Crítica Musical: O saldo do Lollapalooza 2015

Por Larissa Honorato / Fotos: Larissa Honorato e Lucas Souza.

A quarta edição do Lollapalooza Brasil, que aconteceu no último final de semana (28 e 29 de março) no grandioso Autódromo de Interlagos, trouxe uma visão de público no mínimo contraditória: se para alguns havia pouca gente, para outros (inclusive eu) houve a certeza de que os gramados do festival estiveram muito mais ocupados do que nas edições anteriores – o oposto do que a mídia espalhou por aí.

Como todo bom evento termina com um grande saldo de prós e contras, eis abaixo as minhas impressões quanto ao Lolla deste ano.

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Crédito: Larissa Honorato

Estrutura

As melhorias visíveis da atual edição ficaram por conta dos patrocinadores – o que resultou em mais investimentos. As áreas de lazer ficaram mais aconchegantes, com balanços entre os palcos Skol e Ônix, tendas com samambaias (plantinhas que fizeram uma senhora diferença no primeiro dia do evento), caixotes de feira customizados com almofadas, montanha-russa (ou quase isso), espaço Skol para cerveja e música, espaços para selfies (que pareciam nunca ter fim), food trucks e, claro, o polêmico Chef Stage.

A moeda criada nesta edição, intitulada mango, foi algo bem desvantajoso: as filas para comprá-la eram enormes e os sistemas de cartões raramente funcionavam bem – o que causou confusão entre os consumidores, que quase sempre se esqueciam da conversão (1 mango era equivalente a R$ 2,50). Os preços, por outro lado, foram um capítulo à parte:  era tudo MUITO caro. Desde os ingressos (o valor do Lollapass estava cerca de R$ 60 mais alto do que no ano passado) até os produtos vendidos na arena, que incluíam cerveja a R$ 8 e água de 300ml a R$ 5.

As opções de comida oferecidas pelos food trucks e pelos chefs giravam em torno de R$20 ou R$25. Levando em consideração que muita gente já ia alimentada para o festival, ou levava na mochila alguns alimentos industrializados, os valores exorbitantes foram um verdadeiro tiro no pé. Dessa forma, alguns (pouquíssimos) preços foram reduzidos no domingo.

Toda paquitona na frente do painel do Lolla
Toda paquitona na frente do painel do Lolla, posando pro namorado ❤ | Crédito: Lucas Souza

A organização na entrada e saída do festival sofreu algumas complicações. Em suma: havia poucas pessoas para orientar e informar. Os mapas, distribuídos em larga escala nas edições passadas, fizeram uma falta danada nesta edição. Em compensação, o caminho foi encurtado entre os palcos, o que poupa bastante energia. Por outro lado, é preciso que a produção esteja mais atenta ao som. Um exemplo: no domingo, depois que saí do show do The Kooks no palco Ônix, consegui ouvir claramente os vocais da Pitty. Isso tudo com os palcos sendo completamente opostos.

O pior saldo, no entanto, foi externo. Minha gente, o que foi a CPTM? Impressionante como os caras insistem em deixar as plataformas e trens vazios com mais de 50 mil pessoas tentando entrar na estação. Se no ano passado não consegui chegar a tempo de pegar o metrô, dessa vez passei raspando: consegui embarcar no trem exatamente uma hora depois de sair dos portões do festival – o que em si já é um parto! Pegando o trem depois da meia noite, acabei apelando e chorando por carona. Porque né… Não dá!

Mas como o festival é sobre música, aqui vamos nós! Eis abaixo o saldo final das apresentações.

Os shows do Lolla 2015

Noelle Scaggs roubando a cena no show do Fitz and the Tantrums
Noelle Scaggs roubando a cena no show do Fitz and the Tantrums | Crédito: Larissa Honorato

No sábado, consegui assistir às apresentações de Fitz and the Tantrums, ALT-J, Robert Plant e Jack White. Sobre o primeiro, consigo dizer que foi, no mínimo, surpreendente. A potência da vocalista Noelle Scaggs, a interação dos membros da banda entre si e com a plateia, a energia de todos em cima do palco… Foi incrível! Destaque para o cover de Sweet Dreams (Are Made Of This), do Eurythmics – que conseguiu levantar até o público mais maduro, presente pela apresentação do ex-líder do Led Zeppelin.

ALT-J: show competente, porém morno
ALT-J: show competente, porém morno | Crédito: Larissa Honorato

Sobre o ALT-J: falta aquele QUÊ a mais para conseguir prender os olhos da plateia. Os músicos ainda pouco se esforçam para conseguir um contato mais próximo com o público. As músicas com toques eletrônicos e elementos diversos, tais como as castanholas, eram de qualidade e muito bem feitas. No entanto, nenhuma delas foi suficiente para tornar o show um grande diferencial do evento. Apesar disso, o público animou-se na balada Matilda, em Taro e no hit Breezeblocks.

Robert Plant: a pipa musical do vovô ainda sobe demais
Robert Plant: a pipa musical do vovô ainda sobe demais | Crédito: Larissa Honorato

Robert Plant, por sua vez, atraiu pessoas de todas as idades – desde crianças de oito anos até senhores de 55 anos ou mais. Confesso que não esperava muito do show dele, até porque acreditava que lhe faltaria o vigor dos tempos de Led Zepellin. No entanto, foi bem surpreendente e com uma qualidade sonora pra muita banda nova aprender.

Ao mesmo tempo em que os 66 anos do vocalista ficam evidentes em alguns momentos, como o fôlego entre um refrão e outro, a animação e empolgação que falta em muito jovem de 20 anos sobra nesse senhor de cabelos grisalhos – e, por sinal, bem bagunçados!

Alguns instrumentais demorados acabaram por esfriar um pouco o público no meio da apresentação. Mas nada que uma clássica Whole Lotta Love não compensasse no final.

Jack White e seu show DESTRUIDOR
Jack White e seu show DESTRUIDOR | Crédito: Larissa Honorato

O melhor show da noite de sábado – e, na minha opinião, do festival inteiro – foi o de Jack White. Sério: eu não consegui colocar defeito nenhum na banda dele. Toda a apresentação foi a prova viva de que seguir carreira solo foi sua melhor escolha. Mesmo tocando algumas músicas de suas antigas bandas – The White Stripes e The Raconteurs – a força que este Edward Mãos de Tesoura tem ao vivo é de outro mundo. Um verdadeiro show man!

Apesar da interação tímida para alguém com tanta força nos palcos, Jack enlouqueceu o público – que tinha as letras na ponta da língua. Apesar disso, algumas falhas técnicas impediram o resultado final impecável. O som começou baixo e o microfone sofreu com alguns efeitos barulhentos, que tornaram impossível distinguir o que o músico cantava em alguns momentos. Um erro vergonhosamente primário para um festival desse porte.

Steady As She Goes, We’re Gonna Be Friends, That Black Bat Licorice (maravilhosa!) e Seven Nation Army foram os melhores coros da noite. E é claro que o destaque seria a última, com um encerramento incrível de fogos artifícios e muita gente pulando. Jack White, o senhor é destruidor mesmo.

The Kooks is on the table
The Kooks is on the table | Crédito: Larissa Honorato

Domingo, comecei com o Interpol. A apresentação foi boa, apesar do som baixo. No entanto, a falta de interação dos músicos com o público esfriou bastante o ânimo do mesmo. Teria sido a chuva, talvez? Passando eles, segui com The Kooks – que foi surpreendentemente bom! E não falo isso como uma mera fã! Acredito que a potência da banda cativou até os namorados das gurias, que chegaram ao show com a cara emburrada (sorry, Three Days Grace!).

Mas no final, os moços acabaram se soltando com o indie dançante do grupo, que lotou a arena. Destaque para a quarta do setlist, a queridinha Bad Habit. A tão esperada Sway – que ninguém acreditava que iriam tocar – veio à tona e arrancou milhares de gritos, um belo coro e gestos engraçados da plateia. A simpatia do vocalista (olá, dancinhas!) e sua interação com público foram ótimas.  Só poderiam ter usado o palco inteiro, não?

Eita multidão maravilhosa
Eita multidão maravilhosa | Crédito: Larissa Honorato

Segui para tentar ver um pouco do Foster The People.  Mas foi uma tentativa frustrada e demorada pela quantidade absurda de gente.  Difícil acreditar que só tinha 70 mil pessoas nesse dia. Por causa disso, e do som terrivelmente baixo, vi apenas duas músicas e segui para o show da Pitty, que segurou bem a plateia com hits de peso. Ai, gente, adoro ver moças no palco! Um grande e inaceitável problema técnico foi a falha de quase quarenta segundos de um dos microfones – fato que irritou a cantora, que fez gestos obscenos para os produtores no backstage.

Bastante emocionada com o coro que se formou (até eu fiquei chorosa quando ouvi tudo aquilo), ela abriu para a banda Young The Giant. Mas poderia muito bem ter sido o contrário.

Young The Giant devia ter trocado de lugar com a Pitty
Young The Giant devia ter trocado de lugar com a Pitty | Crédito: Larissa Honorato

Falando neles, tem um som gostoso e uma presença legal. Mas não consegui me prender muito ao show, mesmo conhecendo umas três ou quatro músicas. A plateia estava bem desanimada comparada ao show anterior. E ainda mais ao show seguinte.

Tio Billy é emburrado - porém fofo
Tio Billy é emburrado – porém fofo | Crédito: Larissa Honorato

Smashing Pumpkings foi o maior espetáculo do dia e o segundo maior do festival, mesmo com o começo desafinado e baixo do Billy (William?) Corgan. Os sucessos intercalados com as novas músicas da banda prenderam o público de uma forma inacreditável.

Um coro enorme para 1979, Bullet With Butterflies Wings, Disarm e, claro, Tonight, Tonight tornaram o momento inesquecível. A banda que não parava de sorrir e olhar maravilhada para a plateia, que se emocionou com Being Beige. Billy é surpreendentemente brincalhão em cima do palco, apesar da cara amarrada dar a impressão contrária.

Com isso tudo, e um fofo voto de parabéns ao organizador da porra toda, Perry Pharrell, os americanos encerraram bem o evento. Que venha 2016!

 Mais informações: http://knifeassassin.blogspot.com

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