Crítica de Cinema: “Malévola” acerta com nova versão de conto de fadas

Uma vilã marcada por séculos como uma das bruxas mais cruéis dos contos de fada. Uma princesa doce e amaldiçoada, cujo encanto dependia única e exclusivamente de um beijo de um príncipe encantado. Junte os dois e você tem a nova adaptação da Disney para clássicos que fizeram seu nome forte e eterno. A diferença é que nenhuma dessas duas descrições se aplica a Malévola.

Na carona das produções inspiradas em clássicos, que ganham mais intensidade em cenários obscuros e tramas mais densas, o longa já causa discussões acaloradas sobre as novidades no mundo dos contos de fadas modernos, que começou lá atrás com A Princesa e o Sapo e a inserção da primeira protagonista negra dos filmes de princesas da Disney, e evoluiu ainda mais com Valente e Frozen. Os dois últimos têm mais em comum com a produção recente do diretor Robert Stromberg do que deixam transparecer.

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Crédito: Divulgação

Pra começar, todos esses filmes quebram com o paradigma de que as princesas são mulheres indefesas que precisam de príncipes másculos, belos e fortes (e ricos) para serem salvas de algum perigo. Aqui, aborda-se a importância dos laços familiares entre mãe e filha e duas irmãs. O resultado disso, ao contrário do que certos críticos machistas pensam, é uma leveza muito grande nas tramas, mais divertidas e espontâneas.

Antes que me acusem: não, eu não acho que a figura masculina deva ser excluída desses filmes – elas só devem ser realocadas para atuarem lado a lado com personagens femininas, e não numa relação de domínio ou superioridade. Contos de fadas (assim como muitas outras coisas desse mundo) precisam se reinventar e se modernizar, buscando novas formas de atrair e entreter o público, não cometendo o erro de estagnar.

Em Malévola, quebra-se a rivalidade absurda entre mulheres e reinventa-se o conceito do personagem central: vilão e mocinho se unem numa mesma pessoa para mostrar que ninguém é perfeito e todo mundo tem suas nuances. Aqui, os chifres ganham muito mais charme do que provocam medo: eles são a marca de uma criatura fantástica – uma fada complexa, e não meramente um demônio. A vingança ganha justificativas compreensíveis, marcada pela invasão do ser humano na floresta, um abuso em prol de um título nobre e uma traição.

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

A bela adormecida Aurora (Elle Fanning) deixa de ser a personagem central para agir como uma coadjuvante que tem vontade própria. E a protagonista é repleta de complexidades e expressões intensas, que não poderiam ser interpretadas por outra pessoa que não fosse Angelina Jolie, no papel que eu considero o melhor de sua carreira.

Muitos elementos da clássica animação foram mantidos: a cena na qual Malévola invade o batizado para amaldiçoar a princesa tem semelhanças que empolgam ao extremo. Há uma quantidade enorme de efeitos especiais irreais, mas muitas vezes satisfatórios (como as cenas de transformação do corvo charmoso interpretado por Sam Riley). A melhor parte da fotografia do filme são as tomadas com cenários escuros e muitas cenas noturnas, que destacam ainda mais o figurino perfeitamente escolhido pra personagem principal. Em suma: tudo casa muito bem por aqui.

Crédito: Divulgação
Crédito: Divulgação

No entanto, o ponto forte do filme são as expressões que fogem do óbvio, a quebra da inocência e da noção de que tudo que é meramente intocado é perfeito. As cenas de Angelina com o bebê são impagáveis, a ponto de você pensar em como nunca torceu tanto por essa vilã divertida antes (ao contrário daquelas três fadinhas coloridas e insuportáveis). E prepare-se pra sentir muita raiva do rei, além de esclarecer algumas dúvidas deixadas no ar pela primeira animação (como o por que de a maldição ser consumada aos dezesseis anos da princesa).

Resumindo: o filme tem todo um debate por trás. Mas na prática, diverte como todo bom filme de ficção deve divertir. E chupa, príncipe bundão! Viva o verdadeiro beijo de amor.

VAI LÁ
Malévola
Direção: Robert Stromberg
Elenco: Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Sam Riley, Juno Temple, Brenton Thwaites, Ella Purnell, Imelda Staunton e mais.
Avaliação Final: ♥♥♥♥ (Muito Bom).

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