Resenha Literária: “Tempos Extremos”, de Mirian Leitão, exala nostalgia

Miriam Leitão é uma figura controversa no jornalismo. Sobre seu ofício, nunca consegui concluir exatamente minha opinião. Acompanhando-a como comentarista no Bom Dia Brasil, me vem à mente uma profissional que nem sempre consegue articular bem seus pensamento em palavras. Suas previsões econômicas e opiniões políticas também não casam muito com minhas posições. Ainda assim, como qualquer pessoa com um pingo de bom senso, fiquei horrorizada com o episódio no qual a jornalista foi exposta ao ridículo pelo comentarista da Revista Veja Rodrigo Constantino.

Na ocasião, Miriam revelou ao jornalista Luiz Claudio Cunha como havia sido terrivelmente torturada durante a Ditadura Militar, grávida e obrigada a conviver com uma cobra no escuro. Constantino, que há tempos destila seus comentários de cunho duvidoso, com aquela leva de comparações sobre Brasil e Cuba que ninguém aguenta mais, achou por bem criticá-la pelas revelações e exigir um pedido de desculpas por acreditar que ela teria compactuado com o comunismo – algo que passa do infantil e ofensivo, até mesmo para os padrões da Revista Veja.

Na época, li o relato da jornalista com uma dor muito grande. Me deixa impressionada que pessoas mal informadas ainda peçam a volta dessa atrocidade, desse período obscuro pelo qual o país passou. Dias depois, passando por uma livraria, encontro um livro publicado por ela – sua estreia como escritora – pelo selo da Editora Intrínseca. Fui pega de surpresa porque, até então, a editora me era conhecida pela publicação de best sellers internacionais. Um título nacional é uma glória e tanto! Afinal, precisamos valorizar nossas letras.

Divulgação
Crédito: Camila Honorato

Tempos Extremos me chamou a atenção logo de cara por dois motivos: o nome da protagonista, Larissa, xará da minha irmã que tanto amo; e a junção de dois momentos importantes para a construção da história do Brasil, marcadas no romance pela escravidão e a Ditadura Militar. Eu geralmente tenho afeição por livros que traçam duas narrativas em diferentes períodos. Não à toa, as publicações da escritora inglesa Lucinda Riley se tornaram algumas de minhas favoritas, como vocês poderão ver em futuros posts. Aqui, minha curiosidade marcada pelo relato doloroso da jornalista me levou a pensar que o livro talvez tivesse contornos autobiográficos em alguns momentos. O que, mais tarde, se comprovou.

Larissa não tem nada do que eu admiro em uma protagonista: é extremamente monótona e apegada ao passado. Formada em jornalismo, não se identificou com a urgência que a profissão pede e resolveu estudar história, onde seu amor pelo antigo poderia ser realmente usado. Apesar de tudo isso, a personagem tem um quê de melancolia que a torna instigante, fazendo com que a gente se afeiçoe. Em um primeiro momento, sua família se encontra em um casarão antigo de sua avó, localizado no interior de Minas – aqui, mais um motivo de carinho para com os personagens.

Histórias acerca de um antigo fantasma sondando a casa passam de boca em boca, até chegar ao desinteresse da protagonista, refugiada no meio do mato, distante do marido – um jornalista envolvido em uma investigação sobre a Ditadura – e sem vontade nenhuma de participar dos encontros barulhentos de seus familiares. Um dia, claramente entediada com o comportamento expansivo de sua colega de quarto, Larissa decide dormir no cômodo mais mal assombrado do imóvel. E lá, o fantasma de uma bela mulher negra aparece, desejando contar sua história. A princípio, Larissa hesita. Mas sua curiosidade fala mais alto e ela logo se envolve com a história de Paulina e seu sofrimento na escravidão ao lado do irmão e do pai.

A jornalista Miriam Leitão surpreende como escritora
A jornalista Miriam Leitão surpreende como escritora | Crédito: Divulgação

Em paralelo, o fantasma da Ditadura volta a assombrar a família – e é aqui que vemos a escritora se misturar às suas criações. Miriam parece ter traços da personalidade de Larissa, mas é na mãe da protagonista que vemos um pouco do sofrimento pelo qual ela passou. A mulher já se encontra na casa dos sessenta anos. Tem uma força brutal que se mistura a um lado amargurado, marcado pelas brigas com o irmão, um ex-militar.

Por baixo de tanta força, que exige da filha uma postura mais firme em suas decisões, temos uma mulher que carrega o fardo de ter sido torturada por oficiais, além de perder o grande amor de sua vida para as autoridades quando já estava grávida. É um retrato triste, que se mistura com o envolvimento profissional do marido de Larissa – a grande revelação do livro. Em paralelo, as histórias que relatam a escravidão surpreendem com um grande bônus: é difícil, mesmo nos dias atuais e em pleno século XXI, escritores darem vida, ênfase e força a personagens negros.

Paulina carrega dois lados opostos que a transformaram em minha personagem favorita: a delicadeza e a revolta. No começo, temos uma mulher marcada pelo grande sonho de se ver livre. Inteligente, aprendeu rápido a tocar piano e fantasia com o momento em que finalmente poderá mostrar seu talento ao mundo. Em um segundo momento, vemos uma mulher marcada pela dor, traída, desafiando tudo pelo amor ao irmão.

O livro de Miriam mais entretêm do que surpreende. É uma narrativa gostosa, que prende o leitor. Suas descrições de lugares e dos próprios personagens são muito ricas. É um bom livro sobretudo para entender melhor esses dois períodos tão dolorosos para seus principais vivenciadores.

Uma jornalista que, enfim, se revela uma boa escritora.

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