédito: StockSnap

Não espere que o amor seja como no início. Mergulhar em um mesmo rio duas vezes não é uma experiência igual. Na primeira vez, as águas e as criaturas lhe são desconhecidas – e o medo se apossa do seu ser, por temer o que se pode encontrar nos caminhos à frente. Na segunda vez, já se pode memorizar os caminhos, relaxar sob a superfície. Não é uma experiência igual, mas é mais acolhedora.

E o que faz ser tão especial mergulhar uma terceira, quarta ou até quinta vez nesse rio? Alguns podem se entediar diante de caminhos tão conhecidos. Mas quem procura no fundo de seu ser, certamente vai descobrir que a graça está em poder nadar nu nesse rio. Em poder dar cambalhotas em seus mergulhos. Em não precisar temer, pois a calmaria e o conhecimento lhe são preciosos.

O amor não precisa duvidar de ti para fazer-te correr atrás de seus maiores sonhos. Isso não é impulsionar ou se fazer crescer. Realizar-se não é sinônimo de ser empurrado pela dor. O amor segura em tua mão e pergunta-te o que desejas. O que pode fazer pra ajudar. E se pode sonhar junto e estar por perto para lembrar de tal conquista.

O amor é respeito mútuo. É alimento da vida. É levar o outro para ver um pôr do sol e garantir que, ali, estará uma tranquilidade indescritível. É respeitar a vontade do outro e saber que há um meio de dois sonhos distintos terminarem em uma estrada harmônica.

Porque quem se cansa de um rio e um pôr do sol não procura um amor: procura uma tempestade que nem sempre há de lavar a alma.
Mas quem percorre esses caminhos, sempre dá um jeito de buscar algo nessa trajetória que lhe faça transcender.

Porque o amor transcende. Transborda.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

w

Connecting to %s