Crônica: Dia Mundial do Teatro (e a saudade dessa arte no coração)

Hoje, dia 27 de março, é comemorado o Dia Mundial do Teatro – instaurado em 1961 pelo Instituto Internacional do Teatro (ITI) em memória da inauguração do Teatro das Nações, em Paris. Pra muitos, pode ser só mais uma data comemorativa boba, criadas aos montes nos dias atuais. Pra mim, tem um significado grande de saudade. De boas lembranças. De amor.

Conheci o teatro ainda pequena. Não me lembro bem das minhas primeiras andanças pelas poltronas desse mundo mágico. Mas o teatro é um ofício que me acompanha desde muito cedo. Eu adorava me imaginar como uma daquelas grandes atrizes que brilham nos palcos de musicais e nas telas de cinema.

Passava horas trancada no quarto, trocando de roupa, mexendo nas maquiagens e sapatos da minha mãe, criando figurinos e dizendo em voz alta as falas que eu decorava de meus desenhos e filmes favoritos. Também tinha o hábito de ler as falas da maior parte dos meus livros em voz alta, interpretando-as. Cada personagem que me apetecia nos livros ganhava vida em mim mesma.

Tenho essa veia louca de artista que ás vezes mergulha dentro de si próprio pra criar. Sou daquelas pessoas que tem a imaginação fértil, intensa, que ás vezes some do mundo real. Pisciana, como vocês podem perceber. E é claro que a maior parte das pessoas acha esquisito lidar com esses sonhadores. O mundo racional não basta pois nos parece raso, vago. Talvez por isso meus professores tenham tido certa dificuldade pra me compreender. Já me senti exposta muitas vezes quando alguns deles faziam brincadeiras bobas por causa desse meu jeito. Mas tudo bem. A vida tem dessas coisas.

Interior do Theatro Municipal de São Paulo, cuja grandiosidade bem que podia abrigar boas peças...
Interior do Theatro Municipal de São Paulo, cuja grandiosidade bem que podia abrigar boas peças | Crédito: Divulgação

Cresci na sombra desse sonho de interpretar. Brinquei de teatro pela primeira vez aos sete anos, em uma experiência curta, só em aulas engraçadas pra afastar a timidez. Esse primeiro contato me assustou bastante. Aquela professora risonha ao extremo, aquela veia de clown, aquela presença cômica. E eu admirando de longe, com dificuldades de misturar. Acabei acuada por bobagem e fui me expressar nas aulas de pintura, sapateado e yoga.

Anos depois, aos catorze e já no Ensino Médio, consegui matar a curiosidade de estar em uma aula. Começou minha trajetória dentro dos jogos, as apresentações. Tive um professor incrível que inseriu ótimos elementos em cima dos palcos, em uma estrutura muito profissional. Tive contato com Bach nos meus exercícios semanais. Brinquei de Guimarães Rosa em uma peça sobre o sertão ao som de Villa Lobos. Cantei em grupo em um auto de Gil Vicente. Conheci autores ótimos. Fiz uma oficina fora da escola, apresentei peças de comédia. Experimentei o básico do Macunaíma na época que ingressei na faculdade de jornalismo – curso que consumiu meu tempo e dinheiro durante quatro anos nos quais lutei pelo meu direito de estudar.

Formada, voltei pro teatro no final do ano passado, onde fiquei seis meses no profissional do Macu estudando diversos textos incríveis, convivendo com pessoas maravilhosas e uma professora excepcional. Meu fofo professor de teoria também fez a diferença.

Infelizmente, tive alguns problemas pessoais que me afastaram de tudo isso. Sou uma pessoa ansiosa, acelerada. Tudo isso fez com que eu entrasse em colapso e adiasse meu sonho de ser atriz. Nesse tempo, tive o apoio dessa professora linda que me mostrou vários caminhos. Isso foi fundamental pra que eu me reerguesse. Lembro com carinho de tudo hoje em dia, já em paz, e novamente me permito sonhar com o ofício sem aquela bagagem enorme de pressa e cobrança.

Primeira à direita: eu interpretando a 'patroa' de 'Fulaninha e Dona Coisa', comédia de Noemi Marinho sob direção da atriz Alzira Andrade
Primeira à direita: eu interpretando a ‘patroa’ de ‘Fulaninha e Dona Coisa’, comédia de Noemi Marinho sob direção da atriz Alzira Andrade | Crédito: Teatrês/Divulgação

Ser jornalista formada já me custa muita tranquilidade hoje em dia. Porque além de querer interpretar personagens, sou apaixonada pelas letras. Gosto de escrever pra entreter você, leitor. Fazer com que você se apaixone pelos meus textos. Isso já requer muito esforço, porque nosso mundo infelizmente supervaloriza as exatas e esquece da importância das artes e de outras ciências humanas.

Se o mercado de trabalho já está complicado por causa dessa desacelerada na economia, posso garantir que artistas, escritores, jornalistas e outros profissionais de humanas estão sofrendo mais. Nessa jornada dúbia, encaro profissões que oferecem trabalhos curtos, freelancers. Tudo muito autônomo, mas também extremamente instável. Já me deparei diversas vezes com profissionais que ás vezes estão tranquilos e muitas vezes se desesperam pela falta de benefícios. Um contrato CLT e um 13° muitas vezes fazem falta.

Nos palcos, também sempre quis que o público se apaixonasse pelos meus personagens. Estudo sempre que consigo. Entrei em contato com Stanislavski e outros autores importantes e obrigatórios na bagagem de qualquer ator (Nelson Rodrigues, Dias Gomes, Plínio Marcos…). Quem diz que para um ator basta o talento, não sabe o que fala. Me deixa triste, e ao mesmo tempo revoltada, que certas figuras do meio artístico desmereçam tanto a importância de estudar o ofício (vide Caio Castro e companhia). É uma profissão como outra qualquer, que precisa de muita leitura e dedicação.

Tem horas que penso em desistir do sonho de atriz, bem como o de escritora e jornalista. Não vou dizer que é fácil, porque todo mundo que se envolve minimamente com esse meio sabe que são muitos os desafios. Mas também tem um certo elemento que faz toda a diferença na hora de impedir que eu e tantos outros abandonemos esses sonhos e tentemos nos inserir de uma vez por todas no mundo corporativo tradicional. Isso se chama: amor. Amar o ofício impulsiona as vontades.

Ao dia mundial do teatro, minha pequena homenagem e desabafo. Sou grata a tudo que ele me proporcionou – e ainda vai proporcionar.

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