Crítica de Cinema: filme de “Cinquenta Tons de Cinza” é melhor do que o livro

Hesitei muito antes de decidir escrever sobre o filme. Quando o assunto é Cinquenta Tons de Cinza, todo mundo vira crítico de cinema profissional – muitos sem ao menos pesquisar sobre o que estão falando. Mas é claro que como toda jornalista, eu sinto uma certa necessidade de dar pitacos sobre o assunto. E ir na contramão do que a maioria esmagadora da imprensa observou.

Primeiramente: é preciso analisar o contexto no qual a publicação do livro foi inserida. Estamos numa era na qual todos os meios culturais carecem de representações femininas, destinadas ao público feminino. Na maior parte dos livros publicados e dos filmes lançados como grandes blockbusters, o que prevalece são personagens masculinos, que falam para esse tipo de público. E quando o assunto envolve mulheres: estamos sempre sendo representadas como seres que vivem para o imaginário masculino, salvo raras exceções. O teste de Bechdel está aí pra comprovar como a situação ainda é crítica, mesmo em pleno século XXI.

Em relação ao romance de E.L. James: não, ele não passa no teste. Há uma série de falhas narrativas. Uma série de representações bobas sobre o universo feminino. A protagonista vive para um homem que, por trás da riqueza, beleza e chame, tem um caráter explosivo, repressor e machista. Sua amiga Kate, uma jornalista determinada, tem todas as qualidades apagadas em diálogos que falam exclusivamente sobre suas relações afetivas. É claro que isso é um reflexo da obra que inspirou todas as cenas eróticas que se fixaram no imaginário dos leitores: Crepúsculo.

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Crédito: Divulgação

Em comum, ambas são, à primeira vista, completamente inofensivas, com um aparente romance pelo qual todas sonhariam em ter. Mas aos poucos (ou de imediato, pra uma plateia privilegiada), aparecem os defeitos e os questionamentos. Sim, a gente adora romances. Mas por quê às protagonistas de ambos os livros é reservado apenas o antagonismo de suas próprias histórias? Por quê seus parceiros lhes roubam o brilho? Por quê tanta falta de auto estima?

Veja bem: não enxergo ambas as personagens como pessoas de poucas qualidades. Muito pelo contrário: acho que os talentos dos companheiros delas não deveriam roubar tanto esse brilho. Anastasia Steele, por exemplo, é estudiosa, apaixonada por literatura e com grande conhecimento de causa. Sua ingenuidade chega a ser charmosa. Mas por quê, então, ela não poderia ter sido descrita de tal forma? Por quê seus olhos azuis são ofuscados pelo brilho cinza de Christian? Pra que tanta obscuridade, meu Deus? Por quê ela não pode ter o mesmo prestígio da carreira do namorado? Por quê ela não pode se enxergar como uma pessoa tão encantadora quanto ele (cujos “encantos” são bem questionáveis pra mim)?

Apesar de todos esses defeitos, o livro ainda é destinado para as mulheres. O que não é pouco: mulheres são a maioria dos leitores em diversos países (como Brasil, Inglaterra e França) e a necessidade de histórias pra esse público consumidor só aumenta. Além disso, ele pega carona nos best-sellers fabricados pra chamar a atenção de um público específico e, claro, fala sobre sexo. Sexo para as minas, num mundo dominado pelo pornô escrachado que pouco aborda o prazer das vaginas. Mesmo com todos os defeitos, ver a mulherada lendo e falando sobre sexo sem nenhum pudor é um feito e tanto.

Passada essa reflexão, vamos analisar a história e sua adaptação cinematográfica. Muitas mulheres defendem que o livro é um erro e que as peripécias sexuais dos protagonistas escondem um caso sério de violência doméstica. Fico triste que as interpretações tenham chegado a esse patamar, mas talvez esse caso seja atribuído a certas falhas na escrita. Porque a prática de BDSM não é nada menos que um estilo de vida, consensual e saudável. Esse tipo de pensamento reflete o preconceito de muitos em relação a ele – e os problemas pessoais do praticante Christian Grey só contribuem para esses pensamentos tão dúbios de amor e ódio.

Não: pessoas que praticam BDSM não são sempre perturbadas. Muito pelo contrário: é comprovado por psicólogos que esse tipo de prática não tem um passado traumático como principal influenciador. O sexo em si não é o problema, apesar de que muitos dos praticantes reclamem que o livro não relata nem metade do que é o ato em si (o que eu confesso que prefiro, pois acho a parte sutil e ‘baunilha’ do sexo melhor, mesmo com a inclusão daqueles apetrechos todos). O que é irritante é o comportamento controlador do empresário, de vigiar os passos da moça, ser mandão e tudo o mais. É bonitão, rico e charmoso – mas eu não aguentaria nem por cinco minutos essa macheza chatíssima.

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Crédito: Divulgação

O filme, por outro lado, me pareceu diferente, sem toda a enrolação que perdura ao longo de três livros (acho que um só já bastava). A abordagem foi muito melhor. Christian não pareceu ser esse mala todo, talvez pela interpretação do fofo do Jamie Dornan, um ator com todas as características de um Lorde irlandês, super gente boa. Dakota Johnson foi outra ótima atriz, dando uma veia cômica e meiga a uma personagem que parecia tão submissa, mas que ganha mais voz no longa metragem. Tudo isso somado a um roteiro que excluiu boa parte dos diálogos longos e entediantes e à direção elegante da querida Sam Taylor Johnson, além de uma trilha sonora arrebatadora, e temos um filme bacana. Um romance sem grandes surpresas, mas assistível.

Ao contrário das críticas apáticas às cenas de sexo reduzidas, eu acredito que Sam escolheu o melhor caminho. Não se pode comparar um longa metragem desses com a Ninfomaníaca de Lars Von Trier, por exemplo, o que eu acho um completo erro já que são duas abordagens totalmente distintas: um é sobre um romance enquanto o outro procura histórias perturbadoras do vício de uma mulher – marcas de um diretor polêmico, já declarado persona non grata em Cannes por suas declarações escandalosas.

Não se pode esperar o mesmo, visto que Cinquenta Tons de Cinza foi feito pra ser um blockbuster que vende milhões. Desculpa aos que esperavam cenas apelativas, mas eu me enquadro no meio daqueles que não veem a necessidade de closes em genitais pra que as cenas sejam sensuais e provocativas. Embora, confesso, acharia mais justo que Jamie Dornan também tivesse a mesma quantidade de cenas de nudez que sua companheira Dakota.

Ressalto, ainda, que a cena na qual os dois estão no quarto de jogos, brincando com apetrechos, tendo Beyoncé sussurrando Crazy In Love ao fundo,  foi uma das mais interessantes que vi nas telonas. De uma maneira geral, foi aprovado. Melhor assim.

VAI LÁ
Cinquenta Tons de Cinza
Avaliação Final: ♥♥♥ (Bom)

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