A poética do amor: uma crônica sobre o mais nobre dos sentimentos

Camões escrevia sobre o ‘contentamento descontente’ do amor. Sobre a dualidade que acompanha os pensamentos dos amantes. Pra mim, o amor sempre foi sinônimo de uma coisa grandiosa –  a razão pela qual respiram os grandes poetas. Poetas, esses, que me fascinaram desde a infância.

Eu sonhava com o amor na sua forma literária mais pura. Sonhava com cartas e mais cartas entregues sem assinatura e perfumadas. Mulheres sempre tiveram essa relação forte de associar pessoas e coisas a cheiros – o que eu sempre achei lindo. Eu queria uma paixão platônica que se revelasse um poeta de alma grandiosa, que vivia unicamente para amar e ser amado – e traduzir para os leitores em palavras a intensidade daquele sentimento que o acalentava e doía ao mesmo tempo.

Hoje, viver unicamente para o amor me parece algo doentio. Experimentei por mim mesma a sensação de ser musa inspiradora de quem tanto amava – e nada mais. Sei do desespero que é carregar o sentimento de estar apaixonado vinte e quatro horas por dia, sem mais nada a fazer pelas outras horas que se estendem. E de repente me vi aqui, como um poeta atormentado que só vive para o amor e abdica de outras horas que tem para si mesmo. Não sabe escrever sobre outras belezas – apenas a figura inspiradora de quem visita seus sonhos rouba-lhe os pensamentos.

Não queria eu viver esse amor grandioso que tanto aparecia na literatura? Não queria eu própria transmitir para alguém sobre esse amor que tanto conhecia e sonhava?

Hoje em dia, os poemas apaixonadas se perdem em meio a tantas reflexões e críticas sobre o amor romântico. Estudiosos apontam teorias do que seria saudável para uma relação. Que as imagens que criamos de um possível parceiro não existe e que deveríamos parar de consumir uma cultura que só serve para frustrar expectativas e criar roteiros que não existem. Então abdiquei da literariedade dos sentimentos, vivendo unicamente o que eu acreditava ser o certo. Afinal, a gente se convence facilmente das grandes teorias. Aponta estudo.

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Cena do filme “UP – Altas Aventuras” | Crédito: Divulgação

O problema é que morreu em mim aquela vontade de dedicar palavras a quem amo. Sobrou aquele sentimento de vergonha por tentar manifestar um sentimento que poderia sufocar. Enterrei aquela gota romântica que temperava meus cadernos e alimentava meus sonhos. O sonho de conhecer o amor mais puro se realizou, mas sem aquela ganância de mostrar um mundo de possibilidades através do que eu acreditava ser tão lindo quando sonhava dentro do quarto, lendo.

Acontece que não existem fórmulas mágicas pra conceber relacionamentos. Ninguém sobrevive a tantos estudos que justificam nossos comportamentos no amor (e outras cositas mais). Não há verdades universais, pois o que funciona pra um casal pode não funcionar para outro. Abdicar do amor romântico pode fazer muito bem para algumas pessoas, como pode não ser legal pra outras. O poliamor e as relações livres podem ser a fórmula perfeita para um grupo, mas não funcionar bem para outro. Há até quem defenda o ciúmes! Uma amiga certa vez me confessou que adorava senti-lo e que sentissem por ela, pois isso lhe dava uma sensação de poder, e ao mesmo tempo de ser querida. Então tá, quem somos nós pra julgar o que fazem os amantes ao pé da cama? E como fazem!

Hoje vejo que sempre precisarei de uma parte do que o romantismo de José de Alencar reservava a tantas belas virgens dos lábios de mel. Não em doses estratosféricas, como há tempos víamos nos Sofrimentos do Jovem Werther, que lhe custou a vida. Mas uma dose que pode temperar – e fazer bem a quem ama e gosta de manifestar. E de quem gosta de recebê-lo.

Precisamos sempre de uma dose de equilíbrio das coisas – o que parece óbvio, mas temos tanta dificuldade em acatar. É mais difícil do que pensávamos – e ao mesmo tempo não é. Como a dualidade que Camões citava em seu soneto e com a qual iniciei essa crônica. Do amor sério e contido dos elevadores à cafonice das fotos escandalosas debaixo do pôr do sol. Ou não tão cafonas assim, é claro.

No fundo, é tudo uma questão de perspectiva. Mais uma taça de vinho, por favor. Porque estou em meio à dor que desatina sem doer.

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