Mulher e comida: por quê você deve cortar essa relação de culpa

Faz um tempo que tenho notado a relação brusca que a maioria das mulheres tem com a comida. E fico triste. Não que eu seja um modelo de autoestima e uma pessoa 100% confiante em relação ao próprio corpo: tenho lapsos bons e ruins, como toda pessoa que habita este mundo. No entanto, observar a insegurança de outras mulheres me deixou reflexiva, a ponto de pensar todos os dias se eu mesma estaria vivenciando essa imagem radicalmente deturpada de mim mesma.

Explico: há algum tempo, vejo que o principal assunto em grande parte dos almoços que participo com mulheres é justamente a comida. Já ouvi relatos impressionantes de quem já passou por cirurgias de redução de estômago e perdeu peso drasticamente – pessoas que tratam sua antiga forma como algo nojento. Também participo de debates longos promovidos pela quantidade ou qualidade de comida que cada uma coloca no prato: no dia da sopa, o pão é um crime hediondo; no dia da comida por quilo, menos é mais (se o preço do prato dá R$ 5, é sinal de que você está comendo bem). Isso sem falar na gelatina, que é de graça na maioria dos casos e compensa a gula de comprar um bombom de R$ 2. E motivo de glória.

Crédito: JESHOOTS.com/StockSnap
Crédito: JESHOOTS.com/StockSnap

Não, eu não condeno quem controla a alimentação e passa boas e extensas horas dentro de uma academia. Não acredito que o culto ao corpo deva ser condenado sob toda e qualquer ótica. O problema é quando você transfere a responsabilidade que tem com o próprio corpo para a autoestima – e condena a si mesmo por qualquer movimento taxado como deslize. E principalmente: o problema é quando você distorce tanto esse culto ao corpo que ele vira até doença. Hoje escutei uma amiga minha dizendo que vai voltar pra rotina depois de comer uma barra de chocolate como se isso fosse uma coisa ruim. “Olha só, fiquei em casa sozinha vendo um filme e detonei uma barra toda. Meu Deus, que crime!”. E uma colega do lado concordando que não foi uma atitude sensata. Fiquei ofendida.

Me ofendo porque, ao olhar para as duas, me deparei com dois corpos saudáveis que exalavam felicidade. E em resposta escuto que três ou quatro quilos precisam ser perdidos a qualquer custo, enquanto porções minúsculas e mal distribuídas ocupam o prato da pessoa. Sempre oito ou oitenta, com mulheres diferentes e mais de uma vez. Sempre uma relação de condenação. Nunca dizendo que está bonita – e sempre estão.

O que me incomoda sempre nessas conversas do almoço é ver o quanto a relação entre a comida e o sexo feminino é de culpa e restrição. Comer com prazer é pra poucas: é a declaração daquela modelo famosa que estampa capas de revista e diz que não faz dieta nenhuma, mas que qualquer pessoa deveria saber que a realidade é completamente diferente, pois são pessoas que vivem pra isso. É o ganha pão delas, ora essa.

Crédito: Snapwire/StockSnap
Crédito: Snapwire/StockSnap

Esse tipo de declaração deveria vir com uma carga de responsabilidade por iludir meninas e mulheres. Cada organismo é diferente, cada paladar tem uma preferência. E nenhum deles é melhor do que o outro, não existe um único tipo que se encaixe na perfeição – que na realidade não existe e nem nunca vai existir. Cada corpo é único e cada pessoa deve ser feliz com o que quiser pra si mesmo.

Desde sempre, escuto que mulheres foram ensinadas a terem vergonha de si mesmas e a se acostumarem com um alto juízo de valor atribuído a seus corpos. Me incomodo muito quando as ouço dizer que estão feias, ou como fulana de tal causou um rebuliço daqueles com aquela barriga maravilhosa. Isso é doloroso: sempre tenho vontade de perguntar se elas realmente estão olhando para si mesmas, e não tendo uma visão deturpada provocada por pressões externas.

E isso reflete outro mal que acomete a relação da mulher com a comida, que é a competição excessiva entre elas. Por quê é tão difícil olhar para a outra com o olhar reservado unicamente à admiração, e não a uma comparação feita para se diminuir e fazer com que aquele prato de arroz e feijão seja engolido com um pensamento negativo? Pra quê se diminuir e culpar a outra? Pra quê se comparar dessa forma, se cada mulher é bonita do seu jeito e nenhuma é igual à outra? A beleza da outra nunca diminui a sua – isso é o que uma indústria inteira de pessoas mal intencionadas quer que você pense pra ficar se cobrando, mas não é verdade.

Crédito: Photo Mix/StockSnap
Crédito: Photo Mix/StockSnap

Não há nada de errado no corpo malhado, magro, gordo, etc. Seu peso não deveria ser um fator tão determinante da sua personalidade e da sua beleza. Como condenar tanto a si própria por não parecer as mulheres de capas de revista, sendo que a realidade de cada uma é completamente diferente? A rotina de uma advogada pode ser diferente da rotina da atriz, da médica, da cozinheira, da dona de casa, de quem acabou de ser mãe. A preferência do que cada uma coloca no prato é diferente. Porque esperar, então, que cada uma seja exatamente o padrão enganoso imposto por terceiros?

Vejo muitas mulheres se tratando como lixo por terem comido um pedaço de pizza (a comida lixo). Ficar estufada depois do almoço? Jamais! Até a protuberância que se forma depois de cada refeição é motivo de vergonha no universo feminino – como se fosse algo antinatural.

Crédito: Dana Tentis/StockSnap
Crédito: Dana Tentis/StockSnap

Meu desabafo não é destinado a colocar quem malha e tem uma alimentação mais regrada numa posição ridícula. Afinal de contas, cada um faz o que bem entende com o corpo desde que fuja de doenças sérias e de uma cobrança que distorce e prejudica. Mas por favor: parem de achar que comer sem culpa é errado. Não tratem a comida e a si mesmas como se fossem uma coisa qualquer, feia, pecaminosa e sem brilho.

Eu peço por mais autoestima e carinho com vocês mesmas e com a comida que colocam no prato. E que os assuntos discutidos no almoço não sejam os pecados absurdos do final de semana ou os shakes a serem consumidos em larga escala pra perder cada vez mais peso, sem estipular um limite, um objetivo. Querer sempre mais pode ser perigoso. E não há nada mais saudável do que discutir outros assuntos à mesa, que te façam rir e se sentir bem.

Seu corpo, sua mente e seu otimismo agradecem.

Tá liberado achar todas as fotos selecionadas pra esse post apetitosas! O importante é comer bem, sem culpa e com consciência dos melhores ingredientes pro teu corpo. ♥

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