Resenha Literária: “A Distância Entre Nós”, de Thrity Umrigar, escancara desigualdade na Índia

Esse ano, iniciei um projeto pessoal: não importava quantos livros eu lesse, mulheres ocupariam a metade ou mais da minha lista de preferências literárias. Até agora, tenho sido bem sucedida nos meus planos: elas são 50% de uma lista com catorze títulos que li até agora em 2015, todos muito bons. Desde o começo do ano, passei a prestar mais atenção nas minhas escolhas para valorizar o papel das mulheres nas letras – ideia que ganhou mais força quando li um texto de Natacha Cortêz, da Confeitaria Mag, a respeito da importância de falarmos desse assunto. LEIA O TEXTO AQUI. 

Dentre as minhas escolhas recentes que merecem atenção, destaco A Distância Entre Nós, da escritora indiana Thrity Umrigar. Nascida em Mumbai, a autora mudou-se para os Estados Unidos já adulta, formada e com uma carreira promissora. Seus livros trazem sua terra natal como pano de fundo das histórias que escolhe, repletas de personagens fortes e dolorosamente reais. Nesse, por exemplo, a questão abordada gera reflexões e controvérsias em muitos países em desenvolvimento (inclusive no Brasil): a relação entre patroa e empregada.

IMG_20150831_155938182_HDR
Um dos bons livros da minha estante, fazendo pose na minha janela | Crédito: Camila Honorato

Bhima, uma mulher de meia idade, carrega no corpo o cansaço de passar a vida inteira servindo a outras casas. Pobre, de pele escura e analfabeta, encontra-se emocionalmente instável ao descobrir que sua neta, Maya, está grávida. Na Índia, um país onde um casamento arranjado ainda é de grande importância para a cultura e sociedade (patriarcal) local, sobretudo para as mulheres, a gravidez indesejada e não planejada de uma jovem pobre e solteira representa uma desgraça irreversível. Letrada e inteligente, Maya é a antítese de sua avó: é doce, cheia de sonhos. Com a descoberta, para de frequentar a faculdade, fica reclusa e indecisa quanto a aceitar o dinheiro para o aborto – oferecido pela patroa de sua avó, Serabai, que ocupa o outro ponto da extremidade.

Rica e elegante, Sera tem uma relação com Bhima que desperta sentimentos contraditórios no leitor. Apesar de permitir certas “liberdades” não condizentes com a postura exigida pelos patrões parses, como bancar os estudos da neta de sua empregada doméstica, ela ainda assume atitudes que incomodam até à sua própria filha, Dinaz. Entre elas: recusa-se a aceitar que Bhima sente em cadeiras de sua casa, indicando que até mesmo as refeições da mulher sejam no chão.

Isso sem falar no incômodo provocado pelo lugar no qual Bhima mora: uma favela em Mumbai, decadente, cujos detalhes não são poupados pela autora. Quando a narrativa se desenrola no triste episódio em que Sera a visita nesse lugar decadente, somos tomados pelas sensações que atormentam a personagem: os cenários sujos pelos excrementos nas ruas, o cheiro podre e intenso que dá náuseas e tonturas.

thrity-umrigarjpg-5a64e8779f65f6521
A excelente escritora Thrity Umrigar | Crédito: Divulgação

Apesar da posição privilegiada, Sera enfrenta seus próprios dramas e demônios. Colhe os frutos das más lembranças de um casamento infeliz, marcado pela presença constante e aniquiladora de uma sogra doentia e um marido violento, Feroz – uma alusão prudente. A personalidade sombria dessa figura masculina é de provocar revolta com as constantes agressões verbais e físicas às quais submetia sua mulher. A personagem, do auge se seu sari bem desenhado, compara sua rotina com a de Bhima e Gopal, que, apesar de tudo, ainda tinham um casamento feliz. Com o passar dos capítulos, logo percebe-se que ambos tornam-se vítimas da corrupção que tanto favorece os poderosos – e é com esse episódio que a relação de ambos decai, jogando-os na miséria dos barracos da cidade.

Por outro lado, a neta de Bhima, Maya, muda drasticamente: cria repulsa pela família de Sera e questiona a reverência com a qual sua avó a trata. Às voltas com uma gravidez indesejada, compara-se com a filha da patroa, Dinaz, que também espera um filho, mas se encontra num casamento feliz e promissor.

A trama bem delineada ainda guarda algumas reviravoltas, que incluem uma armação, um estupro e uma mudança brusca de relações. Mais do que relatar o drama tão intenso e sórdido de duas personagens tão diferentes em suas castas, mas tão iguais na dor de serem mulheres em um país tão patriarcal, Thrity denuncia as injustiças sociais, o machismo e a violência com louvor. Uma leitura que, ao final, provoca reflexões e um sentimento urgente de mudar.

CLASSIFICAÇÃO: ♥♥♥♥♥ (EXCELENTE). 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s