Crítica de Cinema: “Jogos Vorazes – A Esperança” e o tiro na sociedade do espetáculo

Uma heroína pode significar muitas coisas. Ela pode desde empunhar espadas contra inimigos como alfabetizar crianças carentes e dar esperanças de um futuro melhor para determinados indivíduos. Uma palavra forte e singela, com múltiplos significados. Todos eles, é claro, sempre atrelados a coisas boas, que acalentam e oferecem a tão sonhada esperança.

Esperança essa que dá título ao último volume da saga Jogos Vorazes – adaptado para os cinemas pelas mãos do diretor Francis Lawrence e cuja primeira parte estreia nessa quinta-feira (20). Falar de Jogos Vorazes é sempre uma reflexão profunda sobre as condições torpes do ser humano, a banalidade no ato de matar e a sociedade do espetáculo, que se mostra a cada dia mais absurda (vide a última do apresentador naturalista Paul Rosolie, que se filmou sendo engolido por uma sucuri e acionou o alerta de entidades protetoras dos animais).

A cada linha que se percorre pelos livros da autora Suzanne Collins, nota-se uma forte crítica à mídia sensacionalista e aos absurdos dos indivíduos pela fama. Apesar dos questionamentos de críticos mais radicais quanto à qualidade literária de autores contemporâneos, a narrativa de Collins é bem conduzida, prende o leitor e recorre a palavras e expressões certas. E não: o sucesso com o público adolescente nesses casos nunca deve ser subestimado. Devemos, sim, incentivar nossos jovens leitores e apoiá-los quando qualquer assunto exige uma reflexão mais profunda.

The-Hunger-Games-Mockingjay-Part-1-Katniss-Everdeen
Crédito: Divulgação

À frente da personagem principal, Katniss Everdeen – a famosa heroína com quem iniciei esse texto – Jennifer Lawrence recorre a uma agressividade deliciosa (apesar de que eu ainda acho que ela deveria parar de dar declarações polêmicas sobre o quanto não estuda interpretação e mergulhar de vez na causa). Quase me esqueço que, ao ler os livros, imaginei uma personagem completamente diferente do habitual biotipo hollywoodiano.

Na minha mente, ainda persiste uma jovem de pele cor de oliva e olhos escuros, que eu esperançosamente torço para ganhar mais espaço nas telonas como protagonistas. Mas é claro: isso é pauta para um post completamente diferente e que me comprometo a publicar. No momento, só consigo imaginar o quanto o cinema também carece de figuras femininas autônomas, fortes, que não se apoiam num falso protagonismo masculino. Katniss é, sobretudo, uma heroína nos seus anseios – mas também é fabricada duplamente para ser a figura que uma população inteira almeja.

Primeiramente, a heroína que ganha uma das edições dos games e, de quebra, salva a pele do amor pré-fabricado. Segundo, a heroína comprada pela revolução, que também revela seu lado obscuro. E é nesse lado que Francis Lawrence procurou focar: as pesadas consequências de se deixar levar para agradar toda uma população.

A trama tem uma boa quantidade de efeitos visuais e sonoros, que se encaixam bem no roteiro.  Personagens secundários, sobretudo mulheres, ganham uma presença forte, muito creditada pela competência das atrizes, tais como Julianne Moore, Elizabeth Banks e Natalia Dormer (nos papeis da Presidente Coin, Effie Trinket e Cressida, respectivamente).

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

A reflexão do filme, no entanto, é o quanto esses mesmos personagens usam das fraquezas emocionais de Catnip para reforçar a imagem do Mockingjay, que no fundo é uma jovem corrompida pela dor que deseja viver sem os habituais pesadelos que a atormentam, com imagens da arena dos jogos. E claro: salvar Peeta (o sempre ótimo Josh Hutcherson) das mãos do Presidente Snow e das torturas corriqueiras da Capital. Aliás, é justamente essa tortura que dá a deixa para a continuação do filme e, consequentemente, o término da saga. Sim, o final do filme é repentino e gera expectativas.

Pra quem assistiu aos outros filmes (tenha bom senso e não cogite ir ao cinema se for o contrário), é uma injeção de adrenalina e muitas informações para serem absorvidas – ou seja, não pisque. Mas ainda assim, vale a pena. Por toda a ação dos personagens, as reflexões trazidas à tona, as revoltas decorrentes de um sistema autoritário (Donald Sutherland, que dá vida à Snow, está competentemente mais insuportável do que nunca).

Não esqueçamos, é claro, do excelente Philip Seymour Hoffman, falecido em fevereiro desse ano. A forma com a qual interpreta Plutarch Heavensbee faz sua figura ainda mais memorável, sobretudo para milhões de jovens que puderam conhecer mais de sua bela trajetória no cinema.

Obrigada, Hoffman.

VAI LÁ
Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1
Avaliação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom)

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