“Do barro ao concreto”, uma crônica sobre o interior de Minas Gerais

Na beira da estrada, o pôr do sol descortinava-se atrás do manto verde, onde rebanhos inteiros se ocupavam. Ninguém sinalizava ou pedia carona – só se ouvia o ronco baixo do rádio e pingos de chuva, onde o barulho da terra embalava o sono de viajantes.

Ao amanhecer, o cheiro de café anunciava o início de um dia preguiçoso, com passos lentos pelas ruas curtas cercadas de placas marcadas pelo tempo. Não havia prédios ou pessoas se acumulando no caos. Não tinha cheiro de cidade grande, de grandes comércios, de pratos preparados em restaurantes paralelos. Mas tinha fumaça boa, de alimento farto.

Ao longe, os caminhos de terra convidavam a uma nostalgia desesperadora e silenciosa, com construções abandonadas em ruínas. Pessoas calmas falavam alto, como se o eco propagasse suas vozes e as levassem longe, para ouvidos atentos e selvagens.

No alto, uma estátua serena observava, apadrinhado a calmaria da cidade vazia. Os ventos cortavam pelo espaço, reservando uma melancolia acolhedora marcada por orações, promessas e histórias escondidas – com o manto colorido a observar. Abaixo, corpos felinos se abaixavam pedindo carinho no concreto raro. E pela frente, só se via o caminho da roça, os campos vazios e esverdeados a acenar.

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Cidade de Campos Altos (MG) | Crédito: Camila Honorato

O entardecer por vezes mostrava ladeiras belas, com visões de antigos trens de carga a dar adeus. Uma bola corria ao longe, revelando risadas espontâneas de crianças brincando.

À noite, não se via multidões caminhando na rua. O comércio não funcionava e as portas ficavam fechadas. Ninguém dançava, gritava ou falava. Só se ouvia o silêncio, ecoando imponente.

Na casa, o piso era frio e vermelho, com baús antigos de madeira nos cantos. As paredes eram antigas e o solo era feito de infância. Uma infância alegre e acolhedora, passada de boca em boca. Galos cantavam com um papagaio, que conversava com um cachorro. A cozinha pequena escondia conversas, mas já não abrigava um velho fogão de lenha. Ausentava-se o crepitar das chamas em panelas de barro, anunciando o estado de barriga cheia.

A volta pra casa foi recheada de saudade, de sons abafados e palavras não ditas. Já não havia conversas altas, refeições fartas e hortas cuidadas. Não havia tilintar de copos, rolhas de vinho, barril de cachaça, cheiro de café torrado ou queijos aos montes em cima da mesa. E também não tinha sotaque.

Na beira da estrada, o anoitecer anunciava as luzes da cidade urbana, onde rebanhos davam lugar a faróis e cavalos não tinham espaço. Me restou o alívio de voltar pra casa, pro meu caos acolhedor.

Alívio este que me despertou pela manhã com uma realidade dura: me faltariam histórias pra contar, olhos verdes a me acolher de madrugada e abraços longos aquecendo sonos profundos. Me sobraram lições de vida da monotonia que me acolheu. E que até hoje me custa abandonar.

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